Lorena Lima integra o elenco do remake de ’Vale Tudo’Lucas Gatto/Divulgação
Lorena Lima vibra com mudança na história de Laís e Cecília em 'Vale Tudo': 'Escolha política'
Atriz fala sobre aceitação do romance e a importância do casal homoafetivo no horário nobre
Rio - Rosto novo na televisão, Lorena Lima, de 26 anos, interpreta sua primeira personagem fixa em novelas no remake de "Vale Tudo", da TV Globo. Na trama, a atriz interpreta Laís, mulher de Cecília (Maeve Jinkings), com quem administra uma pousada em Paraty, e mamãe de Sarita (Luara Telles). Na versão original, o casal homoafetivo foi rejeitado pelo público e perdeu espaço na trama.
"Eu e Maeve conversamos muito, trocamos muitas histórias, inclusive pessoais. Como é um tema delicado, com um histórico frágil na teledramaturgia, quisemos dar estofo pra ele. Quisemos trazer uma história bem construída e embasada pra essa família", explica a artista.
Em 1988, Cristina Prochaska interpretou Laís e Lala Deheinzelin viveu Cecília, personagem que deixou a trama após morrer em um acidente de carro. O desfecho foi marcado pelo preconceito da época, que rejeitou o romance entre as duas. Hoje, Lorena assume o desafio de contar essa história sob uma nova perspectiva, que inclui também a adoção de Sarita.
"Muitos retornos têm sido importantes pra mim, como a mensagem de uma adolescente que disse ter aberto para família que era bissexual e que nos ter na novela era extremamente importante pra ela", conta.
Ela menciona um recado importante que recebeu do Coletivo Dupla Maternidade, formado por famílias compostas por duas mães. "Outro momento muito emocionante que eu não aguentei segurar o choro foi do coletivo sediado em São Paulo que abarca mais de 1500 mães do Brasil. Quando li 'que bom que vocês existem' me veio tanta coisa. Nossa comunidade é muito carente de uma representação digna e fiel aos nossos amores, então constatar a importância de estar ali contando essa história foi muito lindo."
Mais de três décadas depois, a continuação de ambas na nova versão de "Vale Tudo" carrega um peso simbólico. A artista entende que há um sentido de reparação na forma como a história é contada agora. "Justamente por termos esse passado que lima as histórias homoafetivas. Não matar Cecília é uma escolha política, um recado que enviamos sobre o desejo de falar sobre os nossos amores", comenta.
O trabalho cheio de sintonia com Maeve Jinkings colaborou para a torcida dos telespectadores pelo casal. "Duas pessoas que queriam muito fazer dar certo se juntaram e não tinha como ser outra coisa a não ser uma parceria muito gostosa de ser vivida. Nós sempre trocamos muito, de uma forma muito sincera e muito honesta. Acho que isso foi essencial para construção de um trabalho que demanda tanta intimidade, já que Laís e Cecília são casadas há 10 anos", destaca.
Laís vive um momento de extrema dor quando 'perde' temporariamente sua filha, enquanto a mulher estava em coma, por conta de uma armação de Marco Aurélio (Alexandre Nero). O empresário pediu para Maria de Fátima (Bella Campos) roubar os documentos da menina, para tentar a guarda dela.
Acessar essas emoções foi desafiador para a artista. "Ainda não sou mãe, mas sinto que uma das coisas mais incríveis da nossa profissão é poder viver histórias que não são só nossas. Me colocar na pele da Laís naquele contexto foi tão intenso que lembro de gravar a cena que ela descobria que os documentos da Sarita foram roubados e as minhas mãos continuarem tremendo mesmo depois do fim da gravação. Estava em estado de alerta e tive que respirar um tempo para voltar. Sorte que tinha sido a última do dia (risos)", relembra.
Apesar do primeiro papel de destaque, Lorena Lima interpretou uma das vítimas de abuso sexual praticados por Theo (Emílio Dantas) em "Vai na Fé" (2023), novela de Rosane Svartman. A corretora Graziela chegou a ter uma conversa emocionante com a protagonista Sol (Sheron Menezzes), que movia um processo contra o vilão pelo mesmo crime.
"Uma das coisas que me movimentam enquanto artista é saber que temos a possibilidade de mover, pelo menos, uma palha no meio desse palheiro imenso. Já demos muitos passos, mas ainda é tão difícil e doloroso falar sobre isso que eu me sinto muito honrada em ter levado esse tema adiante com uma equipe tão sensível. Muitas mulheres sequer sabem que estão sendo vítimas de abuso, ou se culpam por ele. Ter consciência do lugar do seu corpo no mundo é um passo grande pra emancipação, ou, pelo menos, para a luta por ela", reflete.
Força dos Palcos
A atriz também segue seu fluxo cênico envolvida na produção e colaboração artística do espetáculo "Dias Felizes", montagem do clássico de Samuel Beckett. A peça do Armazém Companhia de Teatro esteve em cartaz no mês de junho no Espaço Armazém, na Fundição Progresso, na Lapa, e chega à Belo Horizonte, Minas Gerais, no dia 23 de agosto.
"O teatro é a minha casa e sempre vai ser. Foi ali que me formei enquanto artista. O meu coração pulsa quando piso no palco. E isso se potencializa pelo fato de eu poder fazer um trabalho em coletivo com a Armazém Companhia de Teatro, que já se tornou uma família. Poder associar os dois mundos me completa, em algum lugar. É como se um me alimentasse pro outro também. E, particularmente, eu gosto de estar em movimento, de estar na 'correria' pra fazer coisas que eu acredito."
Essa sensação de pertencimento e crescimento mútuo é o que torna tão especial o trabalho de Lorena Lima com a Armazém Companhia de Teatro. "Poder embarcar profundamente em um processo de pesquisa com pessoas que eu tenho muito afeto e admiração é um baita combustível, me faz ter fogo pra continuar aprendendo. Até porque eu acredito muito que no dia que a gente achar que sabe de tudo, já era. Essa possibilidade não existe pra mim. Eu vou ter sempre o que aprofundar e aprender. Fazer isso estando na Armazém, uma companhia com tanta história, é um deleite", elogia.



