Sabe aquela peça que te pega de um jeito diferente? Então, é isso que “Carangueja” faz com a gente. Escrita e codirigida pela maravilhosa Tereza Seiblitz — que, aliás, você deve ter visto arrasando como a Doralice na novela das 19h da Globo, Volta Por Cima — e pela talentosíssima piauiense Fernanda Silva, essa obra é um verdadeiro mergulho na força criadora da nossa Terra.
Elas escolheram o manguezal como símbolo pra contar essa história, e olha… não poderia ser mais potente. Esse ecossistema, que vive no encontro entre a terra, os rios e o mar, é cheio de vida e de transformação. E é justamente sobre isso que a peça fala: sobre mudança, natureza e responsabilidade.
Entre seus principais trabalhos na TV Globo, está a catadora de caranguejos Joana, da novela Renascer; a ambiciosa Gabriela Ême, da minissérie Hilda Furacão; e a cigana Dara, da novela Explode CoraçãoDivulgação
Num mundo onde os desastres ambientais estão batendo à porta, onde as crises parecem não dar trégua, Tereza sentiu que precisava falar — e falar com o coração — sobre preservar o que é essencial. Não só o mangue, mas todas as formas de vida que a gente, como humanidade, insiste em colocar em risco. “Carangueja” é quase um chamado: vamos cuidar do que é nosso? Vamos cuidar da Terra?
Agora se prepara pra sinopse, porque é daquelas que te deixam pensativa… e impactada!
A história gira em torno de uma mulher enigmática, que a gente nem sabe bem de onde vem ou de quando é. O que acontece é que ela vai sendo invadida por várias vozes — tipo como se a gente estivesse dentro da mente dela, sabe? Tem voz de aeroporto, notícia de jornal, até alguém ensinando uma moqueca no rádio (sim, isso acontece!). Essas vozes se misturam, falam pelo corpo dela, e aos poucos a gente vai entendendo o que tá rolando.
E aí vem a virada: essa mulher vai se transformando, meio gente, meio caranguejo. Uma metamorfose mesmo, entre o que é humano e o que é natureza. Entre mulher… e carangueja!
A peça estará em cartaz até o dia 27 de agosto no Teatro Poeirinha, e aproveitei para conversar com esse mulherão que é a Tereza Seiblitz, que me falou um pouco sobre sua carreira super versátil, de sucesso e com inúmeras conquistas!
Confira a entrevista abaixo:
Você começou sua trajetória artística pela dança e hoje é uma artista multifacetada: atriz, autora, diretora, professora... Como foi essa transição e como esses diferentes papéis dialogam entre si na sua trajetória?
A transição foi acontecendo de acordo com as oportunidades de trabalho. Mas desde criança eu gostava muito de dançar, dançava em casa, pela sala, sozinha… e com uns 9 anos eu queria ser atriz. Aí, na adolescência, fiquei tímida de não conseguir ler redação em voz alta na sala. Escrevia muito, tirava 10 nas redações e zero em expressão oral.
Minha mãe me levou para aulas de dança. Lá pelos 18 anos, voltei a fazer teatro, peças musicais e fui voltando a falar…(risos). Cheguei à televisão e fui sempre seguindo as oportunidades de trabalho que me interessavam. Em 2016, aos 52 anos, me formei em Letras e emendei no mestrado. A sensação que eu tenho é que sempre tive olhos curiosos. Daí talvez o gosto pelos processos de criação e direção. Acho que esses papéis dialogam entre si porque gosto de todas as etapas de produção artística.
Ao longo da carreira, você interpretou personagens marcantes como a cigana Dara (Explode Coração), Joana em Renascer e Gabriela Ême em Hilda Furacão. Qual dessas personagens você sente que te transformou mais como atriz e como mulher?
As três me transformaram. Não tenho como medir… A Joana foi a primeira vez que senti uma espécie de total domínio e prazer em cena na TV. Em vários momentos. Lembro da sensação de câmera lenta e alta voltagem emocional na sequência da morte do Tião Galinha. Já a Dara trouxe uma lufada de beleza, cores, saias girando e todo um povo antigo, uma cultura muito forte para honrar como atriz.
Uma expansão no imaginário das pessoas. E a Gabriela Emê foi o desafio (e a delícia) de uma semi-vilã, uma personagem que começa sonhadora, romântica e se descobre interesseira, mas assumida e com humor, uma gostosura de fazer. Trabalhei uma voz metálica e uma mini partitura com a Camilla Amado, como se ela estivesse desconectada do seu próprio corpo. Nunca tinha trabalhado com preparação na TV e Camilla era gênia. A gente se divertiu muito juntas.
Seu trabalho transita entre teatro, televisão, cinema e literatura. Quais são os maiores desafios e prazeres de se mover por essas linguagens tão diferentes?
Não sei se acho tão diferentes… acho que uma alimenta a outra… talvez sejam diferentes na técnica do corpo, no uso do corpo… talvez mais no sentido de se adaptar a cada linguagem dessas.
O teatro pede uma energia diferente do cinema/TV mas é uma questão de ajuste, de musculatura, projeção de voz. Como regular a máquina expressiva. A literatura exige uns descansos e uns tempos diferentes. Mas escrever também é com o corpo pra mim… às vezes fico ali rodeando, paro, espero, fico agoniada até que vem meio como um vulcão. Depois é revisar, pentear o texto, dar uma demão…
Vamos falar de sua peça Carangueja? Como surgiu a ideia de transformar o manguezal — esse ecossistema tão único — em metáfora central da história da peça?
Não é uma metáfora (risos)! Eu queria que as pessoas sentissem o manguezal como eu senti na primeira vez que entrei em um para gravar Renascer, em 1993. Eu escrevi o texto como Projeto de Autoria, na Graduação em Letras, com orientação do poeta Paulo Henriques Britto.
E escrevi a partir de um lugar: o manguezal. É um berçário de muitas espécies de seres vivos, um lugar que está sempre mudando… e como digo na peça: “aqui milhares de seres em aliança, a vida, infinitamente alegre e feroz, comendo a si mesma e começando sempre”.
A protagonista de Carangueja vive uma espécie de metamorfose entre o humano e o crustáceo. O que essa transformação representa para você, especialmente no contexto atual?
Eu diria que em vez de metamorfose seria uma experiência de vizinhança extrema, pensando no texto sobre o feiticeiro do Deleuze. A personagem não deixa de ser ela mas experimenta com todas as suas células um devir-crustácea.
Pensando no contexto atual, de tantas disputas de conceitos, acho que a carangueja questiona o antropocentrismo e o patriarcado humano. O tempo todo. Nossa sociedade vive como se todos os outros seres vivos estivessem aqui nesse mundo para nos servir. O conceito de mulher também é estilhaçado em mulheridades diversas.
Se você pudesse escolher uma única imagem ou sensação que Carangueja desperta no público, qual seria?
O que ela diz no final: “Vão, sejam vocês, de vocês, por vocês, cada um e todos, se ajudem, sejam felizes, sejam bons, experimentem, façam filhotes”
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