Edvana Carvalho integra o elenco do remake de Vale TudoDivulgação/Vinícius Mochizuki

Rio - No ar em "Vale Tudo", Edvana Carvalho está reescrevendo novos caminhos para Eunice, vivida por Íris Bruzzi na versão exibida em 1988. Se antes a personagem era limitada à função de dona de casa, no remake ela foi transformada em uma costureira requisitada pelo mundo da moda e do audiovisual, além de ser uma mulher forte que criou sozinha a filha, Fernanda (Ramille), até conhecer e se casar com Bartolomeu (Luís Melo). 
"Eunice representa uma grande fatia das mulheres brasileiras que chega aos 50 anos e já deram conta de criar os filhos, que às vezes estão até no segundo casamento, e agora podem voltar a trabalhar com o que gostam. É independente, apesar de ter um marido. E, até então, tinha uma situação boa, porque era jornalista. Mas ela, eu entendo assim, é como a minha mãe: nunca deixou de ter o dela, sabe? Ela nunca abriu mão dessa independência", aponta.
A atriz de 57 anos analisa as diferenças na história da personagem para que se adequasse aos dias atuais. "A gente viu cenas recentes dela com a Heleninha ali exercendo o ofício. Por ser uma trama da década de 80, ela precisa passar por algumas transformações. A Eunice apresentava aquela dona de casa e trinta anos depois, nossas cabeças mudaram. A maioria das mulheres não optam por ficar em casa, optam por ter o próprio salário, e a gente sabe que isso dá uma independência, né?".
A baiana fala sobre a conexão com Ramille, sua filha na ficção e relembra os encontros nos corredores da TV Globo na época em ela estava em "Renascer" (2024) e a jovem interpretava Andrômeda Mancini, uma das protagonistas de "Família é Tudo".
"Trabalhar com ela é um prazer, porque ela é uma ótima colega de trabalho, é aquela pessoa que joga com você em cada olhar e deixa. É muito gostosa a minha relação com Ramille, eu a conheci no ano passado. A gente se batia muito, porque era o mesmo estúdio praticamente, um do lado do outro e a gente ficava muito ali. Eu jamais imaginei que logo em seguida eu estaria trabalhando com ela", afirma. 
"O Renato Góes também estava na mesma novela de que ela, a gente se batia muito ali. E eu já admirava ela quando eu via e também ela fazendo 'Encantado's'. Quando eu vi que Ramille ia ser a minha filha foi amor à primeira visita, sabe? Acho que somos parecidas, temos um pouco de humor, uma eletricidade...eu converso muito com ela sem trocar palavras", acrescenta.
O convívio de Eunice e Fernanda é cercado de afeto e cumplicidade, mas também por diálogos firmes. A atriz conta que tenta levar para a relação materna da ficção um pouco do que passa ao lado dos filhos, Luana e Davi.
"A minha mãe sempre foi minha mãe, nunca esse negócio de 'aí sou sua amiguinha', não. E que quando ela tivesse que agir com mãe, ela ia agir. Ao mesmo tempo, minha mãe nunca me afastou de nenhum assunto, sempre me trouxe junto com ela para todas as coisas. Então, acho que isso é o que leva também para a vida um pouquinho da gente para a personagem. Também sou muito assim com a minha filha também, o meu filho", avalia.  
Sobre as reações do público ao remake de "Vale Tudo", Edvana comenta que a participação da audiência, seja com elogios ou críticas, é parte essencial para impulsionar a trama e mantê-la viva nas conversas do dia a dia.
"Não importa se está falando bem ou não. Cada pessoa tem um ponto de vista diferente a respeito de um assunto, de como deveria conduzir a novela ou interpretar o personagem. Tudo isso é tão positivo, porque não existe o trabalho do artista sem o público. É muito importante que o público faça parte. Algumas coisas você vai pegar, outras você não vai, porque não é aquilo que você pensa ou quer. Eu não vejo nenhum conflito em falar mal ou falar bem da obra. O importante é que faça o engajamento porque até para falar mal, a pessoa tem que assistir", diz.
Um dos momentos mais comentados da novela até agora foi o confronto entre Eunice e Odete Roitman (Debora Bloch). A sequência aconteceu após a vilã oferecer dinheiro para Fernanda terminar o namoro com Tiago (Pedro Waddington), neto da dona da TCA.
"Aquela cena me deixou com muita adrenalina no sangue, tanto que eu cheguei a perder meu avião para voltar para casa. É uma cena de grande reflexão porque estamos falando de temas maiores. Ela expôs na cara de uma pessoa racista, que ela é ultrapassada, que a gente não tolera mais esse tipo de comportamento e nem de discurso. Eu vi depois da cena, pessoas abrindo cerveja e pulando dentro de casa, é como se o público tivesse dado aquele tapa". 
A artista relembra, ainda, um episódio marcante ao ser abordada por uma criança depois da exibição do confronto. "Teve um menino que me parou no caminho, um menino branco aqui em Salvador, de escola particular e tudo. Eu não esperava, né? E ele chegou e falou: 'Ai, eu queria tanto te agradecer por aquele tapa no topete de Odete, porque a gente não precisa mais de pessoas que pensam como ela'. Fiquei muito feliz, porque era uma criança de 10 ou 11 anos de idade".  
Estar no elenco do remake de um dos maiores sucessos da televisão brasileira marca o segundo projeto da atriz no horário nobre da TV Globo. Edvana comemora a resposta positiva e o carinho dos telespectadores com seu trabalho.
"Acho gratificante ter um retorno amoroso do público para o qual a gente se prepara desde os 16 anos para trabalhar. Então, é muito bom. A gente sabe que, para as artistas pretas da minha geração, os caminhos foram mais tortuosos e demorados para chegar, mas com perseverança a gente chega, né? Me sinto muito feliz de poder levar minha arte para o povo brasileiro, encantá-lo e ter essa troca de coração para coração. Eu acho que qualquer artista fica muito feliz com isso", vibra. 
A artista equilibra os compromissos profissionais com o intervalo necessário para concluir seu mestrado na capital baiana. "Quanto mais tempo eu tiver para ficar em Salvador também, eu gostei muito porque agora 'Vale Tudo', eu vou muito pouco no Rio, gravo tudo que eu tenho que gravar e volto, então posso dar continuidade aos estudos", detalha. 
A atriz finaliza em poucos meses as gravações da trama, que será substituída por "Três Graças" em outubro. Sem um projeto em vista ou convites, ela revela o desejo de explorar novas possibilidades em sua carreira. "Eu gostaria de fazer um trabalho que fosse bom para mim e para o público que me acompanha. É claro que toda artista quer fazer coisas diferentes, acho que foi um salto muito diferente de Inácia e Eunice. E seja lá o que for fazer, que tenha diferença para essa outra figura. Mas gostaria muito de fazer cinema nacional".