Fernando FloresDivulgação

Em 1781, Immanuel Kant publicou um livro para responder a uma pergunta incômoda: o que podemos de fato conhecer? A resposta dele em "Crítica da Razão Pura" foi humilhante para o orgulho humano. Não vemos o mundo como ele é. Vemos o mundo como somos capazes de ver.

Kant chamou isso de fenômeno. A coisa em si, o que ele chamou de númeno, seria inacessível. Entre nós e a realidade sempre haverá um filtro: nosso espaço, nosso tempo, nossas categorias de entendimento. Cada um enxerga a realidade que sua própria percepção permite.

Duzentos e quarenta anos depois, essa ideia virou um modelo de negócio de trilhões de dólares.

O algoritmo não inventou que vivemos em bolhas. Ele só entendeu como monetizar uma condição que Kant já havia descrito como inevitável. Se é impossível enxergar a realidade exatamente como ela é, então é possível fabricar várias realidades plausíveis. E é exatamente isso que ele faz.

O feed não te mostra o mundo. Ele te mostra a tua versão do mundo.

Kant dizia que não somos espectadores passivos da realidade; somos coautores dela. O algoritmo levou essa frase ao pé da letra. Ele não te entrega fatos, ele entrega percepções moldadas para o teu aparato cognitivo: seus medos, seus desejos, sua história, seus cliques anteriores. Ele aprendeu qual é a tua lente.

Por isso dois vizinhos, na mesma rua, com a mesma inflação e o mesmo governo, vivem em países completamente diferentes. Não é que um deles esteja mentindo. É que cada um está vendo a sua realidade fenomênica funcionando perfeitamente. Kant já avisava: não há como sair da própria percepção para checar.

E aqui está o pulo do gato que explica o sucesso do algoritmo: ele não precisa te convencer. Ele só precisa confirmar a tua intuição de realidade. Enquanto a imprensa antiga tentava te dizer "o mundo é assim", o algoritmo sussurra "o mundo é exatamente como você já suspeitava".

É muito mais eficiente. E muito mais difícil de combater.

Na "Crítica", Kant tentava nos libertar da ilusão de que víamos a verdade absoluta. Ele queria humildade epistemológica. O algoritmo fez o oposto: ele usa essa mesma limitação para nos dar a sensação oposta, de certeza absoluta. Ele te entrega uma realidade sob medida, tão bem costurada na tua percepção, que você tem a impressão de finalmente estar vendo as coisas como realmente são.

Kant fracassou? Não. Ele foi profético. Ele descreveu o terreno perfeito para o algoritmo prosperar: um ser humano que nunca toca a coisa em si, mas que morre de vontade de acreditar que tocou.

O algoritmo venceu porque ele não disputa a realidade. Ele fabrica a tua.
*Fernando Flores é jornalista.