Theodoro Cochrane celebra o bom momento na TV

Aos 40 anos, ator destaca a importância de abordar a diversidade na novela das 21h e se surpreende ao receber nudes por causa do personagem

Por BRUNNA CONDINI | brunna.condini@odia.com.br

Theodoro Cochrane
Theodoro Cochrane -

Rio - Theodoro Cochrane, que vive Adamastor, o fiel escudeiro de Ondina (Ana Beatriz Nogueira), no cabaré em 'O Sétimo Guardião', comemora o bom momento. "É a primeira novela das 21h com personagem fixo. Já fiz outras coisas na TV, novelas e minisséries, mas é diferente, é um produto premium na casa, a sensação de responsabilidade é maior", diz o ator. "É uma novela muito assistida. Com uma semana no ar, já tinha gente me chamando pelo nome do personagem. E quatro anos atrás, as redes sociais não tinham a força que têm hoje. Reativei o Instagram e o Twitter. Vejo o carinho e os comentários, a resposta ao trabalho é maior ao vivo e nas redes", observa.

HUMANIZANDO

Na trama de Aguinaldo Silva, Theodoro dá vida ao personagem fã das grandes divas do cinema, apontado como homossexual enrustido e que sofre bullying por ser diferente no tratar e no vestir dos outros homens da cidade.

"Tive muitas referências para compor o Adamastor. Desde João do Rio, passando pelo universo dos dândis (homens com senso estético e exagerada preocupação com a aparência), o personagem do Raul Julia na 'Família Adams', personagens únicos e interessantes", revela. "Mas tive a preocupação de não cair nos clichês, na caricatura, quis humanizar o personagem".

O ator fala ainda da sexualidade mal resolvida de Adamastor e da cobrança para que ele 'saia do armário'. "Mas não vai ficar só nisso, ele também tem um lado reativo. Aliás, ninguém é só um lado. Todos temos camadas. Ele tem uma relação maternal com a Ondina. Uma relação de pequeno poder com as prostitutas e a camareira", analisa. "E uma relação de desequilíbrio com o Junior (José Loreto), o bad boy da cidade. É uma relação de amor e ódio, intensa. Quem mais tira sarro com ele, faz bullying, é a pessoa por quem ele sente alguma coisa, tem uma atração".

O paulistano se diverte com a torcida do público para que Eurico Junior e Adamastor fiquem juntos. "Me mandaram o link do Flavio Ricco (colunista do DIA), falando que o Aguinaldo (Silva, autor da novela) disse que o personagem não precisa necessariamente 'sair do armário', não é uma obrigação. Não sei se Aguinaldo está despistando ou se será assim mesmo. Por que não? Tem gente que vive numa boa escolhendo reprimir o desejo", comenta. "Não sei se ele vai assumir a homossexualidade, não sei mesmo o que vai acontecer. O público tem torcido pelos dois. Minha parceria com o Loreto está incrível. Com Ana Beatriz é a quarta novela juntos. Ela já fez minha mãe, quase sogra".

E o que o ator tem em comum com Adamastor?

"Sou muito vaidoso, como ele. Tenho minhas inseguranças, tenho muitas amigas mulheres, como ele. Tenho um pouco de mau humor com pessoas mais íntimas, que já estão até acostumadas", diverte-se.

RESPEITO

Ele salienta a importância de colocar a diversidade sexual, mais uma vez, na roda de temas abordados em uma novela das 21h.

"É importante falar disso. Ainda vivemos em um país campeão em mortes LGBTQs. Mas vai além, é a intolerância na aceitação do que é diferente. Me assusta esse momento no Brasil e no mundo", reflete.

"Vivemos em um país onde um dos maiores popstars é Pablo Vittar. Tem o programa 'Amor & Sexo' falando sobre temas importantes na TV. Falarmos mais abertamente de sexualidade é importante. A novela consegue atingir muita gente que não se abriria a algumas situações. A TV tem o poder de aproximar das pessoas situações polêmicas, sem enfiar goela abaixo".

EXPOSIÇÃO

Sobre o reconhecimento e o assédio que vieram com seu Adamastor Crawford, Theodoro não se aborrece. "Minha mãe (a jornalista Marília Gabriela) é famosa. Vejo esse acesso desde pequeno, estou acostumado. As pessoas querem fazer um carinho, um elogio. Não me incomoda", garante.

Reservado em relação à vida pessoal, ele acha natural a curiosidade do público sobre o que faz fora da novela. "Às vezes, incomoda, mas é normal que queiram saber de mim, falar das questões do personagem", diz. "Mas não preciso necessariamente falar sobre o assunto, porque Adamastor por si só já suscita discussões. No realismo fantástico tem isso, as figuras arquetípicas questionam de maneira lúdica, indireta".

Theodoro tem curtido a relação mais próxima com o público e revela. "Não estou namorando. É difícil encontrar alguém fazendo novela, que entenda essa rotina", afirma. "Mas acredita que tenho recebido nudes? Dá um susto, né? Você recebe uma mensagem vai abrir e dá de cara com nudes de que nem conhece. Não dá para falar nada, apago", conta, rindo.

NOVO CICLO

Com 16 anos de trajetória profissional, o atual momento tem sido motivo de orgulho. "Minha mãe está emocionada, até porque o Aguinaldo é amigo dela", diz. "Está sendo também um desafio provar que fui feito para esse personagem e que ninguém poderia fazer melhor do que eu. Troco muito com ela sobre o trabalho. Somos uma família crítica, de uma forma construtiva".

O ator, que também é figurinista (premiado, inclusive com o Prêmio Shell), conta que ele e a mãe começaram a trabalhar no teatro quase ao mesmo tempo. "Ela começou em 2000 e eu, logo depois. Ela tem a experiência da observação do ser humano como entrevistadora e jornalista. Também desenvolvi isso. Eu e meu irmão sempre fomos instigados a questionar, buscar a excelência, no que quer que seja. Minha mãe está feliz e satisfeita, diz que as coisas aconteceram no tempo certo".

Mês passado, quando completou 40 anos, ele fez um post no Instagram, dizendo que enterrava um passado de incertezas e comemorava o novo ciclo. "Ano passado, foi dos piores da minha vida. Queria atuar mais e pensava: 'Estou com 39 anos e não rolou nada ainda de realmente maravilhoso", lembra o ator, acrescentando: "Eu estava desempregado, tinha tomado um pé na bunda e estava na crise dos 40. Pensava: 'O que vai acontecer da minha vida?'. Voltei a fazer análise, foi maravilhoso. Me deu muito esclarecimento e paz de espírito. Essa novela me trouxe um desafio que não tinha há muito tempo e queria. Fiz muito teatro, mas a paixão que tenho pela arte começou na televisão. Me sinto pleno e me aceitando mais com minhas características, como penso a vida. O bom de amadurecer é isso, a sabedoria e autoaceitação".

Galeria de Fotos

Theodoro Cochrane Edu Rodrigues
Theodoro Cochrane Edu Rodrigues
Katiucha (Lyv Ziese), Stefênia (Carol Duarte), Adamastor (Theodoro Cochrane), Luciana (Josie Pessoa), Januária (Mila Carmo) e Ondina (Ana Beatriz Nogueira) Divulgação
Theodoro Cochrane Edu Rodrigues
Acima, Theodoro Cochrane com Ana Beatriz Nogueira, a Ondina da novela das nove GLOBO/Estevam Avellar

Comentários

Últimas de Diversão