A construção civil brasileira deve ter um melhor desempenho em 2026. Segundo a Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC), o crescimento previsto para o setor é de 2%. Apesar do avanço, o segmento ainda enfrenta desafios, especialmente em relação à escassez de mão de obra especializada.
A expectativa de expansão, aponta a CBIC, é sustentada por um conjunto de fatores, entre eles: o início do ciclo de redução da taxa de juros; o orçamento recorde para o financiamento habitacional com recursos do FGTS; a implementação do novo modelo de financiamento imobiliário com recursos da poupança; os investimentos em infraestrutura; e as novas contratações do programa Minha Casa, Minha Vida.
Por outro lado, o engenheiro civil Yurí Lourêiro aponta que a construção civil sofre com a falta de profissionais.
Engenheiro civil Yurí LourêiroArquivo pessoal
"A falta de mão de obra qualificada é bem perceptível hoje. O que mais faz falta são profissionais especializados como pedreiros experientes, eletricistas, encanadores, armadores e carpinteiros", detalha. "Não é só quantidade, é principalmente qualificação. A gente até encontra gente disposta a trabalhar, mas com pouca formação técnica ou pouca experiência, o que impacta diretamente na qualidade e no ritmo da obra."
A ausência de trabalhadores é resultado das condições precárias do setor, explica o conselheiro da Associação Brasileira de Recursos Humanos - Rio (ABRH Rio) Luiz Carlos Rio Tinto de Matos.
Conselheiro da ABRH Rio Luiz Carlos Rio Tinto de MatosArquivo pessoal
"O operário da construção civil sofre de um esforço físico maior, não tem uma remuneração tão atrativa e não consegue perceber grandes oportunidades de crescimento profissional" afirma.
O especialista em RH também pontua que o setor é pouco atrativo aos jovens que estão iniciando uma carreira. "Eles não querem entrar no nosso mercado pois as condições não são as melhores. Além disso, fora do setor há oferta de trabalhos e serviços que concorrem diretamente, como os aplicativos de transporte e de entrega de alimentos."
Não encontrar um profissional capacitado tornou-se algo comum no mercado da construção civil. O engenheiro Ricardo Carvalho conta que já enfrentou dificuldades para contratar um especialista.
"Já aconteceu algumas vezes. Em uma delas, precisei de um profissional especializado em instalação de revestimentos e não consegui encontrar alguém com a qualificação necessária disponível no mercado”, diz. "A solução foi identificar um ajudante que demonstrava mais habilidade e comprometimento e investir no desenvolvimento dele."
Yurí Lourêiro, também engenheiro civil, menciona que passou pelo mesmo problema "várias vezes".
"Principalmente com eletricista e alguns profissionais mais específicos, como armador ou bombeiro hidráulico, por exemplo. A solução foi treinar alguém da equipe que tinha mais facilidade para aprender a executar o serviço e acompanhar de perto. Mas isso sempre gera retrabalho, mais tempo e mais custo."
Diante da escassez, a substituição de funções surge como uma alternativa para contornar o problema.
"Esse cenário acaba pressionando o engenheiro a assumir funções que não seriam originalmente suas. Principalmente pela escassez de mestre de obras, que seria o elo ideal entre o planejamento da obra, executado pelo Engenheiro, e o canteiro de obras propriamente dito", explica o professor de engenharia civil Claudio Rodrigues. "Essa falta leva os engenheiros a se envolverem em questões de ordem administrativa, que não exigem seu conhecimento técnico de engenharia e de planejamento", completa.
Luiz Carlos de Matos, especialista em RH, ressalta que a função de mestre de obras está entre as mais afetadas pela escassez de profissionais qualificados.
"A função de mestre de obras está quase extinta, pois a formação deles era realizada dentro do canteiro de obras, e eram profissionais que se desenvolviam, passando de operário a encarregado de turma e, deste, a mestre de obras. Hoje, temos o técnico em edificações tentando substituir essa função", assegura.
Apesar da ausência de dados exatos, Cláudio Hermolin, presidente do Sindicato da Indústria da Construção Civil do Rio de Janeiro (Sinduscon-Rio), informa que a carência de profissionais é significativa.
Cláudio Hermolin, presidente do Sinduscon-RioDivulgação
"É difícil precisar hoje a quantidade desse déficit de trabalhadores, porque não existe um controle centralizado do volume de vagas em aberto. No entanto, temos um trabalho no Sinduscon de atrair novas pessoas para a indústria da construção civil, e percebemos que toda essa mão de obra formada acaba sendo absorvida, mas ainda há necessidade de mais", pontua.
Obras demoradas e mais caras
A ausência de profissionais qualificados pesa diretamente no bolso do cliente e influencia o tempo de entrega das obras. O engenheiro civil Yurí Lourêiro diz que há impacto direto no prazo final.
"É comum obras atrasarem ou ficarem mais caras por conta da escassez de mão de obra qualificada. Quando faltam especialistas, a produtividade cai, aumenta a chance de erro e retrabalho; e isso estoura prazo e orçamento", ressalta. "Além disso, quando o profissional é raro, o custo da mão de obra sobe, o que também pressiona o valor final da obra."
Realocar profissionais para outras funções pode contribuir para amenizar a situação, mas, segundo o professor de engenharia Claudio Rodrigues, a medida, por si só, não é suficiente para conter o problema.
Claudio Rodrigues, de Engenharia Civil de MaringáArquivo pessoal
"Mesmo se você alocar o colaborador especializado em um serviço, para ele apresentar um bom rendimento em outro serviço, isso leva algum tempo e, para você ter o rendimento desejado, normalmente é necessário contratar mais colaboradores."
Cursos profissionalizantes
Para melhorar a qualificação de profissionais e tornar o setor da construção civil mais atrativo aos trabalhadores, o CEO da Zinz — plataforma de contratação de construtoras —, Iuri Lenzi, afirma que é necessário atuar em três frentes.
CEO da Zinz, Iuri LenziArquivo pessoal
"A primeira é previsibilidade. Muitos profissionais ainda associam o setor à informalidade e à instabilidade. Quanto mais formalização e clareza contratual houver, maior tende a ser a confiança de quem pensa em ingressar na área", evidencia.
A segunda, de acordo com ele, é a qualificação contínua. "O setor evoluiu muito em tecnologia, métodos construtivos e gestão, mas isso nem sempre chega de forma estruturada ao trabalhador. Programas de capacitação e trilhas de desenvolvimento ajudam a mostrar que existe crescimento possível na carreira."
"Por fim, valorização. Reconhecer o conhecimento técnico, garantir condições adequadas de trabalho e profissionalizar as relações são passos importantes. Gradualmente, essas coisas ampliam o interesse de quem busca estabilidade e crescimento na área", garante.
Para melhorar a qualificação, Luiz Carlos de Matos assegura que cursos como os do Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai) têm ajudado muito a formar profissionais, mas a oferta acaba sendo maior do que o número de alunos inscritos.
"O desenvolvimento tecnológico e a maior mecanização do setor, certamente atrairá mais jovens, a exemplo do que aconteceu com o agronegócio depois que as máquinas agrícolas ganharam relevância e demandaram operadores superespecializados e que ganham bons salários."
Procurada pelo jornal O DIA, a Firjan Senai informa que conta com 1.721 vagas gratuitas em cursos de qualificação profissional na área de Construção Civil, com início entre fevereiro e abril. Para mais informações, basta acessar o site: https://firjansenai.com.br/editaisgratuitos.
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