Mais do que uma campanha, um convite para escutar e apoiar quem precisaReprodução
Para comentar sobre a importância desse mês para a nossa saúde mental, tive uma conversa muito útil e esclarecedora com o doutor Ervin Cotrik, psiquiatra formado pela UFRJ, que trouxe sua experiência profissional e olhar humano para nos ajudar a compreender melhor os sinais de alerta e, principalmente, como podemos apoiar quem precisa.
Porque falar de saúde mental não é apenas falar de dor, é também abrir caminhos para esperança, afeto e vida.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) alerta que falar sobre o suicídio de forma responsável e acolhedora não aumenta o risco, pelo contrário, é uma das ferramentas mais importantes de prevenção.
Comunicação verbal: frases de desesperança e desamparo, como “Eu não aguento mais”, “Eu queria sumir”, “Eu preferia estar morto”, “Os outros seriam mais felizes sem mim”, “Eu sou um peso para os outros” e “Não vejo saída para os meus problemas”. Essas falas são pedidos de ajuda e desmentem o mito de que “quem fala não faz”.
Comunicação não verbal (comportamentos): isolamento social; mudanças de humor (irritabilidade, apatia, ansiedade, pessimismo); queda no desempenho escolar ou profissional; comportamentos de risco (uso de álcool e drogas, direção perigosa, sexo sem proteção); atitudes de despedida (doar objetos, escrever cartas, organizar documentos); busca por meios letais (pesquisar métodos, comprar armas, acumular medicamentos).
Sinais contextuais: perdas recentes (morte, separação, desemprego); crises financeiras ou sociais (problemas econômicos, justiça, bullying); doenças crônicas ou incapacitantes; histórico de trauma (abuso físico, sexual ou psicológico).
A presença desses sinais não significa que a pessoa tentará suicídio, mas mostra que está em sofrimento e precisa de ajuda. A melhor forma de apoiar é conversar com empatia, sem julgamentos, e estimular a busca por um psicólogo ou psiquiatra
Geralmente, a tristeza é uma reação a um evento específico e identificável: a perda de um emprego, o fim de um relacionamento, a morte de um ente querido, uma decepção. É uma resposta proporcional ao acontecimento.
A depressão pode se instalar sem uma causa aparente. A pessoa pode ter uma vida aparentemente estável e, ainda assim, desenvolver a doença. Fatores genéticos, neuroquímicos e psicossociais complexos estão envolvidos. Quando há um gatilho, a reação emocional é desproporcionalmente intensa e duradoura.
Além disso, A tristeza pode afetar temporariamente a rotina, mas a pessoa geralmente consegue manter suas responsabilidades básicas, como trabalhar, estudar e cuidar de si mesma. Já na depressão, os sintomas causam um prejuízo significativo no funcionamento social, profissional e pessoal.
Como falar de forma responsável?
A OMS e a ABP recomendam algumas diretrizes importantes ao abordar o tema:
•Não romantize ou glamourize o suicídio;
•Não simplifique as causas. O suicídio é complexo e multifatorial;
•Não descreva métodos ou locais. Isso pode ser um gatilho para pessoas vulneráveis;
•Foque na prevenção, na esperança e na possibilidade de tratamento;
•Divulgue informações sobre onde buscar ajuda.
Fatores de risco principais:
Transtornos mentais – presentes em mais de 90% dos casos, segundo a ABP, muitas vezes sem diagnóstico ou tratamento adequado:
Depressão: sensação de desesperança e dor emocional profunda;
Transtorno bipolar: risco elevado nas fases depressivas ou mistas, pela impulsividade e intensidade do sofrimento;
Transtornos por uso de substâncias: álcool e drogas aumentam impulsividade, agravam sintomas e comprometem o julgamento;
Esquizofrenia: risco associado a alucinações, delírios, depressão e desesperança.
Tentativa prévia de suicídio – é o preditor isolado mais forte: quem já tentou tem 5 a 6 vezes mais chance de repetir. Deve ser tratada com máxima seriedade por familiares e profissionais.
Eventos de vida estressantes e traumas – atuam como gatilhos, especialmente em pessoas vulneráveis:
Histórico de abuso (físico, sexual ou emocional);
Perdas significativas (luto, separação, desemprego);
Crises financeiras e sociais (endividamento, falência, problemas com a justiça);
Bullying e cyberbullying, de forte impacto entre jovens.
A disponibilidade de meios para cometer o suicídio (como armas de fogo, pesticidas ou acesso a medicamentos perigosos) aumenta a probabilidade de uma tentativa ser fatal. A restrição do acesso a esses meios é uma das estratégias de prevenção mais eficazes em nível populacional.
É crucial entender que a presença de um ou mais desses fatores não determina que uma pessoa irá desenvolver ideação suicida, mas aumenta sua vulnerabilidade. A prevenção eficaz passa por reconhecer esses riscos e oferecer uma rede de apoio e tratamento que possa mitigar seu impacto.
Como podem ser gatilho:
Comparação social e pressão estética: ao exibir apenas versões ideais da vida, as redes geram comparação, baixa autoestima e insatisfação, além da pressão por corpo, sucesso e vida social perfeitos.
Dependência de validação externa: curtidas e comentários funcionam como recompensas, tornando 40% dos jovens dependentes de aprovação digital, o que fragiliza a autoconfiança.
Cyberbullying: atinge 27% dos jovens e pode causar isolamento, depressão, ansiedade e até ideação suicida, sendo mais invasivo que o bullying tradicional.
FOMO e sono prejudicado: o medo de ficar “por fora” leva ao uso compulsivo, inclusive à noite, piorando o sono e aumentando o risco de depressão e ansiedade.
Como podem ajudar:
Acesso à informação: campanhas como o Setembro Amarelo disseminam conteúdos de qualidade, desmistificam transtornos e divulgam canais de ajuda.
Comunidades e redes de apoio: grupos online fortalecem o sentimento de pertencimento, sobretudo para minorias e pessoas isoladas.
Redução do estigma: relatos de figuras públicas e usuários normalizam o sofrimento e encorajam quem enfrenta dificuldades.
Acesso a profissionais: psicólogos, psiquiatras e instituições utilizam as redes para orientar e facilitar o contato.
A palavra-chave é equilíbrio.
Assim como quem tem diabetes procura um endocrinologista e quem fratura uma perna busca um ortopedista, quem sofre de transtornos mentais deve procurar um psiquiatra. Isso não é fraqueza, mas um ato de coragem e responsabilidade com a própria saúde.
Estratégias do dia a dia:
Atividade física: libera endorfinas, melhora humor, sono e autoestima; caminhadas de 30 min, 3 a 5 vezes por semana já ajudam.
Alimentação equilibrada: frutas, vegetais, grãos integrais e proteínas magras favorecem energia e humor.
Sono de qualidade: dormir 7 a 9h por noite regula humor e memória; evite telas antes de deitar.
Relaxamento: meditação, mindfulness, respiração profunda e ioga reduzem ansiedade.
Lazer: hobbies como ler, ouvir música ou cozinhar aumentam prazer e reduzem estresse.
Convivência social: grupos, cursos ou voluntariado fortalecem conexões e pertencimento.
Rotina e metas: manter horários regulares traz estrutura; dividir grandes tarefas em etapas aumenta autoconfiança.
Uso de telas e notícias: pratique “detox digital” e limite redes sociais; selecione fontes confiáveis e evite excesso de notícias negativa.
1. Acesso universal à saúde mental: mais de 90% dos casos estão ligados a transtornos mentais, tornando essencial garantir diagnóstico e tratamento acessíveis. Isso inclui integrar saúde mental na atenção primária, fortalecer os CAPS (com funcionamento 24h e equipes multidisciplinares) e reduzir filas e custos no SUS e planos de saúde.
2. Restrição de meios letais: dificultar o acesso a métodos comuns salva vidas, pois muitas tentativas são impulsivas. Medidas eficazes incluem controle rigoroso de armas, instalação de barreiras em locais de risco e restrição à venda de pesticidas e medicamentos em grandes quantidades.
3. Educação e conscientização: combater o estigma e informar corretamente a população. Isso envolve programas escolares sobre saúde mental, resiliência e inteligência emocional, além de campanhas de mídia responsáveis, como o Setembro Amarelo, sempre divulgando canais de ajuda.
4. Apoio a populações vulneráveis: direcionar ações a grupos de maior risco, como jovens (prevenção do bullying e apoio nas escolas), idosos (combate à solidão e acompanhamento de doenças), população LGBTQIA+ (ambientes seguros e inclusivos), indígenas (cuidados culturalmente adequados) e pessoas que já tentaram suicídio (acompanhamento intensivo após a alta hospitalar).
1. Converse: Aborde o Assunto de Forma Direta e Empática
Não tenha medo de perguntar. O mito de que falar sobre suicídio pode induzir o ato já foi derrubado por especialistas do mundo todo. A abordagem deve ser calma, sem pânico e, acima de tudo, sem julgamento. Você pode começar a conversa expressando sua preocupação de forma genuína:
•“Eu tenho me preocupado com você ultimamente.”
Se a pessoa der aberturas, seja mais direto. Perguntar não machuca, o silêncio sim.
•“Você tem pensado em se machucar?”
Usar a palavra “suicídio” mostra que você não tem medo do assunto e que está disposto a ouvir sobre a profundidade da dor da pessoa. Isso pode ser um alívio imenso para quem está em sofrimento.
2. Ouça: Ofereça uma Escuta Ativa e Sem Julgamentos
Este é o momento de ouvir mais e falar menos. O objetivo não é dar conselhos, apresentar soluções fáceis ou dizer frases como “pense positivo” ou “isso vai passar”. Essas frases, embora bem-intencionadas, podem invalidar o sentimento da pessoa e fazê-la se sentir ainda mais incompreendida.
•Valide os sentimentos: Diga coisas como “Imagino que isso deva ser muito difícil” ou “Eu sinto muito que você esteja passando por isso”.
3. Não Deixe a Pessoa Sozinha: Busque Ajuda Profissional Imediatamente
Depois de conversar e ouvir, a ação mais importante é garantir que a pessoa não fique sozinha e que receba ajuda profissional o mais rápido possível. Você não precisa e não deve carregar essa responsabilidade sozinho.
•Se o risco for imediato: Se a pessoa tem um plano, meios e intenção de cometer o suicídio em breve, a situação é uma emergência médica. Você deve:
Levar a pessoa a um serviço de emergência psiquiátrica ou a um pronto-socorro.
Remover do ambiente qualquer meio que possa ser usado para a tentativa (armas, medicamentos, etc.).
Acompanhe a pessoa à consulta, se ela se sentir mais confortável.
Ajude-a a encontrar os serviços de saúde mental da sua cidade, como os CAPS (Centros de Atenção Psicossocial).
O primeiro passo, portanto, é uma combinação de conexão humana e ação prática. É mostrar que você se importa, que está ali para ouvir sem julgamentos e que vai fazer de tudo para que a pessoa receba o cuidado profissional de que necessita. Sua presença e sua atitude podem ser a ponte entre a desesperança e o início de um caminho de recuperação.
Canais de Ajuda:
•CAPS (Centros de Atenção Psicossocial): Procure o CAPS mais próximo da sua residência. O serviço é gratuito e oferecido pelo SUS.

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