Isa Colli é escritora e jornalista Divulgação

A palavra guerra costuma ser usada como se descrevesse um evento futuro: tanques cruzando fronteiras, mísseis sobre capitais, mortes instantâneas. Essa imagem, porém, é mais fruto da imaginação dominante do que da realidade. No mundo concreto, a guerra começa antes das bombas. Ela habita os vazios entre discursos e ações, as omissões deliberadas e as normalizações silenciosas.

A chamada Terceira Guerra Mundial talvez não seja — e nunca tenha sido — uma linha clara no tempo. Trata-se de uma espiral de conflitos entre sistemas de poder: comerciais, diplomáticos, militares e simbólicos. Nesse contexto, o apocalipse não aparece como espetáculo final ou destruição total, mas como revelação. Revela-se um sistema internacional que já não compartilha limites mínimos, nem éticos nem legais.

O apocalipse contemporâneo não anuncia o fim do mundo, mas expõe o esgotamento de uma ordem. Ele se manifesta quando regras deixam de valer para todos, quando exceções viram método e quando a força passa a substituir o direito. Antes das ruínas visíveis, há o colapso invisível da confiança, da legalidade e da linguagem comum entre as nações.

Guerras também se travam com tarifas, sanções, boicotes e restrições tecnológicas. Quando economias se transformam em armas, passam a reconfigurar alianças, punir dissidências e marginalizar países inteiros. Essa lógica cria vencedores e perdedores antes mesmo do primeiro tiro. O comércio deixa de ser meio de cooperação e se converte em instrumento de dominação.

A recente intervenção dos Estados Unidos na Venezuela, que resultou na captura do presidente Nicolás Maduro, expôs esse cenário de forma contundente. Independentemente de qualquer crítica à ditadura venezuelana ou às violações de direitos humanos no país, o ponto central não é a legitimidade do regime, mas o precedente internacional criado: a normalização de intervenções militares sem mandato claro das Nações Unidas. Quando esse tipo de ação é tolerado — ou até celebrado — cria-se um perigoso selo de permissividade.

Esses precedentes não ficam isolados. Eles alimentam narrativas usadas por outras potências para justificar suas próprias ações. A Rússia observa o que o mundo aceita na Venezuela ao falar da Ucrânia. A China acompanha atentamente esses movimentos ao tratar de Taiwan. O efeito dominó simbólico pode ser tão destrutivo quanto um conflito armado direto.

A crise venezuelana também revelou a fragilidade de governos europeus, presos entre princípios jurídicos e conveniências políticas. O caso da França é emblemático. O presidente Emmanuel Macron aplaudiu a ação norte-americana, mas hoje percebe o risco representado por Donald Trump, sendo publicamente provocado e humilhado pelo mesmo governo que apoiou. O voto francês contra o acordo Mercosul–União Europeia reforça essa dificuldade de posicionamento num mundo em rápida transformação — hesitação que costuma ser lida como fraqueza.

Não se trata de justificar guerras. Trata-se de reconhecer que, quando a comunidade internacional relativiza a soberania e flexibiliza regras conforme interesses estratégicos, normaliza o confronto. O apocalipse contemporâneo não é um evento único, nem um momento final. É um processo contínuo de erosão das normas que sustentam a convivência global.

A verdadeira crise não é a guerra em si, mas o assentimento tácito de que a guerra — militar, comercial ou simbólica — pode ser uma ferramenta legítima da política internacional. Enquanto isso for pensável, e até debatido com naturalidade, o apocalipse não será apenas um medo futuro. Será, como já é, uma condição presente.
Por Isa Colli, jornalista e escritora