Pepeu Gomes - Daryan Dornelles/divulgação
Pepeu GomesDaryan Dornelles/divulgação
Por Ricardo Schott | [email protected]

Rio - Está começando na guitarra e quer tocar igual a Pepeu Gomes? Então, vá estudar. E todos os dias. Aos 66 anos, com uma carreira que passa do meio século, e lançando novo disco de inéditas, 'Eterno Retorno', o guitarrista baiano tem um ritual diário: vai a seu estúdio, pega a guitarra e vai aprender coisas novas. Sempre.

"Eu estou a cada dia aprendendo. Vou fazer um show de música instrumental, que exige muito mais de você que a música cantada, então vou lá e estudo, duas, três horas. Não admito errar, sou exigente comigo mesmo", exclama o músico, que se renova fazendo canções com novos parceiros (como Nando Reis e a banda baiana Vivendo do Ócio, presentes no álbum) e assimilando influências diferentes. Entre elas, os sons eletrônicos presentes em 'Sexo Frágil', parceria com Arnaldo Antunes que quase virou música-título de 'Eterno Retorno'. Perdeu o posto por um detalhe.

"Essa foi uma das maiores discussões que rolaram no estúdio. Resolvi não colocar porque podiam lembrar do 'Masculino e Feminino'", conta ele, afirmando que as gravações transcorreram em "clima de senado", comandadas pelo trio Kevin White, Filipe Pascual (enteado de Pepeu, com 21 anos) e Cyro Telles. "Eu não queria repetir o que já tinha falado ali há alguns anos. As pessoas iam acabar lembrando do 'Masculino e Feminino'. Mas a música fala de um renascimento".

SEM SEXO

As referências a seu grande hit de 1983 trazem lembranças meio duvidosas. 'Masculino e Feminino', diz Pepeu, acabou sendo mal interpretada por muita gente. O músico ouviu até insinuações homofóbicas por causa de versos como 'se Deus é menina e menino, sou masculino e feminino'.

"Depois de muitos anos, vim a entender que eu estava falando de Deus. Se Deus é uma energia, uma luz, vamos falar assim, ele não tem sexo", conta Pepeu. O compositor diz ter deixado vazar para a letra a educação que dava a seus filhos com a então mulher, Baby Consuelo, hoje Baby do Brasil. "Tive que ter mais carinho de mãe do que de pai para educá-los. A letra fala sobre essa noção de que não se deve ter preconceito com nada, de falar com calma: 'Não faça isso, meu filho...'. Mas achavam que tinha a ver com sexo. Eu fui convidado para tocar em festa gay!", conta Pepeu. O músico declinou dos convites com todo cuidado do mundo, como afirma. "Eu também não queria ficar tachado como homofóbico, ou como uma pessoa que não aceita que os outros sejam trans. Todo mundo tem o direito de ser o que quiser".

400 TRECHOS

O baú de Pepeu ficou abarrotado nos últimos anos. 'Pepeu Gomes', seu último disco cantado, saiu em 1993 era o álbum de 'Sexy Iemanjá', abertura da novela 'Mulheres de Areia'. Em 2015, lançou um disco inédito, 'Alto da Silveira', mas era um álbum instrumental. Seu repertório letrado acabava chegando aos fãs por outras vozes, como a de Zélia Duncan ('Alma', parceria com Arnaldo Antunes) e Cássia Eller ('Um Branco, Um Xis, Um Zero', com Arnaldo e Marisa Monte). 'Eterno Retorno' o levou a revisitar "uma base de uns 400 trechos de músicas", como conta. "Isso depois foi caindo para cem, depois para 20. Fui desenvolvendo e procurei os parceiros".

Para ajudar a completar o projeto, Pepeu convidou você já leu lá atrás o velho parceiro Arnaldo, que também letrou 'Tempestades'. O também ex-titã Nando Reis ficou com 'Aos Poucos' e 'Me Faz Sonhar'. Ivo Meirelles, que é amigo há vários anos de Pepeu, pegou 'A Paz Sonhada', e Zélia Duncan dividiu 'Não Move Nada'. E jovens baianos deixaram sua marca no álbum: a banda Vivendo do Ócio colaborou em 'Amor em Construção'.

"Eles me chamaram para eu fazer uma guitarra numa música deles e acabaram me pedindo uma música. Gravaram do jeito deles, e eu gravei do jeito que compus, uma maneira mais Bob Dylan. Deu um resultado maravilhoso", conta Pepeu. O integrante dos Novos Baianos, por mais que tenha renovado a MPB com suas guitarras, é um cara do rock.

"O rock nunca saiu do Pepeu! Misturo bandolim com guitarras sem ter nenhum tipo de preconceito. Muita coisa que eu fiz no passado adiantava o que está acontecendo hoje. Esse projeto do 'Eterno Retorno' vem de uma busca incessante de renovação. Mas o rock vem segurando a barra do meu trabalho. Ele nunca acabou nem vai acabar, porque a gente tem a guitarra", conta. "Dizer que o rock morreu é uma falta do que fazer. Falo disso nos meus workshops. O artista tem que buscar desafios, tem que ser desafiado".

O disco novo, por sinal, foi um enorme desafio: "Entreguei a produção para guris de 20 e poucos anos. Eu pensava: 'Meu Deus, como vou entregar uma carreira de 50 anos nas mãos deles? Ou eu tô louco ou tô sendo desafiado'. Preferi optar pela segunda alternativa. Vim com as partes de guitarra e falei: 'Depois, vocês vêm com a roupagem de vocês, e eu aprovo ou não", conta. Deu tudo certo. "Os garotos sacam tudo de internet, de ferramentas como pro tools. Deixar o coração aberto para receber essa dádiva de Deus foi fundamental".

EM PAZ

Pepeu encerrou recentemente mais uma turnê dos Novos Baianos, em que reencontra seus antigos parceiros e também a ex-mulher, Baby. Com quem, por sinal, protagonizou um show fantástico no Rock in Rio em 2015. Anunciado no palco pela cantora, subiu aos prantos, com a guitarra na mão.

"A gente vinha de uma fase em que o nosso relacionamento não estava bom, por problemas familiares. Misturamos as coisas. Mas tudo clareou no Rock in Rio. Foi tudo muito forte, não cabia guardar mágoas. Novos Baianos era uma coisa muito forte, o público pedia a volta da gente. O 'Acabou Chorare' (disco de 1972) continua moderno e me inspira muito a fazer música. Eu venho da escola Novos Baianos de música!", conta. "Isso me deu todo o rumo, aquela coisa de: 'Eu vou seguir por aqui, e vou me tornar um músico universal'".

Você pode gostar
Comentários