Valéria LimaDivulgação

A maternidade, por si só, já é uma das experiências mais transformadoras da vida. Para algumas mulheres, porém, esse caminho assume contornos ainda mais desafiadores. São as mães atípicas — aquelas que cuidam de filhos com condições neurodivergentes, como Transtorno do Espectro Autista (TEA), paralisia cerebral e síndromes genéticas.
Embora não haja dados oficiais consolidados, estimativas indicam que milhões de brasileiras vivenciam essa realidade, muitas vezes de forma solitária. Considerando o número de mães solo e o fato de que o cuidado de crianças com deficiência recai majoritariamente sobre as mulheres, é possível afirmar que entre 2 e 5 milhões exercem o cuidado exclusivo de filhos neurodivergentes, frequentemente sem rede de apoio e com impactos profundos na vida emocional, profissional e financeira.
Ser mãe atípica vai além do cuidado: é uma jornada contínua de adaptação e resiliência. Na prática, exige reorganização completa da rotina. Além das demandas diárias, essas mulheres assumem o acompanhamento terapêutico, a mediação escolar e a gestão de informações clínicas, tarefas que demandam tempo, conhecimento e articulação, quase sempre sem suporte adequado.
Os efeitos na vida profissional são diretos. Muitas reduzem a jornada ou deixam o trabalho, ampliando a vulnerabilidade econômica. Ao mesmo tempo, os custos com terapias, transporte e adaptações pesam significativamente no orçamento.
No campo emocional, o diagnóstico impõe a reconstrução de expectativas e a criação de novas referências. Com o tempo, a rotina se estabelece, mas permanecem preocupações estruturais, sobretudo em relação à autonomia e ao futuro dos filhos.
Há ainda a sobrecarga invisível. A ausência de políticas públicas integradas e de redes de apoio faz com que essas mulheres acumulem funções sem reconhecimento, afetando sua saúde física e mental.
Nesse contexto, iniciativas legislativas no Estado do Rio de Janeiro dialogam com demandas urgentes. Uma delas propõe ampliar o abono de faltas para mães que acompanham filhos em internações, já que os três dias previstos atualmente são insuficientes diante de tratamentos prolongados. Hoje, muitas enfrentam um dilema cruel: cuidar do filho ou preservar o emprego.
Outra proposta amplia a aplicação do CARS (Childhood Autism Rating Scale) para pediatras e médicos de família, facilitando o diagnóstico precoce do TEA, uma medida essencial para melhores desfechos no desenvolvimento.
São avanços importantes, mas ainda insuficientes. É fundamental ampliar o acesso à saúde e à reabilitação, reduzir o preconceito e as desigualdades, garantir educação inclusiva com suporte especializado e fortalecer políticas de proteção social, como flexibilização da jornada e apoio ao cuidador.
Reconhecer a maternidade atípica como pauta social é essencial e urgente. Mais do que visibilidade, essas mulheres precisam de respeito e condições melhores para cuidar dos filhos com dignidade e tranquilidade.
Valéria Lima é mãe atípica, terapeuta ocupacional especialista em pessoas neurodivergentes e diretora da Clínica Reabiliarte