Tereza GontijoDivulgação

Por 17 anos tenho vivido uma das experiências mais transformadoras da minha vida: ser palhaça em hospitais públicos. Atuo como Guadalupe na Associação Doutores da Alegria, visitando crianças e adultos internados. Posso afirmar que a principal matéria-prima do palhaço não é só o riso, mas a humanidade que nos é comum. No ofício, há espaço para o humor assim como para o olhar, o canto, a escuta, a empatia, o silêncio. Às vezes, é só estar ao lado. Outras é iluminar algo que não está bem. Tudo isso pode emergir por meio da leveza, da graça e, acima de tudo, do respeito.
Quando entro no hospital, sou uma trabalhadora. Uma palhaça. Mas por baixo do nariz vermelho sou mãe, mulher, filha, esposa, amiga, humana. Alguém que se afeta. Que carrega medos, muitos ligados às dores que presencio. Ainda assim, desenvolvo ali um ofício. E quando volto para casa, sou uma alma atravessada de afetos. Esse trabalho revelou que a vida é crua. Que a balança que insiste em opor bom e ruim, bem e mal, certo e errado… serve pouco. A vivência da palhaçaria, assim como a da maternidade, me ensinou que somos seres falíveis, capazes de tropeçar e fazer poesia. De provocar riso e desencadear choro — às vezes, ao mesmo tempo.
Essa ideia de que somos uma coisa ou outra nos limita. A vida se manifesta de forma contraditória, complexa e paradoxal. Certa vez, atendi um menino aparentemente saudável que faleceu após uma tarde brincando de ser o Super-Homem. Tinha a mesma idade do meu filho. Fiquei devastada. Perguntei a uma amiga e colega palhaça, se haveria sentido naquilo que vivi. Ela me respondeu, com a sabedoria de quem já percorreu muitos corredores de hospital: “Não tem por quê. A vida é”.
As crianças nos ensinam isso. Que a vida é, apesar de tudo, e que mesmo em circunstâncias adversas, esse tempo é para se aproveitar vivendo. Não o contrário. Ele pode acabar numa segunda-feira à tarde, engasgada num espetinho de carne. E começar escorregando dentro de um carro, como o bebê que atendi, nascido no trânsito a caminho de uma consulta.
Tais experiências me ensinaram a relativizar a importância das coisas. A discernir o que vale implicar o tempo - e o que é ruído, adorno desnecessário. Se a vida pode terminar num churrasquinho de carne, penso que o que vale, mesmo, é o afeto. É o que fazemos para tornar os encontros mais verdadeiros, humanos. Nesse trabalho, aprendi a “santificar a vida ordinária”. Um café com um amigo. Uma ida à padaria. Uma conversa jogada fora. Um atendimento. A distância para que um momento qualquer se torne especial é a lente com que olhamos para ele.
O presente mora nas distrações. Anestesiados pela rotina, não percebemos a beleza da vida acontecendo e ficamos com a impressão de que não vivemos nada. Quando, na verdade, vivemos tudo.
E por que não com leveza? Com graça? Rindo das nossas fragilidades e acolhendo nossas sombras com generosidade?

Reuni parte dessas vivências no livro Do riso ao soro, lançado na Bienal do Rio de Janeiro pela Editora Urutau. Ser palhaça, sobretudo em hospital público, me fez testar a resistência da couraça com que me protegia e me deu coragem para tirá-la, deixando o coração exposto. Foram tantas as setas que me atingiram que passei a me sentir como a chapa onde o atirador lança suas facas. Os atravessamentos. Os afetos. Aquilo que nos conecta - que não se doma - e também o que nos salva.
Tereza Gontijo é atriz, musicista, diretora e palhaça da associação Doutores da Alegria