Isa Colli é jornalista e escritora Divulgação

Observar o Rio de Janeiro à distância, aqui da Bélgica, me permite enxergar as transformações da nossa “Cidade Maravilhosa” com uma lente que mistura saudade, esperança e análise crítica. Em maio de 2026, acompanho com entusiasmo o movimento de revitalização urbana que finalmente alcança o Centro e bairros históricos como São Cristóvão e a região portuária. Obras, novos empreendimentos e a recuperação de espaços degradados parecem indicar um novo ciclo para a cidade. Ainda assim, vivendo em um continente onde o planejamento urbano costuma priorizar pessoas e não apenas o mercado, não consigo deixar de perguntar: o novo Rio que está surgindo foi feito para quem?

A “corrida do ouro” imobiliária impulsionada pelo novo Plano Diretor tem razões legítimas. Reocupar áreas abandonadas, fortalecer o comércio e melhorar a infraestrutura são medidas importantes para uma cidade que convive há décadas com o esvaziamento urbano e a desigualdade. O Centro do Rio sempre teve potencial para voltar a ser um espaço vivo, ocupado também por moradores. Recuperar esses territórios é necessário, mas o progresso urbano não pode significar expulsão silenciosa.

Nas redes sociais, nas conversas cotidianas e nas buscas por aluguel, cresce a ansiedade de quem teme não conseguir permanecer onde sempre viveu. O fantasma da gentrificação — o encarecimento que empurra moradores históricos para regiões cada vez mais distantes — já é uma preocupação real entre os cariocas. E esse processo não atinge apenas famílias de baixa renda. Há também uma população ainda mais invisibilizada: as pessoas em situação de rua.

Quem circula pelo Centro sabe que milhares de homens e mulheres ocupam calçadas, praças e marquises porque nunca tiveram acesso efetivo a políticas públicas de moradia, saúde mental e assistência social. São pessoas que vivem justamente nos territórios que agora passam a receber investimentos milionários e atenção do mercado imobiliário. A pergunta inevitável é: qual será o destino delas nesse “novo Rio”?

O processo de revitalização precisa vir acompanhado de um projeto para as pessoas em situação de vulnerabilidade social. Essa população não pode simplemente ser retirada da paisagem urbana sem que se pense em alternativas reais de acolhimento.

O Rio ainda tem a chance de escolher outro caminho. Modernizar não é um erro. Pelo contrário: investir em mobilidade, habitação e recuperação urbana é fundamental. O problema surge quando a cidade passa a ser planejada apenas para investidores, turistas e consumidores de alto poder aquisitivo. Uma cidade viva depende da convivência entre diferentes classes sociais e formas de ocupação do espaço urbano.

Na Europa, fala-se muito em “cidades para pessoas”. Isso significa garantir que trabalhadores possam morar perto do emprego, do transporte e dos serviços públicos. O Rio pode aprender com essa experiência. Habitação popular não pode ser apenas promessa eleitoral ou peça de marketing de incorporadoras. É preciso garantir, também, moradia acessível e políticas públicas para quem hoje vive à margem.

Revitalizar não pode ser sinônimo de “gourmetizar” e excluir. O desafio das autoridades cariocas neste 2026 é garantir que o Porto Maravilha e a Zona Norte se renovem sem perder a alma. Mais que isso: é fundamental equilibrar desenvolvimento econômico com justiça social. Porque uma cidade sem diversidade, sem memória e sem espaço para os mais vulneráveis é apenas um cenário bonito e vazio.

O Rio de Janeiro só será verdadeiramente moderno quando o futuro couber para todos os cariocas.
Por Isa Colli, jornalista e escritora