Tony Tornado no especial Tributo, da TV GloboGlobo/ Beatriz Damy
"É algo extremamente especial. É um privilégio pensar que o moleque de rua hoje tem um programa em sua homenagem na maior emissora do país, só pode ser incrível. Fora a chance de estar com amigos queridos e ver meu filho, Lincoln Tornado, comigo nessa caminhada", comemora ele, que foi uma das personalidades agraciadas com a Ordem do Mérito Cultural (OMC), maior honraria pública do setor cultural brasileiro, na última terça (20).
Nascido em Mirante do Paranapanema, interior de São Paulo, ele saiu de casa quando tinha apenas 12 anos para realizar o sonho de ser artista no Rio de Janeiro. Com uma vida incerta, ele passou algum tempo vivendo nas ruas para poder sobreviver e passando muitos perrengues e preconceito como vendedor de amendoim, balas e engraxador de sapatos. Aos 18 anos, serviu na Escola de Paraquedismo de Deodoro, onde conheceu o empresário Silvio Santos, dono do SBT, que também servia o exército na época.
A vida de Tony não foi fácil, nem mesmo quando já era artista, sofreu com racismo e virou uma referência para artistas negros. "Foi barra, mas estamos aí. A mistura de ramos aconteceu naturalmente. Sempre ansiei ser ator. Então, o processo aconteceu. Na música talvez tenha sido mais barra porque era o Tony Tornado de frente, um representante do orgulho negro em uma ditadura e uma população intrinsecamente racista. Na televisão já era o personagem. Amo as duas áreas e tenho muito orgulho da minha trajetória, esta que está ainda em andamento".
Nos anos 60, ele embarcou para os Estados Unidos com o grupo Coisas do Brasil e decidiu morar no Harlem, bairro de Nova York (Estados Unidos), onde viveu ilegalmente e aprendeu sobre os movimentos negros. No mesmo período, conheceu o brasileiro Sebastião, preso seis meses após andar em um carro roubado portando maconha e deportado para o Brasil. Mais tarde, ele ficou conhecido em todo país como Tim Maia (1942-1998).
"Sebastião é um amigo querido que está sempre presente. Vocês acreditem ou não. Todo show que faço tenho que prestar uma homenagem a ele. Foi uma curtição (nos Estados Unidos). Não podia ser diferente ao lado dele", conta o artista.
Como ator, ele fez sua estreia em novelas em "Jerônimo, o Herói do Sertão" (1972), na TV Tupi. Em 1976 foi contratado pela TV Globo e integrou o elenco de humorísticos de sucesso: "Chico Anysio" (1976), "Os Trapalhões" (1977) e "Balança, Mas Não Cai" (1982).
Atuou também em outros folhetins e minisséries como o clássico "Roque Santeiro" (1985), na primeira versão de "Sinhá Moça" (1986), "Vamp" (1991), "Agosto" (1993), "Cordel Encantado" (2011) e "Amor Perfeito" (2023). Seu mais recente trabalho foi na série "Encantado’s". Ele também está no elenco da novela "Êta Mundo Melhor!" e não pensa em aposentadoria.
"É o que me mantém de pé e o meu melhor trabalho ainda está por vir. Não escolho. Acho que isso é limitar a amplitude do universo. Que venham os trabalhos, quais forem", torce ele, com a energia de um jovem ator. E será que existe segredo de vitalidade?
"Estar sempre de bom humor e entender que o melhor está por vir. São pontos iniciais. Vai sem medo que vai dar certo", destaca ele, que também não tem um segredo para cuidar da voz e saúde física.
"Cuido de nada… Não sigam esse exemplo (risos). Tento me manter atualizado das coisas que acontecem", completa o veterano, que está sempre ligado na música brasileira atual. "Gosto bastante. Tem vários artistas nacionais e internacionais. Preciso destacar o trabalho da Liniker e de Os Garotins. Bom demais, sou fã legal deles", entrega.
Tornado analisa participação de negros na TV: 'Incomparavelmente melhor'
Se no passado os negros eram minorias na TV e, muitas vezes, eram chamados para papéis pequenos em funções de serventia, hoje o cenário mudou e já dá para notar na própria grade na Globo com protagonistas negras em três novelas: Raquel (Taís Araújo), em "Vale Tudo", Clara Moneke em "Dona de Mim" e Jéssica Ellen em "Volta por Cima", conforme o veterano avalia o cenário.
"Está incomparavelmente melhor. Não disse que está bom. Mas para quem viveu dos anos 1930 aos 2000 sabe bem que mudou muito. É muito bom ver, por exemplo, atores negros protagonistas. Porém ainda é preciso dar oportunidades. É só o que precisamos. E respeito, é claro", analisa. "Ainda precisa ser revisto. Entendam: não é para ter atores negros por serem negros, mas por serem talentosos. Quando pensarem assim, o equilíbrio acontecerá naturalmente", complementa.
O ator foi casado com Arlete Salles entre 1970 e 1972 e, na época, também foram alvos de críticas e preconceito. "Arlete é uma querida. Desejo o melhor à ela. Foram tempos difíceis. Quem viu sabe e quem não viu, deixa pra lá. São dores que ficaram para trás, vamos em frente".












