MÁRCIO FERREIRADIVULGAÇÃO

A violência armada no Brasil impõe um custo que vai muito além das estatísticas criminais. No Rio de Janeiro, esse impacto se materializa no funcionamento do Sistema Único de Saúde, no fechamento de unidades, no esgotamento de profissionais e na drenagem permanente de recursos que poderiam estar salvando outras vidas.
Dados da 3ª edição da pesquisa do Instituto Sou da Paz, com base no Sistema de Informações Hospitalares do Ministério da Saúde, mostram que, nos últimos dez anos, o SUS gastou R$ 556 milhões apenas com internações por ferimentos de arma de fogo. Em 2024, foram 15,8 mil internações no país, ao custo de R$ 42,3 milhões. Cada uma custou, em média, R$ 2.680, valor 159% superior ao gasto federal médio per capita em saúde no mesmo ano.
O número ajuda a dimensionar o impacto real da violência sobre o sistema. Com o valor gasto apenas em 2024, seria possível realizar cerca de 10,3 milhões de hemogramas completos, 4,5 milhões de radiografias de tórax, 74 mil sessões de quimioterapia para o tratamento do câncer de mama ou 1,7 milhão de ultrassonografias obstétricas. Em um sistema historicamente subfinanciado, cada bala representa também a perda concreta de cuidado, prevenção e tratamento.
No Rio de Janeiro, os efeitos extrapolam o orçamento. Até setembro deste ano, mais de 700 atendimentos foram suspensos em unidades de saúde devido a confrontos armados. Clínicas fechadas, consultas canceladas e equipes trabalhando sob estresse intenso passaram a integrar a rotina de diversos territórios.
A pesquisa aponta ainda que internações por arma de fogo custam cerca de 80% a mais do que aquelas decorrentes de agressões físicas ou objetos cortantes. No cotidiano do SUS fluminense, isso significa menos leitos disponíveis, filas mais longas e pressão adicional sobre hospitais que já operam no limite.
O perfil das vítimas revela um padrão estrutural: 89% dos internados são homens e 82% são pessoas negras, com forte concentração entre jovens de 15 a 29 anos. No Rio, esses números dialogam diretamente com a geografia da desigualdade racial e territorial. Não se trata de um fenômeno aleatório, mas de uma violência seletiva que incide sobre corpos e territórios historicamente vulnerabilizados.
Outro dado preocupante é o crescimento das lesões autoprovocadas com arma de fogo, cuja proporção mais do que dobrou entre 2022 e 2024. A presença da arma em contextos de sofrimento psíquico amplia drasticamente a letalidade e evidencia a necessidade de integrar políticas de saúde mental, assistência social e controle de armas.
Importante destacar que os números não incluem gastos com reabilitação, fisioterapia, acompanhamento psicológico ou custos arcados por estados, municípios e rede privada. O impacto real é, portanto, ainda maior.
Tratar a violência armada apenas como questão policial é um equívoco que o Rio paga diariamente. Ela é também um grave problema de saúde pública. Cada disparo não custa apenas uma vida. Custa leitos, equipes, recursos e oportunidades de cuidado que deixam de existir.
Márcio Ferreira é jornalista, doutorando e mestre em Sociologia pelo Iuperj/UCAM