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Arábia Saudita restringe compra de frango brasileiro; decisão pode ter viés político

Na prática, a medida afeta diretamente 5 frigoríficos entre os 30 que efetivamente vinham fazendo embarques para clientes sauditas, segundo a Associação Brasileira de Proteína Animal

Por O Dia

Em nota, a ABPA afirmou que o embargo foi causado por "critérios técnicos" e que "planos de ação corretiva estão em implementação para a retomada das autorizações"
Em nota, a ABPA afirmou que o embargo foi causado por "critérios técnicos" e que "planos de ação corretiva estão em implementação para a retomada das autorizações" -

São Paulo, Brasília e Davos- A Arábia Saudita - maior comprador de frango do Brasil - reduziu de 58 para 25 o total de frigoríficos habilitados para exportar o produto para o país. Na prática, a medida afeta diretamente 5 frigoríficos entre os 30 que efetivamente vinham fazendo embarques para clientes sauditas, segundo a Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA).

Em nota, o Ministério da Agricultura afirmou que tomou conhecimento na segunda-feira de que 25 unidades brasileiras foram autorizadas a exportar para a Arábia Saudita depois que uma missão visitou, em outubro de 2018, frigoríficos, fazendas e fábricas de ração.

O órgão não comentou o embargo às outras cinco unidades que já vendiam ao país. Segundo o ministério, os 25 habilitados responderam no ano passado por 63% do volume das exportações brasileiras de carne de frango, ou 437 mil toneladas, para a Arábia Saudita. Em 2018, o Brasil enviou para a Arábia Saudita 486,4 mil toneladas de carne de frango, o equivalente a 12% do total embarcado. O país é o maior exportador de frango halal do mundo (tanto a produção quanto o abate seguem os princípios do Islã).

Em nota, a ABPA afirmou que o embargo foi causado por "critérios técnicos" e que "planos de ação corretiva estão em implementação para a retomada das autorizações".

Disputa política

No entanto, Amr Moussa, secretário-geral da Liga Árabe até 2011 e hoje um dos diplomatas do Oriente Médio de maior influência na região afirmou ao Estado que a decisão seria uma retaliação à ideia estudada pelo governo Jair Bolsonaro de mudar a embaixada brasileira em Israel de Tel-Aviv para Jerusalém.

"O mundo árabe está enfurecido (com o Brasil)", disse Moussa, que participa do Fórum Econômico, em Davos. "Muitos de nós não entendemos o motivo pelo qual o novo presidente do Brasil trata o mundo árabe desta forma. Acredito que tais medidas vão continuar. A única forma de evitar é o Brasil desistir dessa ideia. Jerusalém é capital de dois Estados, não de um."

Para o ministro do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), general Augusto Heleno, não dá para saber se decisão dos sauditas teve "viés ideológico".

Fonte da equipe econômica afirmou que todas as informações oficiais descartam o viés político da restrição. Segundo essa fonte, técnicos do Ministério da Agricultura ainda estão avaliando o teor da decisão para traçar a estratégia do governo. Uma das possibilidades é enviar uma missão ao país para esclarecer o problema.

Para Welber Barral, ex-secretário de Comércio Exterior e especialista na área, a medida pode ser um sinal de descontentamento do país árabe. "O fato de eles terem descredenciado empresas que não estavam exportando parece um sinal de má vontade. A Arábia Saudita é um dos países mais engajados na questão religiosa."

Segundo Barral, a imposição de barreiras sanitárias pode ser mais problemática do que a cobrança de tarifas aos produtos brasileiros. Ele lembra que cabe ao país exportador provar que cumpre regras sanitárias, o que toma tempo. "Abrir o mercado da Arábia Saudita deu muito trabalho, foram anos de negociações. É o principal mercado da região e suas ações podem ser seguidas por países menores", disse. Embaixadores palestinos explicaram que a restrição é um sinal de que os demais governos árabes estão dispostos a reduzir compras de carnes e outros produtos brasileiros caso a mudança da embaixada prometida por Bolsonaro siga adiante.

A embaixada da Arábia Saudita no Brasil não se posicionou. O Itamaraty disse que monitora o impacto da decisão e auxilia exportadores no contato com autoridades sauditas. 

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