Manoel Valente Figueiredo NetoDivulgação
A linguagem, quando espontânea, não é estável. Ela escorrega, se dobra, quase falha. Há palavras que parecem ainda não prontas, como se estivessem sendo ensaiadas no ar. É assim quando o pensamento está em formação: não busca precisão, busca imensidão. A língua, testada até o limite, aprende junto com quem pensa. E falhar, aqui, não é defeito: é método.
No coração do pensamento que se desfaz, há um quasar. Um centro de energia criativa onde razão e caos não duelam, apenas coexistem. Pensar é isso: sustentar um núcleo instável sem a obsessão de organizá-lo cedo demais. Quem apressa o sentido empobrece a existência.
Os arabescos e mistérios da vida nos lembram que criar é mais rito do que técnica. Não se vive para explicar. Vive-se para habitar. E, depois da vida, vem algo essencial: o silêncio que vem depois. O infinito. Vem depois.
Ou talvez não seja silêncio. Talvez seja uni-serão. Universo. Aquilo que permanece quando os verbos cessam e já não precisam provar nada.
Há um refrão implícito em nossas vidas que insiste, quase como ética mínima: viva para o bem, viva sem pressa, viva sempre. A vida como cuidado. Como permanência. Como gesto de amor que não exige aplauso.
Mas antes, preciso dizer algo: é um certo egoísmo guardar tudo isso só para si. Porque, assim como o poeta, só é grande quem se expõe. Quem sofre à vista. Quem oferece.
“Deixemos assim”, você dirá. “Tudo tem um tempo.” Sim. Mas os gregos temiam menos o tempo que passa do que a vida adiada. Há coisas que não pedem maturação: nos propõem intenção.
Esperar demais é obedecer a Chrónos. Reconhecer o momento e agir é honrar Kairós. E apenas o que se oferece ao mundo toca Aión. O que não se oferece no instante certo não vira eternidade. Vira o quê? Silêncio?
Velhas árvores dobram, mas ainda se lembram do vento. A impermanência é sua maior delicadeza: ela passa enquanto é. Não tenta durar.
O vento não é só um marco. É um estado existencial. O tempo em suspensão, quando nada se fixa e tudo passa.
A lua caiada pinta de prata a estrada longa, triste e vazia. Consola, mas não aquece. Ilumina, mas não preenche. A incompletude é sua causa existencial.
A estrada repleta de vento não é vazia por falta de sentido. É vazia porque o sentido está no atravessar, não no destino. Como gênios sonhadores e seus risos, pois rir também é uma forma de não endurecer, de não se dobrar.
Algumas nuvens ocultam a prata do pirata, mas não a roubam. O brilho continua lá, esperando o ângulo certo.
No fim, ou no começo, tudo retorna. Palavra vira silêncio. Silêncio vira verso. E o universo, paciente, nos devolve à vida que termina onde tudo começa.

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