Migrantes, incluindo famílias com crianças, enfrentaram perigos como a travessia de Darién, entre Panamá e ColômbiaPedro MATTEY / AFP
Centenas de migrantes, muitos deles crianças, estão embarcando nos últimos dias em Cartí, na região indígena de Guna Yala, Panamá. Eles seguem para o sul, em uma travessia de cerca de 12 horas até o porto colombiano de Necocli, onde continuam por terra, a maior parte até a Venezuela.
Os migrantes buscam fugir dos controles terrestres que tentam ordenar o fluxo migratório inverso, principalmente a travessia de Darién, que muitos fizeram meses antes, quando se dirigiam para o norte. Na última sexta-feira, uma criança venezuelana morreu no naufrágio de um desses botes, que transportava cerca de 20 migrantes.
Desde que chegou à Casa Branca, Trump aplica uma política dura contra os imigrantes, que inclui a expulsão de pessoas em situação irregular. "Isso já morreu, não existe mais sonho americano. Esperei nove meses por um agendamento para solicitar asilo, e você cansa. Já não há esperança, nada", disse à AFP Palacios, 27, que retornava do México com o marido e o filho de 11 anos.
'Pior coisa da minha vida'
Quando Astrid Zapata chegou do México com o marido, a filha de 4 anos e um primo a um abrigo não governamental na capital da Costa Rica, a primeira coisa que fez foi pendurar a bandeira da Venezuela no cubículo onde a família dormiria. "Tenho medo. Neste retorno, é muito duro entrar de novo na selva. Uma mãe perdeu dois filhos ali, eu os vi afogados no rio", contou à AFP.
Para essas mulheres e suas famílias - parte do êxodo de 8 milhões de venezuelanos da última década - ficar no México não era uma opção: grupos criminosos as sequestraram e exigiram resgate, o que também as levou a retornar.
Começar do zero
A família atravessou o Darién, mas o marido de María foi deportado do Panamá. Ela seguiu viagem com os demais. Queria chegar aos Estados Unidos para se encontrar com outros dois filhos que vivem naquele país, mas não conseguiu, e hoje tenta conseguir um emprego na Costa Rica.
Embora os governos da América Central digam que se esforçam para organizar a migração inversa, o caos impera. Panamá e Costa Rica retêm os migrantes em abrigos localizados em áreas remotas da fronteira.
"Prometeram voos humanitários e nada. Mentira pura", reclama Palacios. "Voltamos para o nosso país com os sonhos desfeitos."

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