TREM DA MATURIDADE

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Se você só se recorda de Patricia Marx cantando 'Festa do Amor' e 'Te Cuida Meu Bem', adolescente, envolta em vestidinhos de festa ou no Trem da Alegria, alguns anos antes procure saber. A cantora paulistana acaba de lançar seu 13º disco, 'Nova' (Lab 344), está há vários anos mais voltada para o pop eletrônico e conta que o que mais tem é fãs cobrando músicas inéditas.

"Eu fiquei feliz com a receptividade do disco novo. Fiquei até preocupada, porque é um disco pop, mas não é pop como os outros, né?", brinca. "As pessoas vêm me pedindo músicas novas, e não lançava disco de inéditas desde 2004. Acho bacana que meu público me instigue a fazer coisas novas. Minhas fases mudam muito", recorda a cantora que, aos 20 e poucos anos, após o sucesso na adolescência, fez um estágio no pop adulto gravando músicas como 'Ficar Com Você' (versão de 'I Wanna Be Where You Are', sucesso de Michael Jackson) e 'Quando Chove' (versão para 'Quanno Chiove', do napolitano Pino Daniele). Com produção de Nelson Motta, ambas tocaram muito em rádio. Hoje, a cantora de 44 anos prefere apostar em seu próprio material.

"Vejo muita repetição da repetição. As pessoas copiam da fórmula. Regravar às vezes me parece medo de tentar uma coisa nova. O mercado também está saturado de coisas, e as pessoas não têm tempo de ouvir. Está tudo muito rápido", diz Patricia, cujo novo disco tem parcerias como amigos como Jorge Ailton, vinhetas como 'You? (Sobre ser uma Monja)' e uma ou outra canção em inglês, como 'You Showed Me How' e 'Don't Break My Heart'. O fato de ter lançado trabalhos fora do Brasil deixou Patricia com bom trânsito entre DJs e público em países como o Japão.

Patricia não lançaria um EP ou apenas um single, como vários colegas (de Milton Nascimento aos sertanejos) vêm fazendo. "Ah, quando eu gosto de um artistas e vejo que ele só tem EP, fico até com raiva!", brinca. "Sempre penso: 'Olha que faixa maravilhosa! Por que não tem mais desse artista?' Talvez isso seja medo de não ser ouvido direito, não sei".

O repertório das antigas também é bastante pedido pelos fãs, e volta e meia aparece em alguns de seus shows. Mas de forma dosada, porque o conceito das apresentações dela, obviamente, mudou muito com o passar dos tempos. "Dá para cantar algumas coisas, como 'Destino'. 'Festa do Amor', por exemplo, eu nunca cantei, ou 'Certo ou Errado'. De repente, dá até para pensar numa nova roupagem, uma coisa mais pop. Mas eu costumo fazer meus shows muito temáticos, ligados aos meus discos", conta.

A menina que aos 11 anos gravou 'Vivo Sonhando', de Tom Jobim, e era fã de Michael Jackson, Madonna e bossa nova, ainda está aí. Mas muitas coisas mudaram, claro. "Se eu tivesse muita grana, gravaria um disco só de folk, ou de coisas experimentais eruditas. Sucesso, prêmios e dinheiro são consequências. E fazer a mesma coisa sempre não funciona comigo", diz a cantora, que ainda mantém a parceria com um velho amigo, Jair Oliveira (fizeram 'Luz Numa Lágrima', ao lado do pianista Herbert Medeiros).

NOVELA INFANTIL

A volta ao passado tem feito parte da vida de Patricia. Recentemente, ela foi vista cantando ao lado do amigo Luciano Nassyn, também do Trem da Alegria, no programa de Xuxa Meneguel, na Record TV. A cantora já anunciou o lançamento de sua biografia para 2019. Nem tudo foram flores: ela costuma relembrar do excesso de trabalho e das situações abusivas pelas quais passou na infância. Num depoimento à 'Veja', em 2016, Patricia declarou ter sido "assediada sexualmente muitas vezes por produtores, cantores, artistas, diretores de gravadora" quando começou a cantar.

"Espero que as coisas estejam mais fáceis para atores e cantores mirins hoje em dia. Mas, outro dia, fui gravar um programa no SBT e aproveitei para visitar a gravação de uma novela infantil lá. Fiquei perguntando como eram os horários delas, vi que elas eram acompanhadas de psicólogo", conta.

De qualquer maneira, o modus operandi continua o mesmo de 1986/1987, como a própria Patricia observou nas horas que passou no estúdio. "Ainda é superpuxado, isso não mudou. As crianças saem da escola e passam o dia lá gravando. Tá aí de qualquer jeito para os pais concordarem ou não. Eu acho complicado. Tenho um filho de 19 anos, e jamais faria isso com ele". Artur, o filho da cantora, por sinal, prepara-se para ir para o Canadá estudar Agronomia.

"Nada a ver com música!", espanta-se. Patricia conta que a rotina de trabalho na ribalta, para uma criança, pode ser bastante cruel. Ela sentiu isso na pele. "Num trabalho desses, você acaba mexendo com coisas que a criança não está acostumada a lidar. Tive lacunas de vivência, de coisas que não vivi porque estava trabalhando. Tem coisas que eu só fui perceber mais para a frente. É claro que eu já sabia o que era ser uma artista. Mas tem que ter acompanhamento, tem que ter cuidado", conta Patricia.

ASSÉDIO

Já que falamos em assédio e abusos, vale perguntar se Patricia acredita que existe menos machismo na música hoje em dia. A cantora diz que tudo mudou bastante. "E a postura da mulher é outra, elas estão muito bem informadas. Eu sentia que as próprias mulheres eram muito machistas antigamente, se submetiam muito mais em troca de poder, de fama, de dinheiro", conta a cantora.

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