Peixão treinou criminosos para abater helicópteros no Complexo de Israel, revela Polícia Civil
Grupo se posicionava em pontos estratégicos das comunidades com fuzis e lunetas para impedir ações policiais; atirador que alvejou helicóptero da Record está entre os presos
secretário da Polícia Civil, o delegado Felipe Curi, diz que operação foi criteriosamente planejada durante sete meses - Érica Martin/Agência O Dia
secretário da Polícia Civil, o delegado Felipe Curi, diz que operação foi criteriosamente planejada durante sete mesesÉrica Martin/Agência O Dia
Rio - A Polícia Civil descobriu que a organização criminosa que atua no Complexo de Israel, na Zona Norte do Rio, liderados por Álvaro Malaquias Santa Rosa, o Peixão, contava com uma equipe especializada em derrubar aeronaves das forças de segurança, usando armamento pesado. Os atiradores se posicionavam em pontos estratégicos da comunidade, protegidos por muros de concreto e com vantagem tática.
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A Polícia Civil calcula que nos últimos cinco anos, foram mais de 70 ataques às aeronaves militares. Um desses criminosos, com um fuzil com luneta, chegou a atingir um helicóptero da TV Record enquanto a aeronave sobrevoava a região de Cordovil, Parada de Lucas e Cidade Alta, comunidades que integram o complexo, há quase uma semana. Segundo o secretário da Polícia Civil, delegado Felipe Curi, o responsável pelo disparo está entre os presos da megaoperação realizada nesta terça-feira (10), no Complexo de Israel.
Ainda de acordo com Curi, Peixão montou diferentes equipes especializadas para impedir a entrada da polícia nas comunidades. Esses grupos eram compostos por criminosos que atuavam no anonimato. Com a operação de hoje, o secretário afirmou que esses "desconhecidos" passaram a ser os principais alvos da investigação.
"Foi uma investigação de sete meses, conduzida pela Delegacia de Repressão a Entorpecentes (DRE), com mais de 100 mandados de busca e apreensão e 44 de prisão cumpridos hoje. Uma operação criteriosamente planejada, com o apoio de outras forças de segurança. O trabalho de investigação da Polícia Civil é esse: tirar do anonimato pessoas que passavam despercebidas, mas que integravam a organização criminosa comandada por Peixão, exercendo diversas funções dentro de uma estrutura hierárquica. Funções como organizar manifestações, atear fogo em ônibus e construir barricadas", detalhou o delegado.
Veja um trecho da coletiva de imprensa desta terça-feira (10):
Em coletiva de imprensa, secretário da Polícia Civil, o delegado Felipe Curi, diz que operação no Complexo de Israel, na Zona Norte do Rio, foi criteriosamente planejada durante sete meses.
A megaoperação da Polícia Civil contra integrantes da facção criminosa Terceiro Comando Puro (TCP) no Complexo de Israel, começou nas primeiras horas da manhã e provocou o fechamento da Avenida Brasil e da Linha Amarela. Também afetou a circulação de trens, ônibus e BRT. Durante o tiroteio, quatro pessoas foram baleadas, incluindo o motorista e um passageiro de ônibus. Ao todo, 20 pessoas estão presas e os agentes apreenderam oito fuzis, duas pistolas, granadas e coquetéis molotov.
A operação é resultado de sete meses de intensas investigações, que culminaram na identificação de 44 traficantes sem mandados anteriores. Segundo apurado pela Delegacia de Repressão a Entorpecente (DRE), com apoio da Delegacia Antissequestro (DAS), da 22ª DP (Penha) e da 33ª DP (Realengo), a organização criminosa altamente estruturada e armada, atua nas comunidades de Vigário Geral, Parada de Lucas, Cidade Alta, Cinco Bocas e Pica-Pau.
A facção impõe seu domínio com o uso de barricadas, drones para monitoramento das forças de segurança, toque de recolher e monopólio de serviços públicos, além de promover intolerância religiosa.
Quem é Peixão?
Considerado um dos criminosos mais procurados do Rio de Janeiro, Álvaro Malaquias Santa Rosa, o Peixão, Alvinho ou Aarão, de 38 anos, possui uma extensa ficha criminal e chama a atenção das autoridades por práticas incomuns no mundo do tráfico.
O líder do TCP está na mira das polícias Civil e Militar há pelo menos 12 anos, quando iniciou uma política de expansionismo violento para tomar territórios do Comando Vermelho (CV). Contra ele constam 7 mandados de prisão por homicídio, tortura, associação ao tráfico e ocultação de cadáver e pelo menos 20 inquéritos em aberto. Além disso, Peixão também passou a ser investigado por terrorismo.
Adepto de símbolos de Israel, como a Estrela de Davi, o traficante passou a ser conhecido por sua intolerância contra praticantes de religiões de matriz africana e costuma expulsar esses moradores de suas áreas de influência, além de determinar a invasão e depredação de centros religiosos. A religiosidade de Peixão é tamanha que ele se autointitula como Arão, o profeta de Deus, irmão de Moisés. O nome foi assumido também pela sua quadrilha que se autodenomina "Tropa do Arão". O próprio Complexo de Israel seria uma referência à terra prometida.
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