Maternidade Fernando Magalhães, em São Cristóvão é alvo de críticas e denúncias de negligênciaReprodução

Rio - O sentimento é de revolta em mães que precisaram fazer o parto no Hospital Maternidade Fernando Magalhães, em São Cristóvão, na Zona Norte do Rio. O momento especial de dar à luz tornou-se um pesadelo para as gestantes e os filhos que sofreram sequelas nos procedimentos da unidade. Pacientes e acompanhantes acusam o hospital de negligência e mau atendimento.

A dona de casa Eliane Maria não sabe o que fazer. O filho Benjamin Silva dos Santos nasceu no dia 4 de abril. Além de ter relatado que foi mal atendida, a mãe diz que o menino teve a clavícula quebrada durante o parto normal e que a pediatra falou que o incidente era normal. A família registrou o caso na delegacia do Rocha e aguarda, passado mais de um mês, um atendimento com ortopedista pediátrico na rede pública.

"Já cheguei no início da tarde quase ganhando o bebê. Me botaram em uma sala. Não me atenderam direito. Quando meu filho nasceu eram quase 18h. Na hora do parto foram puxar o menino à força e quebraram a clavícula. A pediatra entrou na sala para fazer o exame e falou que era normal", relatou a dona de casa.

Na unidade, foi solicitado um raio-x e segundo a família, que mora em Triagem, na Zona Norte do Rio, a profissional afirmou que não havia fratura, mas apenas lesões leves. Já em casa, a mãe percebeu que o ombro do bebê estava inchado. A família juntou dinheiro para refazer o exame em uma clínica particular e a fratura foi confirmada.

"Estamos com o menino sem atendimento médico. Ele chora. Ontem à noite não dormimos com ele chorando. Passaram encaminhamento para a Clínica da Família Carioca, mas lá não tem ortopedista pediatra. Eu estou muito revoltada com aquela maternidade", desabafou Eliane.
Lidiele da Silva só conseguiu realizar a cirurgia do parto após decisão da Justiça - Arquivo pessoal/ O DIA
Lidiele da Silva só conseguiu realizar a cirurgia do parto após decisão da JustiçaArquivo pessoal/ O DIA


Ana Paula da Silva é mãe da gestante Lidiele da Silva e avó da Valentina, que nasceu no Hospital Maternidade Fernando Magalhães. Lidiele trabalha em uma escola como administradora e procurou o hospital com seis meses de gestação com dores e infecção urinária. Os médicos disseram que eram dores de dilatação e passados oito dias ela recebeu alta e foi liberada para trabalhar. As dores persistiram e Lidiele foi à Clínica da Família em Manguinhos, onde mora. "Na Clínica falaram que ela não tinha condição de trabalhar e que inclusive correria risco de aborto caso insistisse", conta a avó da bebê.

De licença médica, a bolsa estourou em casa e a família retornou ao hospital, mas a cirurgia do parto só foi realizada após determinação da Justiça. "Ficou no hospital sentindo falta de ar, sentindo dor. Falaram que tinha que segurar por duas semanas. Procurei a Justiça no quarto dia e apenas no quinto o parto foi realizado", conta a vó Ana Paula. Valentina nasceu prematura com 32 semanas no dia 30 de abril. O bebê ficou na incubadora no hospital, mas foi encaminhado nesta terça (10) para uma cirurgia após um exame identificar dificuldades na nutrição.

"Muito difícil. Ontem eu só fiz chorar por ouvir minha filha chorar. Sofremos desde o início com a negligência deles. Eles falam de um jeito que eles podem tudo e nós não podemos nada", relatou Ana Paula.
Valentina foi transferida para o Adão Pereira Nunes na manhã desta quarta-feira (10) onde uma cirurgia foi marcada para quinta-feira (11). "Os médicos lá são muito bom, totalmente diferente o atendimento", elogiou Ana Paula.

Em mais uma denúncia de sofrimento no atendimento, a cuidadora Cristiane Lobato afirmou que o nono andar do hospital, onde são realizados os partos, é conhecido como "andar da morte" pelas gestantes. Cristiane realizou o parto dos gêmeos na unidade, no dia 23 de março. Após receber alta, as dores fortes persistiram e foi constatado que restos cirúrgicos foram deixados em seu útero. "Fui muito maltratada pelas enfermeiras. Subi para o quinto andar e tive uma crise de ansiedade. Meu bebê ainda faz consultas com cardiologista no hospital mas se eu pudesse não olharia mais para esse prédio", afirmou, emocionada.
"As enfermeiras falavam para mim, enquanto eu relatava dor: 'você ainda está aqui?'. Elas me trataram como lixo. Diziam que era frescura minha e queriam chamar psicólogo para mim. Me colocaram como doida. A única medicação que me davam era dipirona. Depois, um exame mostrou que eu estava com uma coleção de inflamações", explicou. 

A cuidadora conta que outras mães reclamam do atendimento, mas não denunciam com medo de represálias. "Tem enfermeira que questiona as reclamações e sugeria tirar o bebê dali diante da insatisfação com o atendimento. Mas tem setores que o atendimento é bom. O nono andar é o andar da morte", declarou.
Cristiane ainda revelou que só conseguiu ser operada no dia 9 de abril, no Hospital Souza Aguiar, após realizar uma tomografia que constatou os restos cirúrgicos. "Ainda estou muito debilitada, não voltei para casa. As cicatrizes da cessaria e da cirurgia se encontraram, então ainda não me recuperei. Mas assim estiver melhor vou registrar um boletim de ocorrência", garantiu.
Procurada pelo DIA para esclarecer o caso, a Secretária Municipal de Saúde (SMS) informou que a direção do Hospital Maternidade Fernando Magalhães defendeu que a fratura de clavícula é uma intercorrência que pode ocorrer durante o parto. "O tratamento é conservador e, normalmente, a lesão não deixa qualquer sequela. A família recebeu todas as informações da equipe médica sobre o caso e foi orientada a fazer o acompanhamento na clínica da família", dizia a nota.

Ainda de acordo com o hospital, no caso de Lidiele, ela estava no oitavo mês de gravidez, portanto, o bebê seria prematuro. A unidade argumentou que a indicação clínica naquele momento era medicar a paciente para tentar prorrogar a gestação e, assim, permitir o desenvolvimento do feto e reduzir os riscos. "O parto cesariano foi realizado no momento indicado e a criança recebeu todos os cuidados na UTI neonatal da unidade, até a transferência para unidade de referência para a cirurgia necessária para o caso", garantia a nota.
Já o caso de Cristiane, a Secretaria Municipal de Saúde afirmou que a denúncia da paciente de que teriam ficado restos cirúrgicos em seu útero não procedia. "O que a paciente apresentou foi um hematoma na parede abdominal, uma complicação que pode ocorrer alguns dias após a cirurgia cesariana. Ela foi transferida para o Hospital Municipal Souza Aguiar e submetida a um procedimento pela cirurgia geral", finalizou a nota.