Elisa Lucinda estrela o espetáculo O Princípio do Mundo Vantoen Pereira/Divulgação
"Essa personagem não faço sozinha. Fazem comigo: minha avó, minha bisavó, as mulheres que vieram antes de mim. É uma mulherada forte compondo a mãe do mundo. Meu coração está tomado de amor por ela", afirma a atriz, emocionada.
Mais do que um espetáculo cênico, "O Princípio do Mundo" é um convite à reflexão urgente sobre os rumos da sociedade. A artista aborda assuntos que levam o público a repensar também sobre temas atuais, como feminicídio e a violência estrutural no Brasil, denunciando as contradições da cultura machista.
"Acho que a maior reflexão é essa cultura de paz. Vamos ser menos violentos, vamos parar de matar a mulher, um país que adora a mãe, uma palavra sagrada, mas mata a mãe do filho. Quem é esse cara que adora a mãe, mas a mãe do filho dele ele não respeita? Então, nesse sentido, nós somos psicopatas, esquisitos, esquizofrênicos... (O homem) ama a mãe, a figura nacional de maior importância... e mata a mãe do filho... é esquisito. Essa reflexão é importante, precisamos de um país anti feminicídio", declara.
Sabedoria ancestral como biblioteca viva
Assinada por Elisa e Geovana Pires, a dramaturgia bebe diretamente de fontes africanas e indígenas. Nessas culturas, o conhecimento dos mais velhos é visto como patrimônio coletivo. Há um provérbio africano que diz que quando um ancião morre, morre uma biblioteca. Esse espetáculo se conecta a esse pensamento, porque propõe um reencontro com nossas raízes.
Para dar vida à "Mãe do Mundo", a atriz mergulhou em narrativas silenciadas pela história oficial, resgatando vozes apagadas pelo colonialismo. O texto é construído em rimas, um recurso inédito para a Companhia de Outra, criada em 2007, que dá destaque absoluto à oralidade.
Geovana destaca que a dramaturgia foi escrita em paralelo aos ensaios, o que deu maior fluidez ao processo criativo. "É uma entrega absoluta, é como se fôssemos guiadas por esse 'deus' do teatro que vai dizer como espiritualmente o espetáculo deve existir. E abrimos o nosso canal criativo para criarmos uma conexão com esse divino que é o teatro".
O teatro como espaço de transformação
Para a artista, o teatro exerce um papel pedagógico invisível, mas poderoso. "A arte educa sem que a gente perceba. Ela inquieta, inspira, muda comportamentos. A gente se vê no palco, se reconhece, se transforma".
"O presencial está em crise, ainda bem que tem shows e teatros senão as pessoas vão ficar só nos cultos. Tem aula já que não é presencial, tem trabalho que não é presencial, tem namoro on-line. Tem muita gente com pouca experiência do presencial onde tudo está em jogo, o cheiro, o calor, a temperatura, o encontro das energias, as emoções. O teatro é um ponto coletivo. Todo mundo chora junto, ri, bate palma... Eu amo o teatro, adoro o que é feito ao vivo", diz.
Entre o palco e a televisão
A carreira de Elisa Lucinda transita com naturalidade entre teatro e televisão. No currículo, ela acumula mais de dez novelas, incluindo sucessos como "Mulheres Apaixonadas" (2003), "Páginas da Vida" (2006), "Aquele Beijo" (2012) e "Vai na Fé" (2023). Este ano, a atriz gravou "Dona Beja", produção da HBO que estreia em breve, e já se prepara para um novo trabalho na TV Globo.
"Gosto muito de fazer novela porque você tem que ter a habilidade de estar pronto para qualquer cena de chorar, de rir, de se desesperar, na hora que rolar. Às vezes você está marcado para chorar numa cena de manhã, você chega nos estúdios meio concentrada porque não é fácil, só que atrasou, você tem que armazenar e quando for a hora da cena real, você cai dentro e esteja pronto. É uma preparação para o ator estar de prontidão com sua habilidade e talento. Gosto desse desafio, é uma experiência diferente do teatro que está sucetível a coisas que podem acontecer", completa.
Temporada: 04 a 27 de setembro de 2025
Horário: Quinta-feira a sábado às 19h
Ingressos: R$ 20 (meia-entrada) / R$ 40 (inteira)
Local: Teatro Correios Léa Garcia
Endereço: Rua Visconde de Itaboraí, 20 – Centro - Rio de Janeiro – RJ
Classificação Indicativa: 12 anos
Duração: 90 minutos






