Especialistas afirmam que é possível começar a investir a partir de R$ 1Arte

O Comitê de Política Monetária (Copom) diminuiu a taxa Selic de 14,75% para 14,50% no fim de abril, e quem investe pode sentir impacto no rendimento. Especialistas consultados pelo jornal O DIA explicam como a mudança da taxa afeta o pequeno investidor e dão dicas para quem deseja começar a aplicar o próprio dinheiro, com opções acessíveis a partir de R$ 1.
Um levantamento realizado pela Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima) aponta que o volume investido por pessoas físicas no Brasil chegou a R$ 8,5 trilhões em 2025, alta de 15,5% na comparação com dezembro de 2024.
O cofundador e CRO da Rise, empresa de investimentos, Vitor Delduque, afirma que a queda da Selic altera a percepção do público.
Vitor Delduque, CO-founder e CRO da Rise - Arquivo pessoal
Vitor Delduque, CO-founder e CRO da RiseArquivo pessoal
"Mesmo sem perder dinheiro, o investidor sente que está ganhando menos. E essa sensação muda o comportamento. Ele começa a buscar alternativas, muitas vezes sem entender o risco que está assumindo. O problema não é a queda da taxa, mas a transição de um cenário confortável para outro que exige mais critério. É aí que muitos erram", diz.
Vitor Delduque também explica o impacto da taxa básica de juros sobre os rendimentos.
"Afeta diretamente a expectativa de retorno. Esses ativos orbitam a taxa Selic. Quando você vê um ativo que rende ‘CDI + alguma coisa’, há relação direta com a Selic. Por exemplo: quando um ativo paga CDI + 3%, ele está pagando uma taxa muito próxima da Selic, mais 3% extras. Quando a Selic cai, o rendimento final também diminui", frisa.
Para quem já investe ou deseja começar, o ideal é fazer as aplicações com calma e pesquisar bastante. O consultor financeiro da Plano Consultoria Financeira Pessoal Ricardo Hiraki indica os principais erros.
Ricardo Hiraki, Consultor Financeiro da Plano Consultoria Financeira Pessoal - Arquivo pessoal
Ricardo Hiraki, Consultor Financeiro da Plano Consultoria Financeira PessoalArquivo pessoal
"O erro número um é investir sem ter uma reserva de emergência e acabar sacando o dinheiro no primeiro imprevisto, muitas vezes no pior momento. O segundo erro clássico é ir direto para a renda variável, como criptomoedas e ações individuais, atraído por histórias de ganhos rápidos, sem entender os riscos."
O consultor financeiro destaca que a ideia de que investimento é "coisa de rico" ficou ultrapassada.
"A democratização digital eliminou as barreiras de entrada: não há mais necessidade de ir a um banco, ter um gerente ou aplicar grandes quantias", afirma o especialista.
"Hoje é possível começar a investir com valores muito baixos. No Tesouro Direto, por exemplo, é possível aplicar a partir de cerca de R$ 30. Corretoras como Nubank, XP, Rico e Inter oferecem fundos de renda fixa e ETFs com aporte inicial entre R$ 1 e R$ 100", comenta.
A falta de conhecimento sobre a possibilidade de investir com pouco dinheiro acaba se tornando uma barreira. O editor de livros Vanderlei Abreu, de 59 anos, conta que a falta de recursos é o que o impede de voltar a investir.
Editor de livros Vanderlei Abreu, de 59 anos - Arquivo pessoal
Editor de livros Vanderlei Abreu, de 59 anosArquivo pessoal
"Já investi antes uma reserva que tinha em CDB, mas precisei do dinheiro e gastei. Hoje, não aplico mais", explica. "A falta de capital é o que me impede de voltar a investir. Atualmente, basicamente administro a reserva da família. A minha acabou", completa.
"Cheguei a cogitar investir em aplicações mais agressivas, mas, depois que li notícias sobre pessoas que perderam dinheiro nesses investimentos, resolvi manter um perfil mais conservador: ganhar menos, mas preservar o patrimônio."
Já a socióloga Valesca Abranches, de 53 anos, afirma que a liquidez é uma de suas maiores aflições. 
Socióloga Valesca Abranches, de 53 anos - Arquivo pessoal
Socióloga Valesca Abranches, de 53 anosArquivo pessoal
"O que mais me preocupa é precisar do dinheiro para uma emergência e ter de esperar muito tempo para liberação ou pagar uma taxa astronômica que torne insuficiente toda a rentabilidade", diz. "Se eu começasse a investir hoje, meu maior objetivo no momento seria ter uma reserva. No futuro, separaria uma parte para fazer coisas como viajar ou mesmo gastar com algo supérfluo, mas que me faria muito feliz naquele momento."
Por onde começar a investir?
O consultor financeiro Ricardo Hiraki enfatiza que, antes de começar a investir o próprio dinheiro, é fundamental fazer um panorama dos objetivos financeiros.
"Antes de qualquer investimento, dois passos são inegociáveis. O primeiro é quitar dívidas caras, como cartão de crédito e cheque especial, que cobram entre 15% e 20% ao mês, taxas que dificilmente serão superadas por qualquer aplicação", garante. 
"O segundo passo é montar uma reserva de emergência equivalente de três a seis meses de despesas, em um produto com liquidez diária. Só depois disso faz sentido pensar em investimentos de médio e longo prazo. Investir sem ter uma reserva de emergência é como construir uma casa sem alicerce", diz.
André Franco, CEO da Boost Research, confirma que a renda fixa é ideal para investidores iniciantes.
André Franco, CEO Boost Research - Arquivo pessoal
André Franco, CEO Boost ResearchArquivo pessoal
"Para quem está começando, o ideal é investir em Tesouro Direto e em renda fixa, sem complicações. A ideia é focar no acúmulo de capital para ter uma reserva equivalente de seis a doze meses de gastos."
Segundo o economista Vitor Delduque, "a renda fixa oferece previsibilidade e menor volatilidade, sendo adequada para a formação de base patrimonial e gestão de risco, geralmente para perfis mais conservadores", assegura. "Já a renda variável está sujeita a oscilações, mas oferece maior potencial de retorno no longo prazo."
"Existe um conceito importante que gosto de usar, que é o dos três Rs: rentabilidade, risco e liquidez. O investidor sempre abre mão de um desses elementos. Se busca alta rentabilidade no curto prazo, assume mais risco. Se prioriza segurança e liquidez, tende a aceitar uma rentabilidade menor. E se busca rentabilidade com pouco risco, normalmente precisa de mais tempo", explica.
O economista Tiago Velloso detalha as diferenças entre os principais investimentos de renda fixa. Segundo ele, para fazer a escolha, é preciso levar em consideração três pontos principais: tipo de rentabilidade, risco e liquidez.
Economista Tiago Velloso - Arquivo pessoal
Economista Tiago VellosoArquivo pessoal
"O Tesouro Direto é um título do governo, portanto tem risco mais baixo. No pior cenário, o governo tem capacidade de emitir moeda para honrar a dívida", diz. "CDBs, LCIs e LCAs são títulos de instituições financeiras e podem oferecer retornos maiores, principalmente em prazos mais longos, com destaque para a isenção de imposto nas LCIs e LCAs."
"A poupança, com a evolução do mercado e o maior acesso à informação, perdeu muito espaço. Hoje existem opções com mais rentabilidade líquida, mais liquidez e risco semelhante ou até menor, como o Tesouro Selic."
O consultor financeiro Ricardo Hiraki ressalta que a caderneta ainda pode apresentar vantagem, mas apenas em "pouquíssimos casos". Segundo ele, "a poupança ainda faz sentido apenas para quem tem grande dificuldade com plataformas digitais ou precisa de um produto sem risco de mercado para valores muito pequenos."
Hiraki também recomenda que o melhor momento para começar a investir é "agora".
"Comece pequeno e comece agora. O pior inimigo não é o risco do mercado, mas a inércia. Abra uma conta em uma corretora digital hoje, aplique R$ 50 em um CDB ou no Tesouro Selic e observe o rendimento por um mês. Esse contato prático elimina boa parte do medo que vem do desconhecimento. Investir é uma habilidade que se aprende fazendo, e não existe momento perfeito para começar. Existe o momento em que você decide começar."
Onde começar a investir?
Hoje, é possível investir pelo próprio celular, sem complicações, como ir até uma agência bancária e precisar de um gerente.
Mario Perrone, Head de Captação em Investimentos do Banco do Brasil, destaca que "para quem está começando a jornada de investimentos, montar uma reserva de emergência é essencial". Entre as soluções disponíveis, o Banco do Brasil possui o "Cofrinho BB", que é acessível a todos os clientes, com valor de entrada a partir de R$ 0,01. 
O banco também oferta outras opções de investimento. "O BB possui um amplo portfólio de produtos, como CDBs e diversas classes de fundos de investimento, para diferentes perfis de clientes. O CDB conta com valor inicial de R$ 500,00, rentabilidade diária, possibilidade de resgate automático e prazo de até cinco anos. Já os fundos possuem valores acessíveis de entrada, a partir de R$ 0,01, permitindo que o investidor comece sua reserva com pequenos aportes e aumente gradualmente conforme sua renda evolui", afirma a instituição por meio de nota.
Procurado pela matéria, o Bradesco garante que "apesar do início do ciclo de cortes, os investimentos atrelados à Selic seguem oferecendo uma remuneração bastante atrativa, superior a 1% ao mês antes do Imposto de Renda, além de oferecerem baixo risco e alta liquidez". Como opções para investidores iniciantes, a instituição "oferece diversas alternativas de investimentos atrelados à Selic, como CDBs e fundos DI, com aplicações mínimas a partir de R$ 100,00".
O Nubank informa que possui uma série de opções, como Nu Investimentos, CDBs, fundos de investimento (Nu Selic Simples, Nu Reserva e Nu Seleção), Caixinhas e Caixinhas Turbo.
O Inter também conta com uma gama de produtos. "Para nossos clientes, o acesso a esses investimentos é facilitado: é possível investir em Tesouro Direto pós-fixado a partir de R$ 190,00 (alinhado ao padrão de mercado) e em Tesouro IPCA+ com aportes inferiores a R$ 30,00. Para CDBs ou outros produtos bancários do Inter, o investimento mínimo começa a partir de R$ 1,00", informa, em nota, ao jornal O DIA.
Sobre a queda da taxa Selic, a instituição enfatiza que "mesmo com a redução, as taxas ainda se mantêm em patamares elevados quando comparadas à média histórica".
Para investidores iniciantes, a XP Investimentos também disponibiliza opções como CDBs, LCIs/LCAs, Tesouro Direto, CRIs/CRAs e LCs (Letras de Câmbio).
A matéria entrou em contato com o Itaú, mas não obteve retorno até a publicação. O espaço segue aberto.