Venezuelanos comemoram a prisão de Nicolás MaduroGiorgio Vieira / AFP

"Quando soube da prisão, eu chorei. Senti uma mistura de alívio e satisfação. Foi uma verdadeira descarga de alegria, porque, apesar do momento delicado para o país, aconteceu aquilo que esperávamos há muitos anos", contou o venezuelano Saul Pineda, de 34 anos, que deixou o país sul-americano em 2017, em meio à crise econômica e política durante o governo de Nicolás Maduro.
O presidente venezuelano foi preso junto com sua mulher, Cilia Flores, durante os ataques dos Estados Unidos contra a capital Caracas e outras regiões do país, no último sábado (3). Após a ação, membros das forças armadas norte-americanas levaram o casal para o estado de Nova York. Maduro está preso no Centro de Detenção Metropolitano do Brooklyn.
Morando no bairro de Copacabana, na Zona Sul, Pineda disse que recebeu a notícia ainda enquanto dormia em casa. Ao acordar, viu uma série de mensagens de amigos e familiares. Em um primeiro momento, no entanto, pensou se tratar de uma brincadeira, só acreditando após acompanhar o noticiário.
Saul relembrou momentos de repressão e violência na Venezuela - Arquivo Pessoal
Saul relembrou momentos de repressão e violência na VenezuelaArquivo Pessoal
Ele relatou que deixou a Venezuela após anos convivendo com manifestações frequentes e com a falta de produtos básicos no dia a dia.
"Foi uma decisão muito difícil. Largar a família, amigos, o trabalho, literalmente tudo. Havia muitos protestos, você praticamente não conseguia sair de casa sem encontrar um na rua. Faltava energia, água e comida. Não tinha nem papel higiênico, carne ou leite. Nos supermercados, as filas duravam até dois dias e, mesmo assim, às vezes você não conseguia comprar. Quando dava, era tudo racionado. Eu vi que a situação do país só piorava e tive medo do meu futuro, de não conseguir nem sair depois. Então me organizei e fui embora”, disse.
Saul foi primeiro para o Chile. Em 2018, veio para o Brasil, após iniciar um namoro à distância e, posteriormente, se casar. No Rio de Janeiro, construiu sua vida profissional, atuando como dentista e também como professor de beach tennis. Ele relembra que na infância, antes do governo de Nicolás Maduro, a Venezuela vivia um período de maior estabilidade e segurança. Com o passar dos anos, o cenário mudou de forma drástica.
"Quando entrei na faculdade, a situação na Venezuela já estava muito crítica. Era repressão, muita violência, você não podia sair para a rua. A maioria dos meus amigos, em algum momento, foi sequestrada. Qualquer pessoa podia ser sequestrada para se roubar até mesmo pequenas quantias de dinheiro ou pertences. Estava impossível viver ali", lembra.
Ele afirma que, além da insegurança, as condições para trabalhar se deterioraram. Segundo Pineda, a falta de energia elétrica e de água, com racionamento diário que chegava a oito horas, inviabilizava o exercício da profissão. O cenário agravou o medo e a incerteza em relação ao futuro, o levando a decidir pela imigração.
Para Pineda, apesar das incertezas sobre o futuro político do país, a prisão de Maduro simboliza o fim de um período marcado por medo, repressão e instabilidade.
"A saída do Maduro representa o encerramento de um capítulo terrível da história do meu país. Eu sei que isso vai ter consequências e que não vai ser simples, mas é como se tivesse acabado uma época muito ruim. Talvez demore para a Venezuela voltar a ser o país que conheci na infância, mas o sentimento é de liberdade. Era algo que as pessoas esperavam havia muito tempo. Eu prefiro olhar pelo lado positivo e acredito que esse seja o sentimento da maioria dos venezuelanos: de alívio, de finalmente conseguir", concluiu.
Após a prisão de Maduro, o Supremo Tribunal de Justiça da Venezuela declarou que a vice-presidente Delcy Rodríguez deve assumir o comando do país de forma interina, enquanto o cenário político segue indefinido. A decisão foi anunciada em meio à pressão interna e externa por uma reorganização institucional.
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou que a permanência de um governo interino dependerá do cumprimento de regras políticas e institucionais. Ele também declarou que Washington pretende ter influência direta sobre decisões estratégicas da Venezuela, incluindo o setor petrolífero, e advertiu que haverá consequências caso essas condições não sejam respeitadas.
No mesmo contexto, a Organização das Nações Unidas criticou a ação dos EUA no país e defendeu que o futuro político do país seja decidido pelo próprio povo. Em nota, o Alto Comissário da ONU para os Direitos Humanos, Volker Türk, destacou que disputas políticas não devem ser resolvidas pelo uso da força e ressaltou a necessidade de respeito à soberania e direito internacional da Venezuela.
*Reportagem do estagiário João Santos, sob supervisão de Marlucio Luna