Na sexta (24), o festival recebe o Babalawo Ivanir dos Santos, autoridade em estudos sobre religiões de matrizes africanas e ativismo social no BrasilDivulgação

A história do réveillon brasileiro, especialmente no Rio de Janeiro, não pode ser vista e lida apenas como um evento turístico ou uma celebração marcada por fogos e festas. Em sua base histórica, simbólica, espiritual e cultural, está a ação visionária de Tancredo da Silva Pinto (1904–1979), sacerdote do culto de Omoloko, intelectual orgânico e um dos maiores articuladores da umbanda e sua reafricanização no século XX. Sua atuação ultrapassa o campo religioso: trata-se de um projeto político civilizatório em busca e construção do respeito, tolerância e equidade.

Nascido em Cantagalo, Tatá Tancredo carrega uma herança familiar profundamente ligada à cultura popular e africana. Seu avô fundou blocos carnavalescos e sua tia, Olga da Mata, desfilava como Rainha Ginga, símbolo de resistência africana. Essa matriz cultural explica, em parte, sua compreensão da festa como linguagem política e pedagógica como forma de combate ao preconceito. Ao criar e institucionalizar festas públicas dedicadas aos orixás, especialmente as celebrações a Iemanjá. O sacerdote inaugurou uma nova leitura dos espaços urbanos: o sagrado negro e africano passou a ocupa a cidade, o calendário e o imaginário social e coletivo.

Destarte, a festa de Iemanjá, realizada nas praias do Rio de Janeiro, tornou-se um marco fundador do réveillon brasileiro. Mais do que um ritual religioso, a festa é as festividades estabelecem um pacto simbólico de passagem, renovação, fé e esperança. Vestir branco, ofertar flores ao mar e pedir proteção não são gestos folclóricos, mas atos de memória e resistência. Tancredo da Silva Silva compreendeu que, ao legitimar essas práticas no espaço público, promovia um profundo processo de letramento racial: ensinava à sociedade que a cultura afro-brasileira não é marginal, mas estruturante e estruturante. Sua importância se amplia quando observamos o contexto histórico. A religiões de matrizes africanas sofreram perseguições sistemáticas do Estado, especialmente até a década de 1950. Tancredo reagiu com estratégia e resiliência: fundou federações, confederações e associações, organizando politicamente os terreiros e dando-lhes personalidade jurídica. Em 1950, criou a Federação Umbandista de Cultos Afro-Brasileiros e, posteriormente, a CEUB-
Congregação Espírita Umbandista do Brasil, num gesto pioneiro de defesa de direitos religiosos.

O respeito e a reverência ao sacerdote se constroem também por sua produção intelectual. Autor de mais de trinta obras, Tancredo sistematizou a umbanda como doutrina, cosmologia e ética. Em títulos como Negro e Branco na Cultura Religiosa Afro-Brasileira, ele antecipa debates contemporâneos sobre racismo estrutural, sincretismo e apagamento cultural. Sua escrita não é apenas religiosa, mas política e educativa. Ao criar grandes eventos públicos, como o encontro “Você sabe o que é Umbanda?”, realizado no Maracanã, Tancredo reafirma a pedagogia da presença: ocupar espaços simbólicos do poder para afirmar a dignidade do povo de santo. Esse mesmo princípio orienta as festas que hoje estruturam o calendário cultural brasileiro, inclusive o réveillon, frequentemente esvaziado de sua origem afro-religiosa. Tancredo da Silva Pinto deve ser compreendido como um intelectual da festa, um estrategista da fé e um guardião da memória ancestral. Sua obra ensina que celebrar é também resistir; que festejar é um ato político; e que o respeito aos saberes afro-brasileiros passa pelo reconhecimento de seus sacerdotes como construtores da nação. Reverenciá-lo é, portanto, um gesto de justiça histórica e um passo essencial para uma sociedade verdadeiramente plural.

Homenagear Tatá Tancredo da Silva Pinto é ato símbolo importante. Mas, não podemos deixar de pontuar que nossas comunidades religiosas necessitam, também, de reconhecimento, tolerância e políticas públicas voltadas para a equidade.
* Ivanir dos Santos - Babalawò / Prof. e orientador no Programa de Pós-graduação em História Comparada da UFRJ (PPGHC/UFRJ) / Ativista dos Direitos Humanos