O oportunismo e a desobrigação de efetivar contrapartidas são companheiros de longa jornada do setor de turismo. O debate sobre seus impactos vem pautando retóricas discussões. Temos até o surgimento de braços mais amigáveis, como o Turismo Ecológico, o de Observação e o de Aventura.
No entanto, ao frigir dos ovos as ações vigentes continuam muito mais próximas do condenável turismo predatório do que das propagadas ações sustentáveis. Fica evidente que a mais-valia com os poupudos recursos arrecadado pelas empresas e governos, do que o bem estar das comunidades locais e dos visitantes.
Tragédia não anunciada
A maior prova que essa ainda é a lógica vigente é o dramático caso da brasileira Juliana Marins morta após cair enquanto percorria uma trilha no entorno do vulcão Rinjani, na Indonésia. Não foi um acidente ou uma fatalidade. A jovem niteroiense foi assassinada pela irresponsabilidade e a negligência.
Foi uma combinação de fatores que levaram a esse trágico desfecho. Começa pelo possível abandono pelo guia que seguiu em frente com o grupo, deixando para traz a brasileira que sentiu-se mal e cansada. Faltaram ainda uma comunicação integrada pelos envolvidos na operacionalidade e o atendimento especializado por um profissional de saúde.
Outro fator preponderante é a falta de estrutura no local mesmo estando sendo explorado como um movimentado equipamento turístico. A inexistência de uma eficiente sinalização do percurso, placas de alerta, cercamento e contenção do espaço vulnerável a desmoronamentos e falta de visualização agravada pela instabilidade climática.
Negligência
A inacreditável demora no resgate é incompatível com os recursos tecnológicos e de conhecimento disponíveis e acessíveis no mundo de hoje. Também é clara a inexistência de um protocolo emergencial de socorro, assim como equipamentos e pessoas treinadas para a ação.
O descaso não para por aí. Além de ter sido retirada da área da queda somente depois de morta, a demora também se faz presente nos processos burocráticos de liberação e de translado.
Mesmo com a facilidade de comunicação trazida pela digitalização e as intensas conexões globais da logísticas aérea, o corpo só tem previsão de chegar ao Rio de Janeiro na próxima quarta-feira, prolongando os dias de sofrimento e expectativa de familiares, amigos e o grande número de pessoas impactadas e empáticas.
Responsabilidade Global A "culpa" não pode ser atribuída somente a Indonésia. Essa conta precisa ser rateada pelos envolvidos na cadeia internacional dos que exploram esse rentável segmento, assim como órgãos reguladores e de fiscalização. Até porque, pela natureza do negócio ele acaba atraindo mais visitantes de outros países do que o próprio indonésio.
Não é possível que nenhum agente internacional percebeu as agora claras vulnerabilidades do local. Também não são explícitos os alertas de riscos no segmento intermediário que negocia as etapas complementares que viabilizam a chegada dos turistas estrangeiros, como venda de passagens aéreas, pacotes de visita, reservas de hospedagem e nos matérias de divulgação.
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