Manoela Peres fala de turismo responsávelDIVULGAÇÃO

Com a chegada do verão, nossas cidades litorâneas se transformam. É uma época de alegria, de praias cheias e, inegavelmente, de aquecimento da economia. O turismo é uma vocação natural do Brasil e, especialmente, da nossa região. No entanto, esse fluxo intenso traz à tona um debate urgente e necessário sobre o equilíbrio entre o desfrute dos visitantes e a qualidade de vida dos moradores. Não é raro vermos municípios com cerca de 30 mil habitantes receberem uma população flutuante que chega a 120 mil pessoas em um único final de semana. Esse crescimento exponencial e repentino coloca à prova a Gestão Pública e a infraestrutura das cidades, exigindo um planejamento rigoroso e uma postura firme diante do que chamamos de turismo predatório.
Nós defendemos, sempre, que o turismo é vital. Ele gera emprego, renda e sustenta o comércio local durante a baixa temporada. Porém, o desenvolvimento econômico não pode custar o bem-estar do cidadão nem a integridade dos nossos ativos naturais. É preciso compreender que o turismo sem regras não é liberdade; é desordem. E a desordem afasta as famílias, degrada o meio ambiente e desvaloriza o destino a longo prazo.
Durante minha gestão em Saquarema, encarei esse desafio de frente. Entendemos que para haver um desenvolvimento municipal real, precisávamos investir na qualificação dos nossos espaços. Um dos maiores orgulhos desse trabalho é ver que Saquarema possui, hoje, três praias com a certificação internacional Bandeira Azul. Mas engana-se quem pensa que esse selo atesta apenas a balneabilidade da água. Ele é um símbolo de sustentabilidade municipal e de ordenamento. Para manter essa certificação, a prefeitura precisa garantir, e o turista precisa respeitar, regras claras: proibição de caixas de som que perturbam o sossego, restrição a animais na areia para evitar zoonoses, veto a garrafas de vidro que causam acidentes e, claro, tolerância zero com o lixo deixado para trás.
Essas ações de fiscalização não são apenas burocracia, são atos educativos. Elas mostram que a prefeitura está cuidando de seus ativos naturais e forçam uma mudança de comportamento. A lógica é simples: o turista deve cuidar da cidade que visita com o mesmo zelo que cuida da sua própria casa. Aquilo que ele não tolera em seu bairro de origem, não pode reproduzir quando visita o bairro alheio. É uma questão de empatia e civilidade.
Observamos que outras cidades também estão se movimentando para combater o turismo exacerbado e garantir um planejamento governamental eficaz. Fernando de Noronha, por exemplo, utiliza taxas de preservação para controlar o fluxo e mitigar impactos. O Rio de Janeiro avança no cadastramento rigoroso de ambulantes para garantir a ordem urbana. São medidas distintas e até polêmicas, mas que buscam ordenar o turismo nesses locais. Precisamos discutir, sem medo e com franqueza, esse e outros assuntos, como a fiscalização de preços abusivos nas areias, o ordenamento do solo e o uso compartilhado dos espaços públicos. O turismo predatório é ruim para todos: satura os serviços de saúde, sobrecarrega a coleta de lixo e cria atritos desnecessários.
Neste cenário, é fundamental estabelecermos uma relação clara de direitos e deveres. Existe uma via de mão dupla que precisa ser respeitada: o direito da prefeitura em fiscalizar é o dever do turista em cumprir as normas. Por outro lado, o direito do turista de encontrar uma cidade limpa, segura e organizada é o dever da prefeitura em prover serviço público de qualidade e infraestrutura.
Não podemos nos furtar a essa discussão. As prefeituras têm a responsabilidade de promover a fiscalização e dar o exemplo, mas os visitantes precisam entender que nas cidades turísticas habitam pessoas, famílias e trabalhadores que merecem respeito. O turismo só é viável quando é bom para quem visita e, principalmente, para quem vive. Que neste verão, possamos fortalecer essa consciência coletiva, onde a diversão conviva harmoniosamente com a responsabilidade, garantindo que nossas belezas naturais continuem encantando gerações futuras.
Manoela Peres é secretária de Governança e Sustentabilidade de Saquarema, ex-prefeita de Saquarema e Mestre em Administração