Entrevista com o Senador Romário, nesta quarta-feira (10).Érica Martin/Agência O Dia
O ex-jogador, protagonista do tetra em 1994, sabe bem do que uma Seleção precisa para ser campeã mundial e não vê o Brasil pronto para levantar a taça no ano que vem. Questionado se está confiante para a Copa, foi direto e reto: “Não”. Além disso, se a seleção brasileira ainda quer sonhar com o hexa em 2026, para Romário, a esperança está em um nome: Neymar.
Romário: Não. É claro que como brasileiro a gente tem que ter sempre muita esperança. Mas a situação é bem complexa, bem, bem difícil. Pelo futebol apresentado no último jogo (derrota para a Bolívia), por exemplo, a gente poderia dizer, com certeza, que a seleção brasileira não iria ganhar a Copa do Mundo, porém, vamos relevar algumas coisas. Realmente, não era o time ideal, no entendimento do treinador (Ancelotti). Aquele grupo nunca tinha jogado junto, e uma das coisas que pega muito é a altitude. Também tive a oportunidade de jogar, e depende de cada organismo, mas a gente sente muito, realmente. Mas o Brasil, para pensar em, primeiro, fazer um bom papel na Copa do Mundo e para ser campeão, tem que ter o Neymar em forma, senão, não vai.
Neymar ainda é o cara para a seleção brasileira?
Eu tenho certeza que a gente ainda depende muito do Neymar. Hoje em dia, nós temos grandes jogadores que vestem a camisa da Seleção: Vinicius Júnior, Raphinha, Marquinhos, Alisson, Estêvão, João Pedro... enfim. Podemos falar de outros jogadores também, mas nenhum é totalmente completo igual ao Neymar para o Brasil ser campeão.
Acha que o Neymar, mesmo não estando 100% fisicamente, ainda é um cara importante para estar no grupo com os jogadores?
Não. O Neymar é um cara que é importante para o grupo se estiver dentro do campo, jogando. Fora, não é importante para p... nenhuma. Nem ele e nem outros que passaram pelo futebol. Eu, por exemplo, não tinha importância para p... nenhuma no clube se eu não estivesse bem jogando e fazendo gol. Então é o seguinte, a seleção brasileira depende do Neymar dentro de campo para fazer gol, mais nada. Se ele não está bem fisicamente, não estou dizendo que sim ou que não, é o que eu ouvi do próprio treinador e de algumas pessoas. Acho que ele mesmo falou que ainda não está no auge. Então, não tem que ser convocado.
O Brasil vai para 2026 igualando a 1994 com o maior tempo sem vencer a Copa. Acredita que a Seleção está preparada para carregar essa pressão?
Não. Ninguém tem coragem, disposição e nem está preparado para assumir a responsabilidade que eu assumi. Volto a dizer: eu aprendi a falar muito por mim. Tenho esperança que o Neymar realmente possa voltar a estar em forma 100% para ajudar o Brasil, mas longe dele assumir essa responsabilidade, não tem condição.
Carlo Ancelotti: acha que o treinador pode fazer um bom trabalho no Brasil?
Acho não, tenho certeza. Assim, primeiro que eu não colocaria um treinador estrangeiro na seleção brasileira, mas a gente já passou dessa fase. Hoje é o Ancelotti, um dos maiores ganhadores que nós temos no futebol mundial. Um cara muito respeitado, que tem uma forma de trabalhar interessante. Uma coisa bem legal que ele tem é gostar realmente de brasileiro. Então, isso é muito bom, ter um técnico italiano que gosta de brasileiro. E apesar da rivalidade Brasil x Itália, que é normal, nunca chegou a ser igual Brasil x Argentina. Sinto que o italiano tem um pouco de carinho. Vai depender muito dele para que a gente possa levantar a taça. No meu entendimento, quando a gente fala de futebol hoje, daqui a menos de um ano é a Copa do Mundo. Cara, a gente tem que falar de Copa, é isso. Não adianta falar que vai ganhar um jogo, vai ganhar outro, isso e aquilo, porque é conversa fiada, na minha opinião. Acredito que ele tenha condição de montar uma equipe para ser campeã do mundo com o Neymar, senão, nem o Ancelotti vai dar jeito.
Acabaram as Eliminatórias e o Brasil só vai disputar amistosos. Isso ajuda o Ancelotti a fazer testes ou falta competitividade nos jogos?
Eu entendo que os amistosos para a Copa do Mundo são bem interessantes. Principalmente esses que vão fazer ainda em 2025. Mas, ano que vem, na primeira convocação até a Copa do Mundo, ele tem que determinar, no mínimo, 90% do grupo que vai para o Mundial. Claro que pode ter jogador que em dois meses antes da Copa esteja arrebentando. “Ah, mas não foi convocado”. F..., chama, dá uma chance para o cara, entendeu?
É o seguinte: até um mês, dois meses atrás, eu achava que o Pedro poderia ser o camisa 9. Mas já entendi que o Pedro não está preparado para isso. Ele não é o jogador que vai ser o camisa 9 do Brasil. Se a Copa do Mundo fosse começar amanhã, estando todo mundo em forma e 100%, meu ataque seria Raphinha, Luiz Henrique e Neymar.
Dos atacantes que foram convocados agora, João Pedro, Richarlison e Kaio Jorge, quem está melhor?
No momento, o melhor é o Kaio Jorge, ele tem que continuar sendo observado e recebendo oportunidades, já que é um jovem jogador. O João Pedro, p..., grande jogador. O Richarlison, o Pombo, também é um jogador que a gente tem que respeitar.
Um centroavante, camisa 9, é a posição que o Brasil mais sofre de talento?
Muito. O Ronaldo (Fenômeno) foi o último grande camisa 9 que nós tivemos. Claro que acima da média não vai aparecer outro como ele. Surgiram outros que eu respeito muito. Fred, Hulk e o próprio Adriano (Imperador) são jogadores que, por exemplo, estariam na nossa seleção ainda hoje. O Luís Fabiano também. Mas assim, não tem como comparar com o Ronaldo. É muito difícil.
Da última convocação, teve algum jogador que se saiu melhor?
No Maracanã (contra o Chile), o Luiz Henrique jogou muito bem, fez a diferença. Deveria e foi titular contra a Bolívia. Infelizmente na Seleção, por todos os motivos que falei, a gente não pode pontuar, vamos dizer assim, a atuação do Brasil e dos jogadores individualmente. Deu para ver que o Luiz Henrique estava querendo jogar e mostrar, deu dois passos pro gol, foi convocado. Futebol é assim, têm que jogar os melhores. Às vezes, você vem jogando três anos na Seleção. Aí em seis meses, antes da Copa do Mundo, teu rendimento começa a cair. Não tem como esse cara ir para a Copa. “Ah, mas ele tem um histórico positivo, é legal”. F..., tem que botar aqueles caras que estão jogando, porque a Copa do Mundo é logo ali. Não dá para esperar o cara se reerguer durante quatro, cinco, seis meses. O cara fez um período bom, foi convocado, caiu, bota outro.
Em 1994, muitos desconfiavam daquela Seleção. O ambiente, hoje, justamente por ter esse tempo sem ganhar uma Copa do Mundo, é parecido com aquele cenário?
Meio, em termos. A gente está falando de 24 anos atrás, que não tinha o que nós temos hoje, a globalização, internet, essa loucura de que tudo que se faz se descobre, tudo que se fala é interpretado de outra maneira. Na minha opinião, existe uma pressão até muito maior para esse grupo de hoje por todos esses fatores. Mas o que acontece é que mesmo com tudo isso, em 94 ainda existia, por parte do torcedor brasileiro, aquela paixão. Uma vontade de ver a Seleção e torcer para os jogadores. Hoje, na moral, não tem. Vou te dar um exemplo. No jogo contra a Bolívia, eu estava jogando futevôlei de tarde e falei para a galera. "Pô, cara, vamos acabar para ver o jogo". Responderam, “Que jogo?” Tinha uns caras de 19 anos, outros até mais velhos, e nem sabiam que tinha jogo. No momento, existe um desinteresse muito grande pela seleção brasileira, e quem tem que resgatar isso são os jogadores. Eles têm até o ano que vem para resgatar isso. Vamos imaginar que eles vão para a Copa com esse descrédito e reação negativa, que foi mais ou menos foi o que aconteceu em 94. Têm que superar isso dentro de campo, foi o que a gente fez.
Você sentiu essa relação fria com a Seleção no Maracanã, no jogo contra o Chile?
Sim. Essa relação do torcedor com a seleção brasileira já tem uns dez anos. E pelo que eu estou sentindo, a frieza aumenta cada vez mais, somada à desconfiança e falta de alegria. Cara, está na hora desses caras sacudirem a poeira e levantarem.
Seu jogo contra o Uruguai pelas Eliminatórias, no Maracanã, em setembro de 1993, foi um dos jogos mais marcantes na sua carreira?
Com certeza. O jogo mais marcante da minha carreira e o mais completo como jogador de futebol que fiz na minha vida. E o mais interessante, não sou eu só que falo isso. A cada dez pessoas que converso sobre aquele jogo e conhecem futebol, principalmente jogadores, afirmam: “Talvez seja a melhor performance de um jogador em um jogo”. Se a gente empatasse aquele jogo ali, ia disputar uma repescagem, se não me engano era contra a Nova Zelândia ou a Austrália. Então, olha o tamanho da importância. A gente massacrou o Uruguai. Foram dois gols, mas poderíamos ter feito mais cinco. Nem sei se os caras chegaram a chutar alguma vez no gol, porque não lembro. Minha atuação foi diferenciada.
Na Copa de 1994, teve algum jogo especial que você pensou que seriam campeões?
Tive certeza que o Brasil ia ser campeão depois do jogo contra os Estados Unidos, no 4 de julho. O estádio estava lotado, 70%, 60% dos torcedores estavam com a camisa dos EUA. Em determinado momento, nós tivemos um jogador expulso, o Leonardo, e aí foi aquela pressão do c.... Se tivesse mais três dias de jogo, a bola não ia entrar, porque eu, com 28 anos, já entendia que tem dia que a bola quer entrar, outros não. Eu fiz tudo o que tinha que fazer e precisava dar a bola para alguém. Dei aquele passe para o Bebeto, ele fez o gol e comecei a entender realmente que o Brasil seria campeão. Pelas dificuldades que surgiram e por temos atropelado cada uma delas.
Qual a importância de profissionalizar a nossa arbitragem?
Hoje, o árbitro é tratado como prestador de serviço, sem férias, 13º ou previdência. A profissionalização corrige essa injustiça, já que representa segurança jurídica para árbitros, clubes e federações. Valorizar o árbitro é valorizar o futebol brasileiro, porque vai fortalecer a integridade do jogo. Acredito que assegurar estabilidade e condições de trabalho permite arbitragens mais consistentes.
Como a profissionalização pode melhorar a qualidade das arbitragens?
Com a profissionalização, podemos garantir dedicação exclusiva aos árbitros. Isso abre portas para a criação de programas de capacitação e avaliação permanentes, o que é difícil de fazer sem um vínculo formal. Além disso, também reduz riscos de manipulação e aumenta a confiança no resultado dos jogos.
A Lei de Incentivo ao Esporte (Lei nº 11.438/06), que já existia, tornou-se permanente e teve o percentual de dedução ampliado por um Projeto de Lei Complementar 234/2024, aprovado na Câmara e no Senado em 2025. A Lei permite que pessoas físicas e jurídicas contribuam financeiramente com iniciativas desportivas, podendo abater até 7% do Imposto de Renda para distribuir recursos em diferentes modalidades do esporte, de modo que a prática seja acessível e igualitária.
Qual é a principal importância de tornar a Lei de Incentivo ao Esporte permanente?
Tornar a Lei permanente dá previsibilidade para atletas, clubes e Organizações Não Governamentais (ONGs) e patrocinadores planejarem a longo prazo. Isso significa mais estabilidade para projetos sociais, infraestrutura esportiva e formação de atletas.
Como a Lei pode transformar a vida de jovens em situação de vulnerabilidade por meio do esporte?
A maior parte dos recursos vai para educação e lazer, oferecendo o esporte como alternativa. Além de melhorar o desempenho escolar, oferecer disciplina e saúde, afasta os jovens da violência e cria oportunidades de bolsas.
De que forma a Lei incentiva o esporte paralímpico?
O Brasil é uma potência paralímpica, mas ainda enfrenta falta de estrutura, equipamento e visibilidade. A Lei pode ampliar o financiamento para clubes e atletas paralímpicos, garantindo condições de treino e estabilidade.
Já o Projeto de Lei 229/2022, de autoria do Romário, garante licença-maternidade de 120 dias às atletas, inclusive em casos de adoção e guarda judicial, sem prejuízo do emprego ou do salário, e foi aprovado em decisão terminativa na Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania (CCJC).
Qual a importância do projeto na estabilidade das atletas?
Muitas atletas perdem contrato e ficam sem remuneração ao engravidar. O projeto oferece estabilidade no emprego, protege a saúde da mãe e do bebê. Aprovado em caráter conclusivo, vai voltar para o Senado só para ajustes de redação. Em seguida, segue para sanção presidencial.
* com a colaboração da estagiária Beatriz Dias






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