Família de Mr Catra passa primeiro Dia dos Pais sem o funkeiro

De volta à comunidade do Catiri, em Bangu, viúva e filhos mantém viva a memória do cantor, que deixou como herança músicas e o exemplo de força

Por Luana Dandara*

Onze meses após a morte de Catra, família se reúne no Dia dos Pais para reverenciar a memória do funkeiro
Onze meses após a morte de Catra, família se reúne no Dia dos Pais para reverenciar a memória do funkeiro -
Rio - Onze meses após a morte de Wagner Domingues Costa, com 49 anos, por um câncer no estômago, a família do funkeiro, mais conhecido como Mr. Catra, vive uma nova realidade. Sem o patriarca, a união dos 32 filhos, entre biológicos e adotados, já não é mais a mesma. A viúva, Silvia Regina Alves, 42 anos, precisou sair da mansão em Mogi das Cruzes, em São Paulo, onde o marido tratava a doença, e voltou a morar na comunidade do Catiri, em Bangu, com cinco dos herdeiros, além da neta Maya, de seis meses.

Na casa simples, de dois andares, Catra é lembrado em todos os cômodos: na sala, um quadro o retrata ao lado dos filhos; no quarto, a foto de Silvia com seu companheiro por 25 anos; e na escada, o chapéu dado por Raul Gil para o dono dos hits 'Adultério' e 'O Simpático'. Neste primeiro Dia dos Pais sem o "paizão", como é chamado pelos filhos, parte da família vai se reunir para um almoço em homenagem. "Tudo nele faz falta. Essa data era perfeita, porque ele levava todos para almoçar, às vezes tinha churrasco e íamos para praia", conta a filha Noemi Domingues, de 15 anos.
"Nunca vi meu marido reclamando de uma dor, ele era uma fortaleza, nos passava segurança e conforto", diz a viúva Silvia - Luciano Belford/Agência O Dia
Música


Na parte musical, o primeiro filho de Catra, Allan Domingues, 27 anos, o Mc Alandim, quer continuar o legado do pai, em um estilo que mistura funk e rap. "Descobri que ele era meu pai aos 18 anos, quando já era fã. Está sendo muito difícil sem ele, me sinto sem chão. Mas quero manter a obra dele viva", diz Alandim.
Família recebeu ajuda de Buchecha para se mudar da mansão de São Paulo para o Rio - Luciano Belford/Agência O Dia
Ele lança um projeto musical nos próximos meses, com a ajuda do produtor Papatinho, responsável por sucessos como ‘Onda Diferente’, de Anitta, Ludmilla e Snoop Dogg. "Não tem como deixar de sentir sua presença, principalmente nos shows", acrescenta o MC.
Wendell Lucas, 18, e Samuel David, 17, também formam a dupla MC WL e Kalyba. "Montamos um repertório em homenagem a ele, com as músicas mais antigas. Meu pai nos ajudava em tudo. Toda vez que chegava em casa, fazia uma reunião e trocava experiências, contava as viagens que fazia. Era muito inteligente e talentoso", lembra Samuel, emocionado.
A viúva Silvia Regina Alves (centro) com seis herdeiros do funkeiro e a neta de 6 meses voltaram a morar na comunidade Catiri, em Bangu - Luciano Belford
Situação financeira
Como herança, Catra não deixou imóveis nem dinheiro, mas quatro pastas de composições para os filhos gravarem. "Ele deu condições para todos correrem atrás dos seus sonhos. Foi um exemplo de pai, mesmo no hospital não deixou de pagar as 28 pensões", pontua Silvia, que ainda guarda segredo sobre o lançamento dessas canções.

Segundo a viúva, todo o dinheiro guardado pela família foi usado no tratamento do cantor, durante dois anos. "Nós tínhamos certeza de que ele ia sair curado. Catra entrou um touro no hospital, mas a quimioterapia foi arrebentando ele aos poucos. E nem assim deixava de fazer shows e programas de TV. Nunca vi meu marido reclamando de uma dor, ele foi uma fortaleza", relata Silvia, com lágrimas nos olhos.

Hoje, a companheira do MC mantém a casa por meio de trabalhos como digital influencer, no qual dá dicas de relacionamento nas redes sociais, e com os shows dos filhos. "Nosso padrão de vida caiu pela metade, mas não tem ninguém morrendo de fome, todo mundo se ajuda. Sempre morei em comunidade, não tenho nenhum problema com isso".

Entre os amigos famosos de Catra, o único que até agora auxiliou financeiramente foi o cantor Buchecha, que pagou toda a mudança de São Paulo para o Rio. "Foi uma surpresa e tenho muito a agradecer. Meu marido sempre ajudou os outros sem esperar nada em troca. Ajuda quem quer, não fico chateada e nem pedindo. Todo mundo sabia que ele era o provedor da casa", pondera Silvia.

As outras duas companheiras do funkeiro, conta Silvia, "sumiram logo quando ele ficou doente". "É aquela história, quando tem dinheiro e fama tem muitos ao redor. Mas quem ficou com ele diariamente no hospital fui eu".
Filhos do funkeiro lembram rotina com o paizão: incentivo aos sonhos e ao estudo - Luciano Belford/Agência O Dia
Livro e documentário


Com tanta história de um dos precursores do funk carioca, a biografia do Mr. Catra já tem autor certo: o jornalista, compositor e produtor musical Nelson Motta. "Era um sonho do Catra ter sua história contada por Nelson Motta", reforça a viúva. Também está em negociação um documentário sobre a vida do cantor.

"Tinha o Catra funkeiro, estrela, mais liberal e o Wagner pai, rígido, emotivo e muito ciumento, que amava ficar deitado vendo filme e comendo pipoca com manteiga com a gente", lembra a filha Noemi.
*Sob supervisão de Clarissa Monteagudo

Galeria de Fotos

Onze meses após a morte de Catra, família se reúne no Dia dos Pais para reverenciar a memória do funkeiro fotos Luciano Belford
Família recebeu ajuda de Buchecha para se mudar da mansão de São Paulo para o Rio Luciano Belford/Agência O Dia
"Nunca vi meu marido reclamando de uma dor, ele era uma fortaleza, nos passava segurança e conforto", diz a viúva Silvia Luciano Belford/Agência O Dia
A viúva Silvia Regina Alves (centro) com cinco herdeiros do funkeiro e a neta de 6 meses voltaram a morar na comunidade Catiri, em Bangu Luciano Belford
Filhos do funkeiro lembram rotina com o paizão: incentivo aos sonhos e ao estudo Luciano Belford/Agência O Dia

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