Rio - Com mais de duas mil apresentações ao longo de 30 anos de existência, a Companhia de Dança Deborah Colker chega ao Teatro João Caetano, no Centro, para uma temporada popular do espetáculo "Sagração", uma releitura da obra de Stravinsky. Até o próximo domingo, dia 17 de agosto, o público poderá conferir como a coreógrafa uniu o clássico à ancestralidade brasileira, passando pela ciência, em uma performance envolvente.
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Ao DIA, Deborah conta que há muitos anos sonhava em produzir sua própria versão da obra "A Sagração da Primavera", composta pelo russo Igor Stravinsky, que ganhou projeção mundial pela montagem estreada em Paris em 1913, com coreografia de Vaslav Nijinsky e produção de Sergei Diaghilev para os Ballets Russes.
"Quando essa hora chegou, minha intuição foi trazer para o Brasil e fazer um clássico, mas com o que estamos vivendo agora. Stravinsky trouxe o primitivo russo, eu trouxe o do Brasil. Fizemos um bordado musical, trouxemos nossas cores e bambu. Conto um caminho evolutivo humano, através de alguns mitos de criação e como uma criança construindo essas histórias com os bambus", explica.
O espetáculo traz uma nova visão da criação como um todo. Em uma viagem ao Xingu, durante o Kuarup, e no encontro com as aldeias indígenas Kalapalo e Kuikuro, Deborah conheceu o cineasta Takumã Kuikuro, que contou à ela como o povo do chão recebeu o fogo do Urubu Rei. Essa história é uma das representadas na encenação.
Além da visão de povos originários do Brasil, Colker revisita a mitologia judaico-cristã, em uma relação com a história bíblica de Eva e de Abraão, enquanto entremeia com a literatura científica e se utiliza das representações de bactérias, herbívoros e quadrúpedes para retratar o processo da evolução humana.
"O corpo vai contando esse caminho evolutivo, essa espécie que vai crescendo e sobrevivendo, trazendo necessidades diferentes. Essa espécie foi crescendo e teve necessidade de caçar, conquistar as águas, plantar, os conflitos começaram, e as histórias vão se entrelaçando. A luz vai desenhando o tamanho do mundo , as cores e temperaturas das cenas. E os bambus são a extensão dos corpos dos bailarinos e com quatro metros de altura vão construindo barco, oca, floresta, as asas e o corpo do Urubu Rei", diz.
Deborah revela, ainda, que a música de Stravinsky foi o fio condutor dela durante toda a criação do espetáculo, o que durou cerca de dois anos e meio. "A música sempre me guiou. Fui construindo um corpo primitivo que foi crescendo e se desenvolvendo. Eu queria trazer uma visão Darwinista da evolução da espécie humana, mas trouxe mitos de criação que me ajudaram", explica.
"O roteiro vai trazendo o caminho evolutivo, quando antes só havia escuridão e a avó do mundo, através do seu pensamento, começa a desenhar o mundo. Esse é um mito de criação na cosmovisão indígena. Eu venho trazendo o caminho Darwinista, que é a bactéria, os herbívoros, os quadrúpedes, a caça…, mas também o mito de criação judaico-cristão", complementa.
Para a coreógrafa, "Sagração" marca um momento de maturidade na história da companhia, que ao longo da existência já se apresentou para um público total de cerca de quatro milhões de pessoas. O espetáculo representa um novo período da vida pessoal dela também.
"Acredito que foi um momento de maturidade meu, que me senti pronta para poder fazer uma versão minha de ‘A Sagração da Primavera’, de Stravinsky, uma obra que causou tanta coisa importante, inaugurou tantos novos caminhos… fiz da minha maneira. De uma maneira muito pessoal trouxe para o Brasil. Isso é algo muito potente", celebra Deborah, que fica feliz de poder apresentar a obra clássica ao público quase na íntegra.
"Muita gente não conhece ‘A Sagração da Primavera’. É uma música difícil, alguns já ouviram falar, mas não escutaram. A versão original tem 42 minutos e a gente traz 37 minutos. Fico muito feliz de conseguir fazer uma ponte entre o clássico e o primitivo, entre a ancestralidade e o que está acontecendo com a gente agora. Em mostrar para o público que a companhia continua desenvolvendo uma linguagem própria, experimentando com coragem, num caminho autoral e acreditando no poder da dança. Contar histórias, expressar a beleza, as cores, sonoridades e quem a gente é… traduzir um pouco de cada um de nós nesse Brasil tão grande", conclui.
Serviço
Espetáculo "Sagração" - Companhia Deborah Colker Quinta e sexta-feira, às 20h, sábado, às 18h; e domingo, às 17h Local: Teatro João Caetano Endereço: Praça Tiradentes, s/n – Centro Ingresso: a partir de R$ 10 (meia-entrada)