Manoel Valente Figueiredo NetoDivulgação

Dizemos que o tempo passa, leva e cura. Como se fosse uma força exterior, um rio cósmico diante do qual só nos restasse assistir.
Falamos de tempo, mas esquecemos do retorno, que é menos dos acontecimentos e mais das possibilidades. O que retorna não é o mesmo instante, mas um novo modo de habitá-lo.
Assim como um músico não cria o som, mas decide o ritmo, nós também não criamos o fluxo da existência. Podemos, porém, escolher a cadência com que o habitamos.
Habitar o tempo é compreender a tarefa silenciosa de existir: não medir quanto tempo temos, mas transformar o tempo que somos. O ciclo da vida não exige que sejamos sempre novos, sempre rápidos, sempre adiante. Ele nos pede que sejamos inteiros no movimento de retorno, capazes de recomeçar sem desespero, de repetir sem tédio, de reconhecer no já vivido uma nova camada de compreensão e acolhimento.
Cada manhã é menos um avanço e mais uma reentrada. Não voltamos ao mesmo lugar: voltamos diferentes ao mesmo mistério.
A tarde é o instante em que o fluxo se torna visível, quando a luz dourada alonga as sombras e nos faz sentir que algo está sendo concluído. Mas, paradoxalmente, a tarde também anuncia o recomeço: o que declina prepara o retorno. O sol não lamenta descer, ele cumpre o seu compasso.
À noite, o tempo se revela como passagem sensível: nossa música muda de andamento. E nós podemos decidir se ouvimos esse momento como perda ou como maturação.
Esse movimento amplia a consciência e nos faz perceber que não somos apenas o que acontece conosco, mas também o modo como acolhemos o que acontece. Quando compreendemos isso, deixamos de ser arrastados pelo tempo e passamos a habitá-lo, com mais gentileza conosco e com os outros.
Na ampliação da consciência, não é o tempo que muda de repente; somos nós que mudamos a forma de habitá-lo. O olhar deixa de ser prisioneiro da dor, reaprende a ver e volta a reconhecer o mundo.
O tempo não é inimigo, mas pedagogo. Ele anuncia, prepara e revela. Não é um rio que arrasta. É um ciclo que molda. Quem se transforma no tempo também se torna abrigo, capaz de converter dor em oração, silêncio em palavra, tempo em poesia.
Talvez ampliar a consciência seja apenas isso: não evitar o tempo, mas habitá-lo. Porque o tempo pode levar muitas coisas, mas deixa, no que permanece, os sinais do que em nós floresceu.
Manoel Valente Figueiredo Neto é jornalista e jurista