Marcio FerreiraDivulgação
O Brasil já figurou como protagonista. Desde o fim do século XIX, com a exploração da monazita nas praias da Bahia, tornou-se referência mundial. Nos anos 1940 e 1950, empresas como a Orquima dominavam o processo de separação e purificação, fornecendo óxidos de alta pureza inclusive para o submarino nuclear americano Nautilus. O avanço, contudo, foi desmontado. A estatização e a descontinuidade industrial culminaram em 2002, quando a produção foi desativada, e o país perdeu know-how acumulado.
Hoje, com reservas estimadas em 5 milhões de toneladas em regiões como Pitinga (AM), Catalão (GO) e Morro do Ferro (MG), o Brasil exporta monazita bruta por valores irrisórios. Em alguns casos, lotes foram vendidos à China por menos de 600 dólares a tonelada, enquanto os óxidos purificados podem alcançar cifras múltiplas no mercado global.
Os EUA, dependentes em mais de 90% da produção chinesa, veem no Brasil uma alternativa estratégica. Para Trump, garantir acesso às nossas reservas significa reduzir vulnerabilidades em áreas críticas: defesa, transição energética e semicondutores. Para o Brasil, a negociação pode significar contrapartidas imediatas como revisão tarifária, investimentos em energias renováveis e data centers. Mas também o risco de reviver a velha condição de exportador de matéria-prima, sem domínio sobre as etapas que realmente agregam valor.
O estudo “Terras raras no Brasil: histórico, produção e perspectivas”, de Paulo C. de Sousa Filho e Osvaldo A. Serra (Química Nova, 2014), alerta que o maior desafio não é a extração, mas a transformação. Separar, processar e produzir bens de alto valor, como ímãs permanentes e ligas especiais, é o que define soberania tecnológica. Sem isso, o país continuará refém.
Há ainda a questão ambiental: a exploração gera resíduos radioativos de urânio e tório, o que exige regulação e monitoramento sérios. A China, que dominou o mercado global, o fez justamente ao negligenciar esses custos. O Brasil não pode repetir essa lógica, sob risco de comprometer comunidades inteiras.
Ao colocar minerais críticos “na mesa”, Lula sinaliza abertura ao diálogo, mas a soberania não pode ser barganha. O desafio é estratégico: condicionar qualquer acesso estrangeiro a investimentos robustos em pesquisa, transferência tecnológica e instalação de fábricas em território nacional.
Se reduzirmos as terras raras a moeda de troca para aliviar tensões tarifárias, perderemos outra chance histórica. Mas, se as tratarmos como oportunidade estratégica, poderão se converter em pilar de desenvolvimento industrial, em sintonia com a transição energética global e com um projeto de país que não aceita mais o papel de mero fornecedor.

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