A sociedade mudou. Com o advento da internet, cada vez mais pessoas usam as redes sociais para se conectar com o mundo. Mas, o preconceito com as pessoas mais idosas ou experientes, que leva o nome pomposo de etarismo, continua forte. Atrizes como Andréia Beltrão e Claudia Ohana, entre outras, utilizaram o Instagram para falar a respeito do assunto, que vem sendo debatido em rodas de conversa. Conseguir emprego com mais de cinquenta anos, mesmo que se tenha qualificação, é tarefa árdua. Frases como 'nossa, você está muito bem para sua idade', ou ser chamada de tia e avó pelas ruas, estampam a realidade de quem segue a vida de forma feliz, mas escuta palavras que não são nada inspiradoras.
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A boa notícia é que profissionais das mais diversas áreas estão engajadas no combate ao etarismo. De acordo com Fernanda Machado, especialista em empreendedorismo feminino e CEO do Festival Conectadas, "O etarismo é uma forma silenciosa de exclusão que impacta, sobretudo, mulheres acima dos 50 anos. Muitas vezes, essas mulheres são vistas como ultrapassadas, quando na verdade carregam um repertório valioso de vivências, habilidades e inteligência emocional". Fernanda afirma ter uma resposta para o preconceito.
"O empreendedorismo, nesse cenário, surge como uma resposta corajosa à exclusão — uma forma de ressignificar a experiência e transformá-la em potência. Empreender com base na própria trajetória é um ato de resistência e também de reinvenção. Conhecimentos acumulados ao longo da vida — sejam eles técnicos, emocionais ou sociais — tornam-se ativos fundamentais para criar negócios mais humanos, conscientes e conectados com a realidade", declara a especialista que já tem um encontro com as mulheres empreendedoras, nos dias 24 e 25 de maio, no Festival Conectadas, em Niterói.
Fernanda acredita que políticas públicas inclusivas são fundamentais para romper ciclos de desigualdade e preconceito. Para ela, ações como incentivos ao empreendedorismo feminino, acesso facilitado ao crédito, programas de capacitação para pessoas com mais de 50 anos, e campanhas educativas contra o etarismo, são algumas das estratégias possíveis.
'Envelhecer é um privilégio'
Para a psicóloga Claudia Melo, é importante frisar que não somos a idade que temos. "O ser humano é, em sua essência, pleno e com uma imensa capacidade de crescimento e autodescoberta. Precisamos internalizar que somos mais do que os números e que cada etapa da vida é uma oportunidade de crescimento — e isso deve ser celebrado, não condenado. Enfrentar o preconceito de idade não significa se isolar ou se martirizar, mas sim entender que os ciclos da vida são naturais e que cada fase oferece uma sabedoria única. "Claudia afirma que os julgamentos impostos pelo etarismo interpessoal podem ser dolorosos. "Quando outros invalidam nossa presença ou contribuição com base na idade, sentimos como se nossa existência fosse uma ameaça ao status quo. No entanto, Carl Rogers nos lembra que ninguém é capaz de entender completamente a realidade de outro ser humano. Mesmo quando o mundo nos diminua, devemos escolher nos afirmar."
Apesar de os homens também envelhecerem, o etarismo sempre atinge mais a mulher. "O etarismo e o sexismo caminham juntos, fazendo com que as mulheres sintam que sua validade diminui com o tempo. A autoestima e o autoconhecimento são os pilares para uma jornada mais saudável e autêntica. Mulheres, ao longo de suas vidas, desenvolvem uma sabedoria e uma força incomparáveis. Envelhecer é um privilégio, e as pressões externas não devem ditar a nossa narrativa", finaliza a especialista.
Esforço coletivo
De acordo com a Organização das Nações Unidas, até no âmbito do emprego, o preconceito é maior com as mulheres mais experientes e precisará de uma forte mudança, como explica a advogada trabalhista Cátia Vita. "O etarismo para ser combativo precisará do esforço coletivo que requer ações tanto dos funcionários quanto da empresa . Importante esclarecer que para colocar em prática essa missão, a empresa pode aderir a treinamentos e workshops voltados à conscientização dos funcionários sobre o etarismo e seus impactos negativos."
Para a profissional, outra recomendação para a empresa é fazer uma revisão das políticas de contratação, promoção, treinamento e desenvolvimento para garantir que sejam inclusivas e livres de preconceitos etários. "A ideia é garantir que as oportunidades sejam abertas a todos os funcionários, independentemente da idade."
Ela afirma ainda que, para acabar com o preconceito, seria importante que houvesse mais punições. Reforça, também, que muitos idosos estão no mercado de trabalho contribuindo para o sucesso da empresa e, por causa disso, essa mão de obra deve e merece ser mais prestigiada. Prova disso é que, conforme o INFORME DO DIA publicou na edição de 1º de maio, as oito Casas de Convivência da Secretaria Municipal de Envelhecimento Saudável e Qualidade da Vida encaminharão os candidatos 50+ fora do mercado do trabalho na cidade do Rio de Janeiro para um banco de vagas de empresas parceiras.
Obstáculos para voltar ao mercado do trabalho
A iniciativa é boa, mas falta muito para que situação chegue ao ideal. Ainda são poucos os empregadores que contratam pessoas com 50+. A supervisora de vendas Silvia Tomé, 53 anos, é uma das que sofrem com o etarismo no quesito emprego.
O DIA: Você tem dificuldades para retornar ao mercado de trabalho?
Silvia Tomé: Sim! Ultimamente, encontro diversos obstáculos para reingressar no mercado de trabalho; mesmo com um currículo vasto de experiências reunidas ao longo dos anos. Participo de vários processos seletivos, mas o feedback negativo já se tornou rotina. Sinto que a maturidade tem me tornado descartável. Meu perfil no LinkedIn é visualizado centenas de vezes, porém, diante de todas as expectativas geradas por essas análises, não sou convocada a nenhuma vaga.
O DIA: Quando você sente que está sendo vítima de etarismo?
Silvia Tomé: Quando enviamos currículos, passamos por diversos testes. Em todas as etapas, seja por chamada de vídeo ou pessoalmente, vemos a insatisfação nos olhos dos recrutadores. Alguns deles, estipulam o limite de idade que buscam para a vaga, não tornando coerente esse tipo de critério para uma função que só deveria exigir o conhecimento. Há um tempo, passei por uma situação constrangedora em um processo seletivo, onde todos foram ouvidos pela recrutadora, pacientemente, e quando foi a minha vez de ser entrevistada, ela nem sequer deixou eu me apresentar, me olhou de cima a baixo e, se falei por 3 minutos, foi muito! Já cheguei a receber um retorno, dizendo que "as minhas características não se enquadravam a vaga". Lamentável!
O DIA: E qual a sua relação a esse tipo de preconceito?
Silvia Tomé: Fico extremamente indignada, pois percebo o preconceito com os 50+ como se não fôssemos mais capazes de produzir algo e passar o que sabemos aos demais. Sei do meu potencial e que tenho muito a ensinar, mas que devo ser flexível em aprender também! O novo me atrai e não tenho problema algum em reconhecer quando não sei algo que o mais jovem sabe; apenas gostaria que essa troca fosse justa e válida para ambas as partes.
O DIA: Mulheres famosas como Cláudia Ohana e Andréa Beltrão, entre outras, vieram a público falar do etarismo. Como você vê o posicionamento delas?
Silvia Tomé: Todos os dias tentam nos descredibilizar, nos calar e achar que estamos ultrapassadas! Assim como essas atrizes, precisamos nos reinventar, procurar meios de sobreviver em uma sociedade preconceituosa, em relação aos 50+, e provar, a todo o instante, que somos sim capazes de contribuir de forma significativa, independente do tempo.
O DIA: Como você acredita que o etarismo poderá deixar de existir?
Silvia Tomé: Infelizmente, é um processo longo. Algumas empresas já começaram a enxergar que a maturidade traz benefícios mais seguros em relação ao comprometimento profissional, mas isso só o início! A plena conscientização é um ciclo. Essas mesmas pessoas que hoje discriminam, esquecem que amanhã estarão na mesma condição! Isso é fato! As empresas precisam de um olhar mais humanizado em relação aos 50+. Dar oportunidades para essas pessoas mostrarem as habilidades que foram conquistadas através da sua jornada profissional ao longo dos anos. Pode parecer clichê, mas o sucesso não tem idade e nunca é tarde para recomeçar!
Cultura que valoriza a juventude
Por outro lado, a especialista em liderança e gestão de pessoas e CEO da Alba Consultoria, Rosa Bernhoeft, de 85 anos, celebra a consolidação da empresa que foi aberta por ela mesma, mas também comenta sobre os danos causados pelo etarismo. Em entrevista ao jornal O DIA, ela fala sobre o assunto tão em voga nos dias atuais.
O DIA: Como você vê o etarismo nos dias atuais?
Rosa Bernhoeft: O etarismo é uma realidade ainda muito presente e prejudicial no nosso país. Vejo o preconceito etário como um dos grandes desafios da sociedade atual, especialmente no ambiente corporativo. Após 50 anos à frente da Alba Consultoria, observo que muitas empresas ainda têm uma visão limitada sobre o valor que profissionais mais experientes podem agregar. Há uma cultura que valoriza excessivamente a juventude e desconsidera a experiência acumulada ao longo dos anos.
O mercado de trabalho brasileiro continua desperdiçando um capital intelectual e humano valiosíssimo ao relegar pessoas mais velhas a posições secundárias ou simplesmente excluí-las dos processos seletivos. É fundamental entendermos que a idade traz sabedoria, resiliência e uma capacidade única de resolução de problemas baseada em vivências que nenhum curso pode ensinar.
O DIA: Você sabe que é muito difícil conseguir emprego após certa idade, principalmente no Brasil. Como você se mantêm com mais de 80 anos num cargo importante?
Rosa Bernhoeft: Acredito que minha permanência como CEO aos 85 anos se deve a alguns fatores fundamentais. Primeiro, por ser fundadora e proprietária da empresa, não enfrento as barreiras de contratação que muitos profissionais senior enfrentam. Isso me deu uma plataforma para demonstrar continuamente meu valor. Mas o principal diferencial tem sido minha postura de aprendizado contínuo. Nunca parei de me atualizar, de entender novas tecnologias e tendências de mercado. Busco constantemente reinventar minha forma de pensar e agir, adaptando-me às mudanças sem perder a essência do conhecimento acumulado. Também mantenho uma equipe diversa em idade e experiência, o que permite uma troca constante de conhecimentos. Valorizo tanto a energia e as novas perspectivas dos mais jovens quanto a experiência dos mais velhos. Esta integração intergeracional tem sido fundamental para o sucesso contínuo da empresa.
O DIA: Como você acha que o preconceito contra as pessoas idosas deve ser combatido?
Rosa Bernhoeft: O combate ao etarismo começa com a conscientização e educação. Precisamos desmistificar os estereótipos sobre envelhecimento e capacidade produtiva. As empresas precisam implementar políticas concretas de diversidade etária, não apenas como discurso, mas com metas e práticas reais de contratação e promoção de profissionais de diferentes idades.
É fundamental também que nós, pessoas mais velhas, não internalizemos esses preconceitos. Devemos continuar nos atualizando, mostrando nossa relevância e reivindicando nosso espaço com confiança. Precisamos ser exemplos vivos de que idade não é limitação.
Acredito ainda na importância de programas de mentoria reversa, onde jovens e idosos trocam conhecimentos, e em campanhas públicas que celebrem os talentos e contribuições de profissionais experientes. É necessário um esforço conjunto da sociedade, empresas e governo para criar um ambiente mais inclusivo.
O DIA: Você acredita que somente com o passar do tempo, o etarismo possa arrefecer ou são necessárias muitas ações para combater o preconceito?
Rosa Bernhoeft: O tempo, por si só, não resolverá o problema do etarismo. Na verdade, com o envelhecimento populacional brasileiro, a tendência é que essa questão se torne ainda mais crítica se não houver intervenções deliberadas. Precisamos de ações concretas e consistentes em várias frentes. É necessário criar e implementar políticas públicas específicas, como incentivos fiscais para empresas que contratam profissionais acima de 50 anos. As organizações precisam revisar suas práticas de RH, eliminando vieses de idade nos processos seletivos. O sistema educacional deve valorizar o aprendizado ao longo da vida e preparar as pessoas para carreiras mais longas e diversificadas.
A mídia tem um papel crucial na mudança de mentalidade, apresentando exemplos positivos de profissionais experientes em posições de destaque. E cada um de nós, individualmente, deve questionar e combater preconceitos etários em nosso dia a dia. O etarismo só será superado com uma ação coordenada, persistente e multidimensional. Como tenho dito ao longo de minha carreira: a idade não define capacidade, e a experiência não tem data de validade. Esta é a mensagem que precisamos difundir e transformar em prática efetiva.
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