Rafael NogueiraDivulgação

Semana passada, Flávio Bolsonaro esteve no Salão Oval, em Washington, e passou pelo Departamento de Estado. Hoje tudo foi resumido por Lula numa sequência de frases infelizes. E foi a fala do presidente que mais uma vez nos deu exemplo do mau estado do debate público nacional.
Recapitulemos, porque a memória brasileira anda curta, seletiva e meio bêbada. Entre 26 e 28 de maio, Flávio foi recebido por Donald Trump na Casa Branca, encontrou-se com autoridades americanas e defendeu a tese segundo a qual Comando Vermelho e PCC já não são só problemas de delegacia, porque são organizações com domínio territorial, redes internacionais e capacidade de desafiar o Estado.
As facções brasileiras deixaram de caber na segurança pública convencional, por mandarem em territórios, infiltrarem-se na economia e humilharem o cidadão comum, superando o banditismo comum por inaugurar uma soberania paralela — o verdadeiro problema de soberania de que padecemos.
Diante disso, Lula de novo perdeu a compostura. Comentando a ameaça de novas tarifas americanas, chamou os filhos de Bolsonaro de “vendilhões da pátria”, “traidores” e invocou a Inconfidência Mineira, dizendo que, por menos do que isso, Joaquim Silvério dos Reis, delator de Tiradentes, teria sido enforcado. E perguntou: “O que merecem os traidores da pátria?”
A resposta é da história, essa velha senhora que não frequenta comícios petistas. Joaquim Silvério dos Reis não foi enforcado. Nunca. Jamais. Recebeu vantagens, honrarias, pensão, proteção e morreu de morte natural no Maranhão, em 1819. Quem subiu ao cadafalso, em 21 de abril de 1792, foi Tiradentes. O traidor prosperou. O patriota foi à forca.
Não lhes trago preciosismo de professor corrigindo prova. Lula quis chamar o adversário de Joaquim Silvério e acabou entregando-lhe a túnica heroica de Tiradentes. Pior: reservou para si o papel do carrasco, daquele que aponta o dedo, distribui a pecha de traição e pergunta o que deve acontecer com o inimigo.
Dirão que foi força de expressão. Mas palavras presidenciais não são conversa de boteco. Um chefe de Estado fala com a liturgia do cargo, com a caneta que nomeia, com o aparato que pune e com a máquina que investiga.
Façamos, então, uma higiene intelectual. Dizem que Flávio se aliou a uma potência estrangeira que ameaça tarifar o Brasil e mirar o Pix. A frase é hábil porque mistura coisas diferentes, esperando que a confusão faça o serviço que a razão não conseguiu fazer.
Uma coisa é a agenda de segurança: classificar PCC e Comando Vermelho como organizações terroristas, apertar circuitos financeiros e dificultar conexões internacionais. Outra é a agenda comercial de tarifas e retaliações, que pertence a Trump e aos interesses dos Estados Unidos. Flávio não a criou; ao contrário, opôs-se a ela e pediu que empresas brasileiras não fossem taxadas. Não se pode fingir que pedir pressão contra facções criminosas equivale a pedir prejuízo para exportadores brasileiros.
Quanto ao Pix, a ironia é didática. O sistema nasceu no governo Bolsonaro e se consolidou como raro caso em que o Estado entregou algo moderno, rápido, útil e popular. Flávio pediu que se valorizasse “o nosso Pix”. Acusá-lo de querer destruí-lo é treta, delírio, maledicência.
A pergunta séria é: quem transformou Pix, agro, etanol, exportador e emprego brasileiro em moeda de troca de uma disputa mal conduzida? Quem confundiu altivez com isolamento, soberania com birra, diplomacia com encenação de soberba?
Soberania não se mede pelo grito em palanque; mede-se pela capacidade de proteger o que é nosso. País soberano conserva margem de manobra, sabe negociar, sabe punir criminosos, defender produtores e distinguir inimigo externo, adversário interno e organização criminosa.
A forca de Lula saiu trocada. Quis entregar o adversário à infâmia de Joaquim Silvério e acabou lembrando que a memória nacional consagrou não o funcionário útil ao governo perseguidor, mas o homem punido por desafiar uma ordem autoritária. O tempo cobra de quem oferece a forca.

Rafael Nogueira é Historiador, Filósofo, Mestre em Direito e doutorando em Ciência Política