Rio – Durante os 34 anos que separam o fechamento da capela São Pedro Apóstolo, no bairro do Encantado, Zona Norte, e o início das obras de restauração da pequena igreja com traços de estilo eclético, não se pode dizer que não houve esforços da paróquia e nem mesmo da Arquidiocese do Rio de Janeiro para que o templo fosse resgatado das ruínas.
Com as obras iniciadas em março de 2021, o pároco atual, o peruano Jorge Lutz, conta que houve diversas tentativas anteriores para viabilizar a reconstrução. Porém, devido ao péssimo estado de conservação do bem tombado e aos elementos decorativos e artísticos, que exigem restauração por mão de obra especializada, o projeto de recuperação era oneroso para o orçamento da arquidiocese, e há apenas dois anos houve a verba necessária para começar as intervenções. As licenças já tinham sido adquiridas há mais de três.
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O bem foi tombado em 1996 pelo então prefeito Cesar Maia, mesmo já em estado de ruínas, por constituir exemplo da arquitetura religiosa brasileira e também na esperança de resguardar o que restava do edifício e estimular propostas de recuperação do imóvel, mas mesmo assim a igreja não conseguiu captar recursos junto ao poder público e nem à iniciativa privada.
Localizado na Rua Guilhermina, o patrimônio arquitetônico do subúrbio carioca, que completou 112 anos em 2023, estava totalmente degradado pela ação do tempo antes das obras. Construída em 1911 com material e mão-de-obra fornecidos pela própria população, em uma demonstração de que a igreja nasceu de um desejo dos moradores locais, a capela acabou sendo uma ruína na paisagem da região, com o desabamento do telhado e de uma das paredes laterais, e o risco de queda da torre central, onde ficam a cruz e a representação das chaves de São Pedro, que já foram devidamente lixadas e impermeabilizadas, um tratamento especial anticorrosivo. Já o sino é um dos poucos elementos da igreja que ficou intacto pela passagem do tempo. Ele é tocado do modo antigo, por uma corda que fica na torre, no patamar do nível do coral.
A Igreja de São Pedro Apóstolo foi idealizada após a criação da linha férrea, em 1854, quando a cidade do Rio se expandiu para além do litoral, possibilitando a ocupação das áreas menos habitadas do município. Em um país de maioria católica, era necessária a edificação de templos religiosos próximos aos fiéis. Além de ser um marco histórico do bairro, o prédio original é um símbolo de identidade e pertencimento dos moradores do Encantado.
Com o passar dos anos e o crescimento da região e do número de frequentadores, a pequena Igreja de São Pedro Apóstolo não conseguiu suportar mais o público das missas e, assim, a paróquia decidiu construir um outro prédio, fazendo a transferência total para a nova edificação em 1985. A capela diminuta, então, foi fechada.
O restauro começou em 2021 com verba da arquidiocese e agora conta com a doação dos párocos e da comunidade, mesma figura que a colocou de pé em 1911, sendo participante ativa de sua história desde a fundação. A reconstrução já passou pela fase inicial de recuperação da estrutura (para salvar as paredes do prédio e pararem de ruinar), da cobertura, refazendo o telhado, desta vez com telhas termoacústicas, que não esquentam e não deixam propagar o som, e a estabilização da torre, que estava em tijolo vivo devido a tamanho desgaste.
No momento, a obra se dedica ao revestimento de argamassa da fachada principal e da lateral interna. Terminada a restauração da parte externa, a atenção da obra passará para o interior da igreja, com o restauro do piso – que terá que ser feito por uma empresa de Petrópolis, de forma fidedigna ao original -, dos vitrais que iluminavam o interior, do patamar do coral, pintura e instalações. Os bancos de madeira estão preservados no outro templo, em frente à capela.
Com a finalização das obras da igreja, o pároco Jorge diz que as missas dominicais continuarão no templo mais recente, mas casamentos e outros tipos de celebrações poderão voltar a ser festejados na igrejinha. Além disso, a Igreja São Pedro planeja retornar com a tradição de serviço social que executava antigamente no Encantado.
"A proposta, pelo menos por enquanto, é fazer deste lugar um polo espiritual, cultural e social, que possa ter momento de oração, missas e celebrações. E ao redor, como tem um espaço grande, procuraremos fazer uma área comunitária, com serviços sociais. Planejamos assumir uma obra de atendimento aos mais necessitados, para que a igreja se torne um foco espiritual, cultural e social, com inspiração na obra de São Pedro, como serviço à população. O ressurgimento da paróquia será uma motivação para que muitos moradores também se animem a melhorar a sua casa e os seus papeis em suas famílias. Será um impulso de ânimo para melhorar muita coisa no bairro", diz padre Jorge.
As obras consomem cerca de R$ 100 mil por mês, um gasto considerável para uma paróquia pequena. Houve, há duas semanas, a liberação de R$ 200 mil de uma emenda parlamentar do deputado Marcelo Calero (Cidadania), mas o valor é específico para a recuperação da torre. Com o alto custo de operação, não há como prever quando as obras serão concluídas.
Marcos Bomfim, engenheiro calculista responsável pelo desenvolvimento do projeto, explica que a produção acontece de acordo com o que há de verba disponível: "Se há toda a quantia do orçamento, coloca-se um efetivo maior de gente, aumenta a produtividade, e consegue terminar a obra antes. Quando a quantia é escassa, tem que colocar pouca mão-de-obra e caminhar mais lentamente. Os recursos estão acabando e é provável que tenhamos uma nova paralisação se não houver mais doações", analisa, referindo-se à pausa entre dezembro de 2022 a junho de 2023 por conta de falta de montante. Atualmente, apenas seis operários trabalham na reconstrução do bem.
O engenheiro calcula que cerca de R$ 800 mil ainda sejam necessários para a finalização das obras. O padre Jorge afirma que aproximadamente R$ 700 mil já foram investidos. Para doar e colaborar com o projeto, há a possibilidade de depósito ou transferência por pix.
Banco Bradesco Agência 0814 Conta corrente 76190-7
Pix: CNPJ paróquia São Pedro Apóstolo: 33.593.575/0266-95
Pertencimento dos moradores
Tanto no quesito histórico quanto no sentimental, a Igreja de São Pedro Apóstolo tem grande importância para a população da região, fazendo parte da memória individual e coletiva dos moradores do Encantado. Mais do que um bem tombado do Rio, a pequena igreja tem uma relação afetiva com os locais.
A corretora de imóveis Glória Albuquerque, de 63 anos, mora há 61 no Encantado, e frequentava a igreja quando era criança. Ela conta que tira diversas fotos da fachada da igreja, acompanhando a evolução das obras.
"Desde que a igreja nova foi feita, estamos lutando para que esse patrimônio seja arrumado. Essa reconstrução finalizada será uma maravilha, porque eu criança vinha para a igreja. Pena que o meu pai que morreu no ano passado não vai poder ver isso, o sonho dele era ver essa igreja funcionando novamente, pois ele ajudou a construir o novo templo, mas triste em ver o antigo fechado. É um patrimônio para nós do bairro. Estamos ansiosos de ver essa igreja de volta e poder entrar, até para futuramente mostrar para os nossos filhos e netos. Sem citar que fui criada nesta igreja. Essa árvore não existia, olha quanto tempo essa igreja está aqui! Para a gente do bairro será uma emoção enorme, os mais velhos faleceram com 80 e pouco, mas nós ficamos para vermos a reinauguração", afirma, animada.
Jaime Augusto, 74, aposentado, cresceu no bairro e foi batizado na igreja. Ele diz que a voltará a capela: "Ela representa a fé do bairro. Temos muito apego pela igrejinha, gostamos mais dela do que a nova".
"Essa igreja é algo histórico do local, ela tem muita importância. É patrimônio daqui, ponto turístico e até de referência. Sempre que perguntamos sobre algum lugar, citamos a igreja como orientação", afirma, entre risos, a moradora Rosana Cavalcanti dos Santos.
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