ALLAN BORGESDIVULGAÇÃO
Durante muito tempo, acreditou-se que o futuro urbano seria moldado por legislações grandiosas e diretrizes técnicas infalíveis. Mas a lentidão dos processos formais, tão sólida e previsível quanto à caminhada de um paquiderme, raramente acompanha a urgência da vida que pulsa nas ruas.
Essa transição do "onde se passa" para o "onde se vive" é o cerne do fazer-cidade. Jan Gehl ressalta que cidades projetadas para caminhar, sentar e conversar conduzem à distribuição equitativa da dignidade urbana.
É nesse intervalo entre a promessa e a prática que o urbanismo tático emerge como método e como ética. Mais do que uma técnica, é um manifesto de insurgência cidadã: a transformação rápida, criativa e coletiva de espaços degradados em lugares de alta potência estética, funcional e simbólica. Uma prática que, como ensina David Harvey, devolve à população o direito perdido de não apenas usar a cidade, mas de moldá-la segundo seus projetos de vida.
Por isso, é urgente redescobrir o lugar como campo de possibilidades, não apenas como suporte para funções. Há quem desenhe no chão da praça, quem pinte muros, quem crie jardins onde antes havia apenas entulho. Há ruas que, pouco a pouco, deixam de ser apenas rotas e passam a ser lugares de permanência. Em cada pequeno gesto, algo essencial acontece: o espaço se transforma em lugar. Um lugar com nome, afeto e história. Um lugar onde a vida é possível.
Em Barcelona, a estratégia dos Superilles (superblocos que reordenam quarteirões para reduzir o tráfego motorizado e ampliar espaços de convivência) exemplifica o impacto transformador do urbanismo tático em grande escala. Estudos municipais registraram aumento expressivo da circulação de pedestres, queda significativa dos níveis de ruído e contaminação atmosférica, além do fortalecimento de vínculos comunitários. Em alguns bairros, a emissão de poluentes caiu até 33% e o barulho do trânsito recuou em mais de 5 decibéis. A presença de crianças nas ruas cresceu visivelmente, e o comércio local ganhou fôlego.
Como lembra Gilberto Velho, a cidade é palco de projetos de vida. Ela não é neutra: acolhe uns, rejeita outros. O espaço é sempre disputado. Talvez por isso o direito à cidade, como formulado por Henri Lefebvre, ainda seja tão radical. Porque ele não se resume ao acesso à infraestrutura urbana, mas se expressa como um direito de coautoria sobre o território.
O fazer-cidade, portanto, é também o fazer-justiça. Como recorda Amartya Sen, a justiça não pode ser apenas a distribuição abstrata de bens, mas a ampliação concreta das capacidades humanas. O urbanismo tático não resolve tudo, e nem pretende, mas amplia capacidades, reabilita sentidos e dá margem à criação coletiva.
No fim, a pergunta que ecoa é simples: para quem é a cidade? Se for apenas para passar, ela se perde. Mas se for para viver, ela se encontra. Fazer-cidade é isso: devolver a cidade ao corpo e o corpo ao lugar.



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