Há belezas que não invento. Existiram antes de mim e prosseguirão a existir até não sei quando, até porque 'quando' é uma conjunção temporal e eu sou, apenas, um ser em um tempo.
Quando nasci, cachoeiras imensas jorravam a energia das águas em lugares que, algumas vezes, visitei. Outros nem sei, sei que existem. E são belos.
Quando nasci, Beethoven já havia composto a nona sinfonia e Villa Lobos as Bachianas Brasileiras número 5.Michelângelo já havia emprestado beleza à dor em sua Pietà e Tarsila do Amaral feito nascer o Abaporu.
Quando nasci. Victor Hugo já havia escrito sobre a compaixão em "Os Miseráveis" e Lygia Fagundes Telles publicado "As Meninas".
Quando nasci, já havia o pôr do sol do Arpoador, no Rio de Janeiro, e os pássaros já cantavam vida na Floresta Amazônica.
Quando nasci, a natureza já era natureza e a humanidade já buscava a sua historicidade. Quantos movimentos generosos de humanos aprendendo a ser humanos para viverem o belo que não inventamos, que experimentamos.
Como sei o que sei, mesmo sabendo que nada sei, como diria um belo pensador de Atenas, que já era belo antes de eu nascer, belo de alma, Sócrates.Só sei o que sei porque vivo as experiências do amor, porque vivo as experiências do amar.
Desde os calores da minha infância, tateando movimentos aos saberes nas tantas salas de aula que frequentei na vida e as tantas vidas que me ensinaram aulas de vida quando cruzaram comigo.
A experiência do amor, do amar é a mais elevada experiência humana.Sentimos isso quando nos apaixonamos, quando renunciamos parte de nós para partir a um caminhar acompanhado.Nos esquecemos de quereres nossos, nos enfrentamos para vencer os nossos egoísmos e não perdermos quem nos acende uma vontade de viver, até então, desconhecida.
O amor é uma experiência sensual, de encontros de corpos e é, também, uma experiência de transcendência. De elevação. De mistério.
Educar é uma experiência de amar. É apresentar belezas que não inventamos para compreendermos a alegria do existir. É instigar a nossa força de amar, na fascinante aventura de encontrar no outro, também, beleza. A beleza que mora na busca da excelência e que mora na consciência das nossas precariedades, imperfeições.
Em tantas salas de professores que frequentei e que frequento, ouço dizeres de quem já compreendeu e de quem ainda não compreendeu o ser educador.Os cansaços fazem parte do ofício e trazem um olhar cotidiano ao que enfrentamos. Alunos nem sempre ávidos de conhecimento, comportamentos por vezes inadequados, burocracias das instituições que nos subtraem tempos preciosos, problemas outros do belo e do complexo da singularidade humana. Podemos reagir dizendo, objetivamente, do que passamos ou do objetivo do que queremos passar, da nossa profissão.
Um professor em uma sala de aula pode ser um instigador de belezas potentes que nos habitam e que nos fazem sinais de valores para um mundo que precisa aprender a contemplar belezas. As que vieram antes e as que podemos inventar.
Quando entro em uma sala de aula e tenho um conteúdo a compartilhar, busco forças e criatividade para que o assunto seja provocador do crescimento humano, do pensar cuidadoso sobre o que estamos fazendo aqui.Perguntas e perguntas para cuidarmos do conhecer para nos cuidarmos.
De que valeria o conhecimento se não fosse para cuidarmos uns dos outros?
Quando nasci, já havia professores professando a crença na humanidade.Quis me fazer irmão deles. E, por isso, professo, também. Desde as primeiras vezes que entrei em uma sala de aula com os medos dos inícios até hoje, até sempre. Eu sempre pergunto a mim mesmo "o que posso fazer de melhor"? Olho para eles e olho para mim e fecho os olhos olhando para a beleza que há no alto e que ilumina o belo dos encontros do existir e faço uma oração de amor "que eu semeie neles uma vontade de viver e que dessa vontade eles sonhem sonhos bons e que sonhando se sintam belos".
Que eles também se sintam um ser em um tempo. Em um tempo curto do existir, antes de eu nascer, Francisco de Assis, Luther King e a Santa Dulce dos Pobres eternizaram no viver a beleza de ter um sonho. Nasceram eles sonhando ou encontraram educadores pela vida?
Há belezas que não invento, apenas agradeço por existir. Há outras que dependem de mim. Da minha inspiração e ação para embelezar o mundo, enquanto eu estiver por aqui…