Daniel GuanaesDivulgação

A pesquisa Belief in Jesus Rises, Fueled by Younger Adults (A crença em Jesus aumenta, impulsionada por adultos mais jovens), realizada pelo instituto Barna, revela: a Geração Z (nascidos entre 1997 e 2010) está no centro de uma curiosa guinada espiritual. Enquanto a Geração Y (nascidos entre 1981 e 1996, da qual faço parte) só conseguia “testemunhar” em retiros de jovens ou, no máximo, nos intervalos da escola, atualmente, nos Estados Unidos, jovens entre 13 e 17 anos são os que mais demonstram interesse em conhecer a vida e os ensinamentos de Jesus. E querem que outros também os conheçam.

Adolescentes no final dos anos 90 viviam a hesitação de confessarem-se cristãos fora das bolhas religiosas, e havia o medo de parecerem fanáticos e de seremridicularizados. Os tempos mudaram. O estudo mostra que, ao contrário dos estereótipos de uma geração desinteressada ou relativista, há um desejo explícito por sentido, verdade e transcendência.

No Brasil, esse movimento se traduz em números e hashtags. No TikTok, vídeos com a tag #cristãonotiktok já ultrapassam os 2 bilhões de visualizações. Uma nova geração de jovens evangélicos se sente autorizada, e até entusiasmada, a expressar sua fé de forma pública, criativa e, às vezes, performática. Reportagem que aborda o chamado “movimento devocional” mostra que adolescentes brasileiros têm feito de suas redes não apenas vitrines de conteúdo religioso, mas verdadeiros espaços de discipulado digital.

Essa mudança não é apenas uma reação ao secularismo, embora isso também conte. A Geração Z cresceu num mundo de sobrecarga informacional, de incertezas crônicas e conexões frágeis. Nesse cenário, a fé aparece como uma âncora, mas não individualista ou apenas interiorizada. Trata-se de uma fé que precisa ser compartilhada, comentada, remixada. Uma fé que se expressa na linguagem do tempo, com vídeos curtos, trilhas sonoras e legendas impactantes.

Essa nova forma de expressar a fé também revela outra mudança: o adolescente evangélico de hoje não está apenas reproduzindo discursos da igreja. Ele está reinterpretando, ressignificando, recriando. Em vez de repetir frases prontas, ele compartilha sua leitura bíblica no formato de “estética devocional”, com filtros, diários e edições criativas. Em vez de esconder sua espiritualidade para não parecer “crente demais”, ele a converte em conteúdo.


Claro que há riscos. A superficialidade, a estetização do sagrado e a viralização da fé podem banalizar aquilo que deveria ser vivido com profundidade. Mas é ingênuo imaginar que, por serem adolescentes, eles deveriam crer de forma madura. A maturidade é um processo, e todo processo começa com entusiasmo, experimentação e, até, certo exagero.

O que chama a atenção é que, pela primeira vez em muito tempo, o ambiente cultural não inibiu o discurso religioso juvenil. Antes, abriu espaço para ele. E, quando isso aconteceu, o que emergiu não foi silêncio, mas voz.

Os jovens cristãos de hoje não estão apenas à vontade para falar da fé ; eles acham estranho quando alguém não fala. Talvez porque, para eles, seguir Jesus não é apenas um compromisso ético ou doutrinário, mas também um conteúdo compartilhável. Isso não esvazia a fé. Apenas mostra que ela encontrou novas formas de ser dita.
Daniel Guanaes é PhD em Teologia pela Universidade de Aberdeen, pastor presbiteriano e psicólogo clínico