Parque Glória Maria recebe exposição de desenhos feitos por moradores em situação de rua
'O Meu Ponto de Vista' ficará em cartaz até 15 de outubro, em Santa Teresa. 'Quis expor meu sonho, pois eu pretendo sair dessa', diz Emerson Dantas, de 38 anos
O desenho do morador em situação de rua, Emerson Dantas, foi exposto no Parque Glória Maria - Léo Motta / Arquivo pessoal
O desenho do morador em situação de rua, Emerson Dantas, foi exposto no Parque Glória MariaLéo Motta / Arquivo pessoal
Rio - Uma casa colorida rodeada por um jardim florido e um cachorro no quintal. Esta é a descrição de um dos 50 desenhos, feitos por moradores em situação de rua, expostos no Parque Glória Maria (antigo Parque das Ruínas), em Santa Teresa, Zona Central do Rio. "Quis expor meu sonho, pois eu pretendo sair dessa", diz Emerson Dantas, de 38 anos, autor da casa colorida, que vive há três anos nas ruas do Rio. Aberta ao público, a exposição começou nesta quarta-feira (27) e ficará até 15 de outubro.
A exposição "O Meu Ponto de Vista" reúne 50 desenhos feitos por 20 moradores em situação de rua, que participam de iniciativas no Centro de Referência Especializado Bárbara Calazans, no Centro. Neste espaço, a população realiza diversas atividades, como os desenhos, além de conviver socialmente e desenvolver relações afetivas.
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Natural da Bahia, Emerson Dantas da Conceição, autor da casa colorida, vive nas ruas do Rio de Janeiro há 3 anos e teve seu desenho exposto. "É um momento especial. Nunca imaginei que poderia estar nesse lugar bonito e que traz alegria. Estou muito feliz de estar neste projeto".
A mostra é realizada pelas secretarias de Assistência Social e Cultura e os organizadores esperam leva-lá para outros centros culturais da cidade. Valéria dos Santos, gerente de serviços especializados para população de rua, explicou o objetivo da exposição. "Os visitante irão visualizar produções de pessoas em situação de rua. São expressões de sentimentos, histórias de vida, sonhos e desejos", diz.
Ao DIA, o coordenador de programas da SMAS, Valnei Alexandre, comentou sobre "O Meu Ponto de Vista". "A exposição é composta pelos trabalhos feitos nas oficinas do Centro de Referência Especializado Bárbara Calazans, que atende a população em situação de rua. Além de divulgar o trabalho artístico deles, os desenhos mostram as expressões, desejos e vontades. Esta mostra também tem o objetivo de incluir os moradores em situação de rua na rede cultura da cidade, ampliando, assim, a sociabilidade".
Em uma das paredes do antigo Parque das Ruínas, agora chamado de Glória Maria, existe um banner que explica a definição de "população em situação de rua": "Grupo populacional heterogêneo que possui em comum a pobreza extrema, os vínculos familiares interrompidos ou fragilizados e a inexistência de morada convencional. [O grupo] utiliza logradouros públicos e áreas degradadas como espaço de moradia e de sustento, de forma temporária ou permanente".
Valdeci Lopes, de 57 anos, está em situação de rua há dois anos. O carioca desenhou uma grande flor vermelha e teve sua arte exposta. "A gente representa o que sente e imagina. Nunca esperei estar aqui, mas temos que ter esperança. Eu tenho sonhos e a gente pode mostrar para a sociedade que somos capaz", relata.
O escritor e ex-morador de rua, Léo Motta, foi um dos organizadores da exposição. Para ele, esta é uma iniciativa que motiva a população em situação de rua. "São pessoas que conhecem o sabor amargo da vida. Eu já estive no lugar deles. Estão nos bancos de praça, debaixo das marquises ou expostos nas calçadas. Com estes desenhos, eles trouxeram os sentimentos do presente, do passado e do futuro para os papéis. Para alguns pode ser apenas traços, mas para eles é uma realização. Que esses sonhos não fiquem só no papel", comenta.
Parque Glória Maria
Em julho, a Prefeitura do Rio renomeou o Parque das Ruínas para Parque Glória Maria. No texto do decreto, o prefeito Eduardo Paes diz considerar o "reconhecimento da personalidade e do legado da carioca Glória Maria, considerada um dos maiores símbolos do jornalismo brasileiro".
Parque das Ruínas foi renomeado após a morte da jornalista Glória MariaCléber Mendes / Agência O Dia
A decisão ainda destaca que a escolha do Parque das Ruínas se deu por conta da importância do popular ponto turístico para o município. Em 2011, a apresentadora gravou no local a Retrospectiva 2011, ao lado do jornalista Sérgio Chapelin.
O equipamento, mantido pela Secretaria Municipal de Cultura do Rio, integra a rede que será beneficiada pelo Cultura do Amanhã, anunciado pela pasta como o maior programa de modernização e requalificação dos equipamentos culturais da rede municipal.
No Parque Glória Maria, a ideia é tornar a fachada como era originalmente, com reposição de tijolos, recomposição da estrutura elétrica, além da instalação de um elevador, que ficará escondido para não "atrapalhar" a "cara" original de antes.
O imóvel foi construído entre 1898 e 1902 nas ruínas do prédio, onde foi a casa da grande mecenas da Belle Époque carioca, a socialite Laurinda Santos Lobo. Conhecida como "a marechala da elegância", ela costumava reunir intelectuais e artistas nas dependências do palacete.
O espaço apresenta programação cultural variada, além de apresentar uma vista panorâmica para a Baía de Guanabara. Com a cidade aos seus pés, o mirante do Parque Glória Maria, que fica no número 169 da Rua Murtinho Nobre, é um ótimo local para entender a geografia da cidade, no bairro de Santa Teresa.
*Reportagem do estagiário Leonardo Marchetti, sob supervisão de Iuri Corsini
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