Em seu canto preferido da casa, moram imagens de olhares, de reclamos de carinho, de alegrias por algum convite para passeios. Escrevo e olho o seu canto. Uma poltrona com uma almofada em que deitava o focinho e olhava. Seu olhar de amor era da profundidade de quem reconhecia o amor apenas olhando.
Em dias de alguma viagem, ela se inquietava. Era, talvez, a lembrança do abandono de antes. Não sei. Não sei como alguém abandona criaturas ternas. Sei que eu a acalmava dizendo explicações de estarmos sempre juntos.
Quando ela chegou, havia um outro, Vittorio. Foram tempos bonitos. Ele, um labrador, maior do que ela, cuidando de a proteger. Fomos felizes juntos. Depois, chegou Serena, a menor de todos. Os três fazendo algazarras e companhia. Os três inseparáveis.
Um dia, Vittorio partiu. Ficamos partidos. Eles sentem muito. Depois do tempo do vazio, chegou Tales. Novamente três.
Princesa, a que veio das ruas, era a chefe. A que avisava o início dos latidos. A que exigia o silêncio dos outros. A que os defendia, se necessário fosse. E, então, Princesa adoeceu. E vivemos juntos os últimos dias.
O tempo deles vai mais depressa do que o nosso. Nos últimos dias, os passos cansados já anunciavam despedidas. Eu chegava das ruas, das ruas do mundo grande, e me sentia grande quando vinham os três festejar a chegada. No mundo grande, somos todos estranhos. Somos todos estranhos, até nos encontrarmos.
No último dia, o rabinho ainda dizia alegria pelos afagos. Eu a abracei forte, chorei a despedida. E ouvi gemidos que impediam os de dor, eram as carícias finais.
Animais são criaturas de Deus. Com vida. Com sentimentos. Com capacidade de nos fazer estacionar outros temas para viver a delicadeza do amor. Do amor sem palavras de exigências, sem comparações, sem atitudes de revide a alguma falha nossa.
O tempo deles não é um tempo de rancores. O tempo deles não é um tempo de interesses a não ser o estar, o brincar, o alimentar o nosso tempo do tempo curto que eles vivem.Nós também vivemos tempo curto, mesmo vivendo mais. E, desperdiçamos não brincando os dias, não encontrando pausas para as delicadezas.
Ela via os filmes comigo. Era inacreditável o seu olhar olhando. E latindo, caso não gostasse. Caso outro animal pudesse chamar mais a minha atenção do que ela.
Há ainda a Márcia, amiga tão próxima, que, vez em quando, a levava para dormir em sua casa. Bastava um convite e ela entendia. E ia avisar do seu jeito na cozinha que ia dormir fora. Latia olhando a coleira e a fraldinha. Cenas simples que guardam dias lindos na memória.
A Lu, que cuida de mim e deles também, chorou a partida. Choramos juntos. E também Guilherme, meu sobrinho, que acabou de ser pai, e que cuida dos trabalhos que trabalho. São dias bonitos por aqui. Viajo muito para fora e para dentro. Para dizer palavras a outras pessoas, em outros lugares, e para deixar palavras nascerem em mim. Gosto de ficar em casa. Do silêncio da leitura e das escritas. Do café com sabor de permanência. Dos pensamentos que pensam o que vale mais na vida. A realeza do amor.
A palavra que nasce em mim, quando penso em Princesa, é apenas uma: gratidão.
Gratidão por ter aprendido com os meus pais a amar os bichos. Gratidão por ter aprendido com a vida que cada vida merece ser respeitada, amada. Gratidão por não ter medo de revelar os meus sentimentos. De chorar ou de sorrir sem as preocupações do que os outros dirão.
Princesa diria olhando. Diria abanando. Diria pulando de alegria com a minha chegada. Diria deitando em mim seu corpo pequeno, enquanto eu conversava com os outros.
Gratidão por ter memória de tantos amores que se foram e que estão. E dos que permanecem por aqui, enquanto permanecermos. O tempo de Princesa prossegue em mim e nos amigos que comigo vivem o prazer do conviver.
Obrigado, Princesa, por um tempo que se foi, por um tempo sem fim.

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor.