Redução do preço da gaoslina pode influenciar o valor do etanol, reduzindo a pressão inflacionáriaRenan Areias/Agência O Dia
Corte no preço da gasolina pela Petrobras pode aliviar IPCA no curto prazo, dizem analistas
Decisão da estatal tende a influenciar as cotações do etanol
A redução de 5,2% no valor da gasolina vendida pela Petrobras às distribuidoras, que passa a valer na terça-feira, 27, já era amplamente aguardada por agentes do segmento de combustíveis. Ainda assim, com os preços praticados no Brasil acima dos internacionais e com o barril de petróleo acumulando queda de quase 20% em 2025, o movimento da estatal nos primeiros dias de 2026 pode gerar uma leve diminuição nas projeções do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) de curto prazo, segundo especialistas.
A companhia abandonou a Paridade de Preços Internacionais (PPI) em maio de 2023 e passou a adotar uma estratégia comercial que evita transferir a volatilidade do petróleo para o mercado interno.
Entretanto, o cenário recente, marcado pela estabilidade das cotações externas do óleo e pela valorização do real em relação ao dólar, respalda a decisão, destaca o analista de Inteligência de Mercado da StoneX, Bruno Cordeiro: "A defasagem entre o valor de venda da Petrobras e o do produto importado chegou a superar R$ 0,40 por litro em meados de janeiro. Na última sexta-feira [23], permaneceu em R$ 0,24 mesmo com restrições de oferta no Cazaquistão e receios acerca de impactos na produção norte-americana devido à chegada do vórtice polar aos Estados Unidos."
Para o Itaú BBA, o anúncio foi neutro, embora a magnitude do corte tenha ficado um pouco abaixo da estimativa da equipe. "Depois do ajuste, os valores domésticos devem permanecer aproximadamente 5% acima da PPI, de acordo com nossos cálculos. Antes, estavam cerca de 10% superiores."
O analista da Genial Investimentos, Vitor Sousa, também aponta a diferença superior a 10%. "Não foi um corte artificial; havia espaço para reduzir", afirmou.
Outro fator que reforçou a expectativa de redução dos preços foi o leilão realizado pela companhia na semana passada para um lote de gasolina A, cujo lance inicial trazia desconto de R$ 0,26 por litro em relação ao preço então vigente, acrescenta a StoneX.
Efeitos
Sob a ótica do mercado de combustíveis, a diminuição de cerca de R$ 0,14 por litro representa alívio no custo na origem da cadeia, observa o especialista em renda variável da Ável Investimentos, Fabio Oiko. "O preço nas bombas depende de tributos, margens de distribuição e revenda, despesas logísticas e da mistura obrigatória com etanol. Ainda assim, a medida contribui para diminuir o custo marginal do produto", explica.
A decisão da estatal igualmente tende a influenciar as cotações do etanol, cuja safra de cana-de-açúcar começa em abril, lembra a responsável pela área de combustíveis da consultoria de preços Argus, Gabrielle Moreira. "A expectativa é de que este ciclo seja mais direcionado à produção de álcool, o que tende a tornar o etanol mais competitivo no mercado interno. O reajuste no valor da gasolina ajuda a preservar essa competitividade", avalia.
Do ponto de vista macroeconômico, a elevação do Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) sobre o combustível e os fundamentos econômicos justificam o corte. Essa combinação deve reduzir o apetite pelo produto importado, acrescenta a especialista da Argus.
A economista-chefe da InvestSmart XP, Mônica Araújo, lembra que o repasse das quedas nas refinarias ao consumidor final tem sido parcial, o que pode limitar o impacto sobre a inflação.
Mesmo assim, há espaço para revisão das projeções de IPCA de fevereiro e março. Já para a reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) desta quarta-feira, a expectativa para a taxa básica de juros permanece inalterada. "Diante de eventos geopolíticos que trazem volatilidade às cotações do petróleo e de seus derivados, o momento em que a estatal faz esse movimento é difícil de estimar. Mas a decisão da Petrobras pode levar a um tom ligeiramente mais dovish (propenso a cortes) no comunicado, abrindo espaço para o início da flexibilização monetária em março de 2026", pondera.
O analista de ações da Suno Research, Malek Zein, ressalta que, se o petróleo permanecer no nível atual nos próximos meses, a US$ 65, uma nova alta da gasolina não está descartada. "Embora não seja uma obrigação formal, a Petrobras vem seguindo a paridade internacional, o que consideramos bastante positivo", conclui.
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