IVANIR DOS SANTOSDIVULGAÇÃO
Tião Casemiro: o canto como fundamento
Existem nomes que atravessam o tempo, rompem gerações e se consolidam como referência viva dentro da tradição religiosa afro-brasileira. Tião Casemiro é um deles. Respeitado Ogan da Umbanda e figura lendária nos terreiros, construiu uma trajetória marcada por mais de cinco décadas de dedicação ininterrupta à religião, à música sagrada e à preservação dos fundamentos ancestrais que sustentam o culto. Sua história não se mede por datas ou registros formais, mas pelo som dos atabaques, pelos cânticos entoados com rigor ritual e pela autoridade espiritual que sua presença carrega.
Ser Ogan, para Tião Casemiro, sempre significou muito mais do que executar cantigas. Trata-se de uma função de extrema responsabilidade, confiança e disciplina, que exige preparo espiritual, escuta atenta e compromisso absoluto com o sagrado. Desde cedo, ele compreendeu que a música ocupa lugar central na Umbanda: organiza o ritual, firma o axé, sustenta a corrente espiritual e orienta médiuns e assistência durante os trabalhos. Ao longo dos anos, tornou-se guardião de repertórios tradicionais, conhecedor profundo dos fundamentos e referência silenciosa para novas gerações, que aprendem mais pelo exemplo, pela observação e pelo respeito do que por ensinamentos formais.
Sua voz é, em si, um elemento ritual. Grave, firme e carregada de intenção, não busca protagonismo nem aplauso, mas cumpre sua função com precisão e consciência. Quando Tião entoa um cântico, o som não apenas ocupa o espaço do terreiro: ele estrutura o culto, organiza a energia, sustenta a gira e cria pontes entre o plano material e o espiritual. É uma voz moldada pelo tempo, pela vivência constante e pelo entendimento profundo da Umbanda, onde cada palavra cantada tem propósito, direção e fundamento.
No cenário religioso, Tião Casemiro é reconhecido como uma liderança musical rara. Domina o tempo exato dos cantos, conhece o momento certo de cada ponto e compreende, com sabedoria, a importância do silêncio entre eles. Seu conhecimento não nasce de livros ou academias, mas da tradição oral, do convívio com os mais velhos e de décadas de prática contínua dentro dos terreiros. Em um país ainda marcado pela intolerância religiosa, sua presença ativa representa também resistência cultural, preservação da memória e afirmação identitária.
No mês de janeiro, ao celebrar mais um ciclo de vida, Tião reafirma simbolicamente essa longa caminhada. Seu aniversário ganha dimensão coletiva, pois celebrar Tião é celebrar mais de 50 anos de Umbanda vivida, cantada, sustentada e defendida nos terreiros. Não se trata de idade, mas da densidade espiritual de uma existência dedicada ao sagrado. Tião Casemiro é desses mestres que não precisam se anunciar: sua autoridade está na postura serena, na escuta cuidadosa, no respeito aos fundamentos e na força do canto que mantém viva a ancestralidade afro-brasileira.
Ivanir dos Santos é Babalawô, professor e orientador no Programa de Pós-graduação em História Comparada da UFRJ (PPGHC/UFRJ) e ativista dos Direitos Humanos

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