Rafael Nogueira Divulgação

O mundo está tão doido que celebramos o fato de o Papa crer em Deus. Inclusive a nossa ex-presidente Dilma Rousseff, no velório de Francisco, achou por bem esclarecer que se tratava de “um homem religioso”. A frase virou manchete, meme e meme da manchete. E, por incrível que pareça, fazia algum sentido. Agora principalmente. Com tanta gente acompanhando o conclave como se fosse final da Champions, torcendo por um papa progressista, articulado, globalista ou, no mínimo, apresentável no Fórum de Davos, alguém precisava lembrar que o sujeito lá é, ou deveria ser, religioso.
Todos os olhares estavam voltados ao conclave. Saiu o branco da chaminé no dia 8 de maio. Era Leão XIV — nome de rei, alma de frade, sotaque de missionário. Primeiro agostiniano no trono de Pedro, segundo americano do time, e, vejam só, nem parecia americano. Falava em latim, italiano, espanhol… demorou até que alguém achasse um vídeo em inglês. E quando acharam, surpresa: ele falava inglês. Mas foi no Peru, e não nos EUA, que ele aprendeu a rezar com o povo.
O nome é homenagem clara a Leão XIII, o papa que, no fim do século XIX, não apenas inaugurou a doutrina social católica com a Rerum Novarum, mas também restaurou os estudos tomistas com a encíclica Aeterni Patris. Leão XIV parece querer continuar o legado do antecessor homônimo: demonstrou preocupação com a dignidade humana, com as liberdades, com as novas tecnologias, com os impactos da inteligência artificial — e, ao mesmo tempo, sustenta a linguagem precisa da tradição.
Sua eleição lembrou a de João Paulo II: Karol Wojtya surgiu, em 1978, como nome inesperado ao fim do conclave, após oito escrutínios. Prevost despontou já no quarto, mas nenhum dos dois figurava entre os favoritos da imprensa, dos vaticanistas, ou do público leigo — ambos reuniram, em silêncio, consensos firmes. A diferença: João Paulo II era um desconhecido; Prevost já presidia o Dicastério para os Bispos, um dos mais relevantes da cúria romana. Não foi um outsider no Vaticano, mas o foi para quase todos fora dele.
Se com Francisco houve arranca-rabos, Leão XIV envia sinais de que já chegou costurando tudo: formas litúrgicas, estilos pastorais, as mais diversas divisões internas. Seu lema: In Illo uno unum — “Naquele único, sejamos um”. Em português de boteco: chega de briga.
Não se deve esperar um grande virar de mesa. Leão XIV é moderado — daquela moderação prudente que nada tem a ver com a covardia. Não vai aposentar o latim, nem cancelar o missal tridentino. Vai, talvez, dar até mais alento aos que vivem sua fé no espírito da tradição. Entre conversas de corredores e olhares em nunciaturas, suspeita-se que o novo papa gozava de indulto pessoal para celebrar na forma extraordinária. Sinal de que o rito antigo, se não for restaurado plenamente, será ao menos tratado com respeito — como quem reconhece ali não peça de museu, mas memória viva.
Quanto aos temas de sempre: gênero, sexo, confusão — foi muito claro. Em 2012, como prior-geral agostiniano, Prevost lamentou que a cultura midiática promovesse simpatia pelo “estilo de vida homossexual”, contrário à doutrina católica. Em 2016, como bispo de Chiclayo, no Peru, foi ainda mais incisivo: denunciou a ideologia de gênero como “criação de gêneros que não existem” e declarou que ensiná-la às crianças gera confusão. Ainda assim, faz questão de lembrar que adultos devem ser respeitados em suas escolhas. Diálogo, sim. Mas sem confusão: navio sem leme, naufrágio certo. Firmeza na doutrina, abertura pastoral: não é fórmula mágica, mas parece bom senso.
No Regina Caeli de estreia, em 11 de maio, Leão XIV exortou os católicos a serem “faróis nas trevas”. Lembrou que a credibilidade da Igreja não vem de suas estruturas, mas da santidade de seus membros. Insistiu na oração, na caridade, na missão. Com espírito, com corpo, com comunidade. Não era poesia, era convocação. Pregar, servir, rezar. Tudo junto. Tudo agora. Com corpo e alma. Nada de espiritualidade de aplicativo.
E o Brasil? O Brasil observando como quem espera nomeação de técnico novo. Afinal, por aqui, ainda se lota missa de domingo e se pede bênção antes de pedir voto. O nome caiu bem: Leão XIII, em 1888, mandou à Princesa Isabel a Rosa de Ouro pela abolição da escravidão. Leão XIV, ao que tudo indica, entende o peso dos gestos. E conhece a região. Foi missionário aqui por perto, sabe que o drama latino é mais barroco que ideológico.
Já foi convidado para a COP30. Que venha. Mas que não troque a salvação das almas por foto no Instagram da ONU.
Falou em sinodalidade também. Palavra bonita, meio nebulosa, mas ele a usou com clareza. Quer escuta, quer corresponsabilidade, quer diálogo — mas sem esfarelar a hierarquia, sem confundir autoridade com assembleísmo. Lembrou o Vaticano II sem cair no jargão nem na caricatura. Parece encarar suas polêmicas sem ingenuidade, e com maturidade.
Enfim, temos um papa. Não um embaixador da ONU, não um marqueteiro do Apocalipse, não um entusiasta da reinvenção perpétua da Igreja. Um homem que parece acreditar no que diz, e dizer o que crê. Que reza de joelhos e governa com a cabeça. Que não tem vergonha da fé nem medo da doutrina.
Pois é. Hoje a situação é esta: comemoramos que o papa é católico. O que, cá entre nós, já é mais do que se podia esperar. Ao menos para quem ainda vê Globo. Que Deus nos conserve esse milagre. E que a incredulidade dos poderosos não nos tire a fé de nossos avós.