Entenda o porquê da corrida por papel higiênico nos supermercados

Comportamentos atuais se assemelham àqueles observados durante pandemias anteriores, como a gripe espanhola de 1918

Por AFP

Papel higiênico
Papel higiênico -
Rio - A cena se repete ao redor do mundo: dos Estados Unidos até a Austrália, passando pela França e Espanha, consumidores esvaziam as prateleiras dos supermercados comprando papel higiênico em meio ao pânico causado pelo novo coronavírus.

O frenesi pelos rolos de papel ultrapassa as barreiras culturais e já levou a brigas violentas, que filmadas se transformaram em vídeos famosos nas redes sociais. Mas... por que?

Para alguns especialistas a explicação está na teoria dos jogos: se cada um compra apenas o que necessita, não há escassez. Mas se algumas pessoas começam a comprar incentivadas pelo pânico, a melhor estratégia é fazer o mesmo para assegurar que não vai nos faltar.

Mas essa teoria não explica tudo. O papel higiênico não protege do Covid-19 e as compras em grandes quantidades não foram as mesmas com outros produtos importantes, como comida enlatada.

"Acredito que isso vem provavelmente das dramáticas imagens divulgadas nas redes sociais, que são muito claras: as embalagens são muito reconhecíveis e nas mentes das pessoas se transformaram em um símbolo de segurança", disse em entrevista à AFP Steven Taylor, autor de "A psicologia das pandemias".

"A pessoa sente a necessidade de algo que mantenha a eles próprios e à sua família a salvo, porque o que mais podem fazer além de lavar as mãos e se isolarem?", diz esse professor de psiquiatria da Universidade de British Columbia.

Ele também evoca outra teoria da evolução: a aversão às coisas de que não gostamos, exacerbada pela ameaçada infecção.

"Acredito que essa é uma das razões pela qual as pessoas têm escolhido o papel higiênico, porque é uma forma de evitar coisas desagradáveis.", disse Taylor.

Sensação de controle
Os economistas também já apontaram a teoria do "viés de risco zero", que leva a pessoa a eliminar totalmente um risco pequeno e mais superficial em vez de fazer algo mais substancial para reduzir um risco maior.

"Queremos sentir que temos o controle, com recursos limitados", explicou Farasat Bokhari, especializado em economia da saúde pela universidade britânica de East Anglia.

"Então compramos algo barato, que podemos armazenar e que no fundo sabemos que vamos utilizar de qualquer maneira", diz.

Segundo Bokhari, também poderiam ser armazenados produtos não perecíveis - como comidas congeladas, enlatados ou sopa instantânea - mesmo que esses não sejam os pratos favoritos da família, além do fato de que o custo é maior, existe o medo de que se a situação melhorar, terminem eventualmente no lixo.

Taylor lembra que os comportamentos atuais se assemelham àqueles observados durante pandemias anteriores, como a gripe espanhola de 1918, que deixou quase 700.000 mortos nos Estados Unidos e atingiu as farmácias e lojas quando os cidadãos em estado de pânico compraram e estocaram o que puderam.

Naquela época, uma teoria conspiratória sugeria que o vírus era uma arma biológica alemã. Hoje se diz que o novo coronavírus foi uma arma chinesa ou americana, dependendo de quem faça a acusação.

Diferente da pandemia de A(H1N1) em 2009, o novo coronavírus se espalha também nas redes sociais, o que para Taylor tem aspectos positivos e negativos.

"Isso tem permitido a grande divulgação de imagens e vídeos dramáticos ao redor do mundo, agravando o sentimento de ameaça e urgência", diz.

Por outro lado, "as redes sociais podem ser uma boa fonte de apoio, especialmente em caso de quarentena voluntária".

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