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Não tem graça! Goleada de 56 a 0 do Flamengo reflete a falta de investimento no futebol feminino

Adversário do Rubro-Negro na partida do último sábado, o Greminho FC sofre com a falta de recursos e estrutura para treinar e competir

Por Leandro Chagas*

Jogadoras do Greminho FC, reunidas após a derrota para o Flamengo
Jogadoras do Greminho FC, reunidas após a derrota para o Flamengo -
Rio - A goleada de 56 a 0 aplicada pelo Flamengo, em cima do Greminho FC, no último sábado, em jogo válido pela pela 3ª rodada do Campeonato Carioca Feminino, virou um dos assuntos mais comentados na Internet no último final de semana. Em meio aos que faziam piada pela a elasticidade do placar, o maior na história da competição, surgiram também diversas mensagens de apoio de quem demonstra empatia com um cenário já antigo: a falta de investimento no futebol feminino.

O resultado em campo não foi motivo de tristeza para o clube amador do bairro do Cosmos, na Zona Oeste do Rio, pelo contrário. Nathalia Lima, de apenas 15 anos, é atacante da equipe. Em suas redes sociais, ela publicou uma mensagem que acabou viralizando no Twitter. Na postagem, ela exaltou a força de vontade de suas companheiras, relatando também as dificuldades diárias de quem luta por um futuro na modalidade.

Ao Dia, a caçula da equipe relatou que o time já esperava encontrar dificuldades diante do Flamengo, que conta com uma estrutura profissional. Ela também falou sobre como foi a conversa dentro de campo, durante a partida.

"Nós já entramos sabendo que não iríamos vencer, mas que íamos dar o nosso melhor. A gente até ficou triste, mas saímos dali sabemos que demos o nosso melhor. Nossa goleira tava lesionada (se machucou logo no início do jogo). Colocamos uma pessoa inexperiente para agarrar (zagueira)… No vestiário muitas meninas ficaram tristes, falando que já tinha gente zoando, mas como somos uma família, a gente vai levantando umas às outras." 

Nathalia também explicou que o projeto no futebol feminino é algo bastante recente, e que até o confronto contra a equipe rubro-negra, elas tiveram apenas 10 dias para treinar.

"O Greminho feminino tem meses. Tudo começou com o Hamilton Silva (técnico e presidente) querendo fazer alguma coisa nova, querendo ajudar meninas, fazer um time feminino. E nisso começamos a treinar no campo de Cosmos, um campo de terra, não tem nenhuma estrutura. Nós levamos a nossa própria água e fazemos vaquinha. Tiramos do próprio bolso para ter um uniforme para treinar. Muitas meninas não tem caneleira, não tem chuteira, e nisso a gente vai ajudando umas as outras", confessou a atacante, explicando também que normalmente, a equipe consegue treinar apenas duas vezes na semana.
Time feminino teve apenas 10 dias de preparação antes de enfrentar o Flamengo - Reprodução/Greminho FC

Hamilton, de 33 anos, está no Greminho desde de 2009, onde também treina a divisão de base. Ele divide seu tempo entre as responsabilidades com o clube, e o trabalho de motorista autônomo. Mesmo com o pouco tempo de preparação, ele falou que enxerga o campeonato como uma oportunidade.

"Montamos uma equipe em menos de 20 dias e só tivemos 3 treinos juntos. Tudo foi muito rápido, mas em nenhum momento nossa preocupação foram os resultados. Vimos como oportunidades para elas. Jogar contra o Flamengo marcou um dia histórico em nossas vidas, muitos viram como vergonha, mas nós vimos como um sonho realizado. Estamos satisfeitos pois o projeto teve início e isso era nossa prioridade", explicou.

Ao ser questionado sobre o orçamento disponível para continuidade do projeto, Hamilton foi sincero.

"Hoje falar em recursos no Greminho é complicado, ele quase não existe. Nossa dificuldade é imensa, inclusive não sabemos se teremos jogo na quarta-feira (contra a seleção da CUFA) devido a necessidade de ter um médico presente para que o jogo seja realizado. Não temos condições de pagar um profissional pela dificuldade financeira que existe. Na maioria das vezes preciso pegar e tirar do próprio bolso, sendo que nem sempre posso. Hoje tanto no feminino quanto no masculino, temos dificuldade imensa para ir nos jogos, para ter uniforme e outras coisas", confessou.
Equipe feminina treina junto com as categoria de base do masculino - Reprodução/Greminho FC

Após a repercussão do partida, o clube que carrega em seu nome uma homenagem ao Grêmio, aproveitou para lançar uma vaquinha virtual, para tentar arrecadar fundos. No entanto, o presidente confessou que ainda não teve nenhum interessado em apoiar o projeto.

"Até agora recebi muitos contatos de repórteres somente. Empresas em si, até agora não. Nossa expectativa é que alguém olhe por nós e que possamos receber ajuda. Somos fãs do Grêmio. Quem sabe eles não conheçam nosso projeto e não queiram nos ajudar com material ou algo do tipo. Temos sonhos e isso é que mantém nossas esperanças."

Com a repercussão do placar, a FERJ recebeu diversas críticas sobre o formato do campeonato, que conta com 30 equipes. Andressa Alves, jogadora da Roma, da Itália, e da seleção brasileira, foi uma das que criticou a Federação. Ela apontou que este tipo de resultado, só fortalece uma ideia equivocada sobre o nível competitivo do futebol feminino, atrapalhando o desenvolvimento da modalidade, sugerindo inclusive que a competição fosse dividida entre séries A e B.

"Vocês deveriam organizar séria A e B, visando os times com menos estrutura se organizarem e levantarem condições para disputar um campeonato digno e mais equilibrado", publicou a atleta em seu Instagram.
Através de uma nota oficial, a FERJ se posicionou diante das críticas, alegando que a organização do campeonato visa o incentivo da modalidade, sugerindo que nesse momento "a visibilidade está à frente como fonte de geração de talentos", e que "o aspecto técnico vem em segundo estágio, no momento."

Hamilton não criticou a Federação, reforçando que apesar das diferenças entre os clubes, o Campeonato Carioca é ainda uma grande oportunidade.

"Em nenhum momento culpo a FERJ pela competição. Desde o momento do convite sabíamos que o nível técnico entre um clube amador e um profissional é absurdamente muito diferente. Assim que chegamos no campo, fiquei com vergonha de descer com uniforme num saco de lixo, enquanto via as meninas do Flamengo todas uniformizadas. Com sucos, gatorades, frutas. Mas nada disso nos abalou, foi como disse antes, tudo isso foi visto como oportunidades para elas", finalizou Hamilton.

Galeria de Fotos

Mesmo após a histórica goleada por 56 a 0, as equipes do Flamengo e do Greminho mostraram espírito esportivo e se reuniram para uma foto Reprodução/Greminho FC
Equipe feminina do Greminho FC reunida após o treinamento Reprodução/Greminho FC
Time foi formado em menos de 20 dias, tendo apenas 3 treinos antes de enfrentar o Flamengo Reprodução/Greminho FC
Meninas do Greminho trabalham em campo ruim: poucos treinos Reprodução/Greminho FC
Os treinos do Greminho FC são realizado em um campo de terra do bairro de Cosmos Reprodução/Greminho FC
Equipe feminina treina junto com as categoria de base do masculino Reprodução/Greminho FC
Treino do Greminho FC Reprodução/Greminho FC
Bandeirão do Greminho FC Reprodução/Greminho FC
Jogadoras do Greminho FC, reunidas após a derrota para o Flamengo Reprodução/Internet
Estagiário sob supervisão de Lucas Felbinger*
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