José Carlos Lima de CamposDivulgação

O racismo e a intolerância religiosa são questões persistentes no campo da saúde, impactando diretamente a qualidade da assistência prestada aos usuários e à saúde mental dos profissionais que são sujeitos e agentes do ataque de uma sociedade racista. Enquanto enfermeiro atuante no campo da saúde mental e também um iniciado no candomblé, venho enfrentando questões relacionadas ao racismo e a intolerância religiosa há muitos anos que vão desde a invisibilidade dos usuários de religiões de matriz africana até o silenciamento dos profissionais que também sofrem pelo silêncio do pertencimento.

Quanto aos usuários a quem atendemos, devemos estar sempre atentos às diversidades étnicas e religiosas, garantindo um atendimento equitativo e livre de preconceitos. Ações que parecem simples, mas que ainda são negadas ou não valorizadas, estão presentes no cotidiano dos espaços de cuidado no campo da saúde em geral e aqui destaco o campo da saúde mental. Trago para esta discussão duas delas: uma referente ao cadastro de admissão, parte do prontuário do usuário, que deve conter a opção religiosa do usuário, podendo estar ali já afirmada sua pertença religiosa; e a outra relacionada à garantia de acesso ao corpo do usuário pela família consanguínea ou religiosa para realizar um ebó ou qualquer outra estratégia de cuidado religioso durante o período de internação, o que geralmente é negado pelo simples e superficial argumento de que o que compõe o ebó pode trazer infecção hospitalar. Essa negativa caracteriza intolerância religiosa. O cuidado na religião de matriz africana sempre passa pelo corpo.

Ainda com relação aos usuários, a garantia de acesso ao corpo do iniciado em religiões de matriz africana, após sua morte, é essencial para a realização de nossos rituais fúnebres. Esse é um direito ainda não reconhecido quando o óbito ocorre no ambiente hospitalar.

Em se tratando dos profissionais da saúde pertencentes a religiões de matriz africana, poderíamos destacar vários episódios que configuram intolerância religiosa, porém, para esta rápida discussão, trago apenas o cuidado que devemos ter com os profissionais de saúde que passam pelos ritos iniciáticos da religião. Muitos enfrentam limitações significativas em seus primeiros encontros com o mundo do trabalho após retornarem do período de iniciação. Particularmente, vivi muitas situações, enquanto gestor da equipe de enfermagem no campo da saúde mental, em que nosso povo de terreiro escondia estar em seu momento de renascer para o Orixá por medo ou vergonha, fruto do racismo estrutural e da intolerância religiosa. Entender a necessidade do uso de roupas especiais, de nossos fios de contas ou de qualquer outro signo, é respeitar o nosso sagrado.

A educação permanente e continuada dos profissionais da saúde, a conscientização e a formação de políticas públicas assistenciais são passos essenciais para combater essas desigualdades e promover um ambiente de saúde mais justo e acolhedor, tanto para o usuário quanto para o trabalhador. Não é possível mais tolerar o ataque ao que nos é estrutural. A garantia de direitos passa por nós profissionais da saúde e pelos usuários a quem atendemos. O direito está para nossa gente do terreiro.
José Carlos Lima de Campos  é doutorando no programa de pós-graduação em Psicossociologia de Comunidades e Ecologia Social da UFRJ e diretor administrativo do Instituto de Psiquiatria da UFRJ