Júlio FurtadoDivulgação

Diante do início de mais um ano letivo, a pergunta que paira sobre todos nós educadores ultrapassa a grade curricular tradicional. Enquanto debatemos novas metodologias para ensinar velhos conteúdos, o mundo dá mil voltas e, a cada dia, sofre mutações profundas. A geografia política está mudando e o tecido social esgarçou-se. Se queremos continuar acreditando que a escola é capaz de ajudar a mudar a sociedade, ela precisa preparar a próxima geração para uma realidade em convulsionada transição.
O primeiro grande desafio pedagógico é ensinar que mundo é esse. O mapa-múndi que penduramos na lousa já não explica a realidade. Caminhamos, aceleradamente, para um mundo multipolarizado. O eixo de poder econômico e diplomático caminha para uma fragmentação, com a consolidação dos BRICS e a reconfiguração das alianças comerciais que tendem a não passarem mais, obrigatoriamente, por Washington ou Bruxelas. Ensinar sobre esse novo mundo exige mais do que atualizar livros de História; exige letramento político-econômico.
Contraditoriamente, enquanto o mundo se abre em múltiplos polos, a sociedade fecha-se, cada vez mais, em dois. Aqui está o segundo foco essencial para o ensino este ano: o enfrentamento da radicalização na bipolarização ideológico-política. Vivemos a era das trincheiras digitais, onde Esquerda e Direita deixaram de ser posições no espectro democrático para se tornarem identidades tribais de negação mútua. A escola não pode ser tragada por essa guerra cultural, pois seu papel é ser justamente ser o antídoto. É imperativo ensinar a "tecnologia do diálogo" que não evita o conflito, mas qualificar o debate. Precisamos formar um aluno que disponha de ferramentas intelectuais e emocionais para distinguir fato de narrativa, política pública de proselitismo e adversário de inimigo. Se as redes sociais lucram com a polarização que cega, a sala de aula deve ser a lente que esclarece.
Portanto, esse ano, devemos ensinar a complexidade. Precisamos formar jovens que consigam compreender um planeta multipolar sem perderem a bússola ética em um país polarizado. Se falharmos nisso, formaremos cidadãos incapazes de interagir com a realidade do século XXI. A escola, afinal, não existe apenas para ensinar a ler palavras, mas para ensinar a ler o mundo – e este mundo exige, mais do que nunca, uma nova alfabetização política e humana.
Júlio Furtado é orientador educacional e escritor