Elisa Lucinda estrela o espetáculo O Princípio do Mundo Vantoen Pereira/Divulgação

Rio - E se a primeira criatura humana tivesse sido feita por uma mulher preta? Essa pergunta provocadora dá origem ao espetáculo "O Princípio do Mundo", estrelado por Elisa Lucinda, que ocupa o palco do Teatro Correios Léa Garcia, no Centro.
A montagem parte da força da oralidade e da sabedoria ancestral para propor uma reflexão sobre o presente e o futuro. No centro da narrativa está a "Mãe do Mundo", interpretada por Elisa, que conduz uma jornada poética ao lado do jovem aprendiz vivido por Gabriel Demarchi, de apenas 14 anos.

"Essa personagem não faço sozinha. Fazem comigo: minha avó, minha bisavó, as mulheres que vieram antes de mim. É uma mulherada forte compondo a mãe do mundo. Meu coração está tomado de amor por ela", afirma a atriz, emocionada.

Mais do que um espetáculo cênico, "O Princípio do Mundo" é um convite à reflexão urgente sobre os rumos da sociedade. A artista aborda assuntos que levam o público a repensar também sobre temas atuais, como feminicídio e a violência estrutural no Brasil, denunciando as contradições da cultura machista.

"Acho que a maior reflexão é essa cultura de paz. Vamos ser menos violentos, vamos parar de matar a mulher, um país que adora a mãe, uma palavra sagrada, mas mata a mãe do filho. Quem é esse cara que adora a mãe, mas a mãe do filho dele ele não respeita? Então, nesse sentido, nós somos psicopatas, esquisitos, esquizofrênicos... (O homem) ama a mãe, a figura nacional de maior importância... e mata a mãe do filho... é esquisito. Essa reflexão é importante, precisamos de um país anti feminicídio", declara.
A presença do adolescente em cena amplia o alcance da mensagem. Para Elisa, a relação entre gerações é parte do ensinamento da peça: "É muito importante mostrar que o futuro é ancestral. Temos um menino branco aprendendo com uma mulher preta a não ser racista, a não ser violento, a respeitar os mais velhos. Isso é precioso e simbólico".

Sabedoria ancestral como biblioteca viva

Assinada por Elisa e Geovana Pires, a dramaturgia bebe diretamente de fontes africanas e indígenas. Nessas culturas, o conhecimento dos mais velhos é visto como patrimônio coletivo. Há um provérbio africano que diz que quando um ancião morre, morre uma biblioteca. Esse espetáculo se conecta a esse pensamento, porque propõe um reencontro com nossas raízes.
"Se pensarmos bem, essa narrativa oficial da história do mundo, que entendemos como universal, inviabiliza os saberes antigos. Isso levou muitas gerações ao equívoco de verem a África, por exemplo, como uma aldeia, e não um continente com 54 países, cuja contribuição cultural é muito importante para o realinhamento saudável deste mesmo mundo. Eu me sinto em estado de gratidão com os meus fundamentos ao viver essa mãe”, celebra.

Para dar vida à "Mãe do Mundo", a atriz mergulhou em narrativas silenciadas pela história oficial, resgatando vozes apagadas pelo colonialismo. O texto é construído em rimas, um recurso inédito para a Companhia de Outra, criada em 2007, que dá destaque absoluto à oralidade. 
"É a primeira vez e é de propósito. Queremos que o texto seja uma estrela. Acredito na palavra como ouro, assim vejo a força da cultura oral. Nossa companhia nunca construiu um texto totalmente poético, principalmente nos diálogos. Por outro lado, somos especialistas, e digo sem medo, em encenar poesia", diz.
Embora seja mais assinado por Elisa, o texto tem versos inteiros de Geovana e, inclusive, um poema do próprio Gabriel. "Geovana é uma dramaturga muito experiente, e é muito confortável você estar ao lado de uma dramaturga que também é diretora, porque ela já pensa em cena", observa a multiartista.

Geovana destaca que a dramaturgia foi escrita em paralelo aos ensaios, o que deu maior fluidez ao processo criativo. "É uma entrega absoluta, é como se fôssemos guiadas por esse 'deus' do teatro que vai dizer como espiritualmente o espetáculo deve existir. E abrimos o nosso canal criativo para criarmos uma conexão com esse divino que é o teatro".
"Eu e Geovana temos muita liberdade, ela é uma diretora muito firme, sabe o que ela quer. E tem uma coisa da linguagem que ela quer, ela gosta de atores que fazem coisas, gosta da cena aberta, ela não trabalha com cortina. Tem umas coisas muito legai de magia sem mistério... Eu gosto de produzir semente de esperança, espalhar essa semente", completa Elisa. 

O teatro como espaço de transformação

Para a artista, o teatro exerce um papel pedagógico invisível, mas poderoso. "A arte educa sem que a gente perceba. Ela inquieta, inspira, muda comportamentos. A gente se vê no palco, se reconhece, se transforma".
Em tempos de excesso de experiências digitais, Elisa celebra o poder do encontro presencial:
"O presencial está em crise, ainda bem que tem shows e teatros senão as pessoas vão ficar só nos cultos. Tem aula já que não é presencial, tem trabalho que não é presencial, tem namoro on-line. Tem muita gente com pouca experiência do presencial onde tudo está em jogo, o cheiro, o calor, a temperatura, o encontro das energias, as emoções. O teatro é um ponto coletivo. Todo mundo chora junto, ri, bate palma... Eu amo o teatro, adoro o que é feito ao vivo", diz.

Entre o palco e a televisão

A carreira de Elisa Lucinda transita com naturalidade entre teatro e televisão. No currículo, ela acumula mais de dez novelas, incluindo sucessos como "Mulheres Apaixonadas" (2003), "Páginas da Vida" (2006), "Aquele Beijo" (2012) e "Vai na Fé" (2023). Este ano, a atriz gravou "Dona Beja", produção da HBO que estreia em breve, e já se prepara para um novo trabalho na TV Globo.
"Estou prestes a fazer uma novela, começo esse ano a gravar. Gosto muito da televisão porque ela entra na casa das pessoas, é o contrário do teatro no sentido que ela entra e aquela tela grande é um plano muito familiar", opina.

"Gosto muito de fazer novela porque você tem que ter a habilidade de estar pronto para qualquer cena de chorar, de rir, de se desesperar, na hora que rolar. Às vezes você está marcado para chorar numa cena de manhã, você chega nos estúdios meio concentrada porque não é fácil, só que atrasou, você tem que armazenar e quando for a hora da cena real, você cai dentro e esteja pronto. É uma preparação para o ator estar de prontidão com sua habilidade e talento. Gosto desse desafio, é uma experiência diferente do teatro que está sucetível a coisas que podem acontecer", completa.
Serviço
"O Princípio do Mundo”
Temporada: 04 a 27 de setembro de 2025
Horário: Quinta-feira a sábado às 19h
Ingressos: R$ 20 (meia-entrada) / R$ 40 (inteira)
Local: Teatro Correios Léa Garcia
Endereço: Rua Visconde de Itaboraí, 20 – Centro - Rio de Janeiro – RJ
Classificação Indicativa: 12 anos
Duração: 90 minutos