De acordo com a agência de notícias Belta, o próprio ditador ordenou pessoalmente que um caça escoltasse o voo comercial até o aeroporto.
De acordo com a agência de notícias Belta, o próprio ditador ordenou pessoalmente que um caça escoltasse o voo comercial até o aeroporto.AFP
Por iG
A ditadura belarussa realizou uma manobra cinematográfica para desviar um avião neste domingo (23). A aeronave, da empresa Ryanair, ia da Grécia para a Lituânia e teve que parar no aeroporto de Minsk, capital de Belarus. Na operação, foi utilizada uma suspeita falsa de explosivo a bordo e o avião foi escoltado por um caça.

De acordo com opositores ao governo, a manobra foi feita para prender o jornalista Roman Protasevich, de 26 anos, um dos críticos ao ditador Alexander Lukashenko, que teria ordenado o desvio.

Jornalistas afirmam que Protasevich foi preso em Minsk. A informação chegou a ser confirmada pelo próprio Ministério do Interior belarusso em um canal oficial, mas a publicação foi deletada.

De acordo com a agência de notícias Belta, o próprio ditador ordenou pessoalmente que um caça escoltasse o voo comercial até o aeroporto. "O presidente deu uma ordem inequívoca para fazer o avião dar meia-volta e pousar", afirma a agência.

A Ryanair afirmou, em nota à imprensa, que sua tripulação foi avisada pelo controle de tráfego aéreo da Belarus de uma "ameaça potencial à segurança a bordo" e, por isso, desviou o voo e pousou em Minsk. Após pousar, o avião passou por vistoria, na qual nada suspeito foi encontrado, e levantou voo novamente após cinco horas.

De acordo com a imprensa internacional, passageiros relataram que o jornalista foi levado para fora do avião e teve seus pertences jogados na pista. Relatos dizem, ainda, que Protasevich ficou em pânico quando percebeu que seria detido e afirmou que enfrentaria pena de morte.
Amigos do jornalista relataram que, na manhã deste domingo, ele havia enviado mensagens dizendo que um estranho tentou fotografar seus documentos na fila de embarque para o voo. De acordo com testemunhas, quando o avião entrou no espaço aéreo belarusso, agentes da polícia secreta KGB pressionaram o desvio da rota.
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Segundo a mídia belarussa, Protasevich é acusado de liderar desordem em massa, perturbação da ordem social e incitação ao ódio. Os supostos crimes podem levar a penas de até 15 anos de prisão.

Líderes repudiam ação
O jornalista é cofundador de um dos principais veículos de imprensa do país, o Nexta. O canal informativo foi banido pela ditadura em outubro passado, e alguns de seus membros entraram para uma lista de terroristas da KGB. Depois de sofrer ameaças, Protasevich saiu de Belarus e vivia na Lituânia.
Alemanha e França condenaram o desvio do voo. O primeiro-ministro da Polônia, Mateusz Morawiecki, disse que esse foi um "ato de terrorismo de Estado sem precedentes". Já Charles Michel, presidente do Conselho Europeu, que reúne 27 líderes, disse que "o incidente não ficará sem consequências".

"Apelo às autoridades da Belarus que libertem imediatamente o passageiro detido e garantam plenamente os seus direitos", declarou. Ursula von der Leyen, presidente da Comissão Europeia, considerou o desvio "inaceitável" e disse que "qualquer violação das regras de transporte aéreo internacional deve ter consequências".
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"A aterrissagem forçada de um avião comercial para deter um jornalista é um ato chocante e sem precedentes", declarou Kyriakos Mitsotakis, primeiro-ministro da Grécia.

O Comitê de Proteção aos Jornalistas afirmou estar chocado com a ação, "embora o governo de Alexander Lukashenko venha estrangulando cada vez mais a imprensa na Belarus, detendo, multando e expulsando jornalistas e os condenando a penas de prisão cada vez mais longas".