Gilciene França e Bruno Monteiro recriam foto que saiu no Jornal O DIA em 2000Érica Martin / Agência O Dia

Rio - Há 74 anos fazendo parte da vida dos cariocas, o Jornal O DIA, além das principais mudanças sociais, culturais e políticas do Rio, testemunhou muitas histórias de amor, como a publicada em fevereiro de 2000, quando um casal de adolescentes foi retratado em uma reportagem sobre o “amor à moda antiga”, inspirada no relacionamento entre a cantora Sandy, na época com 17 anos, e o ator Paulo Vilhena. Vinte e cinco anos depois, o empresário Bruno Monteiro, 44, e a militar Gilciene França, 43, orgulham-se do casamento que sobreviveu ao tempo e da matéria feita na ocasião.
O DIA faz parte da nossa história. Até hoje as pessoas lembram da reportagem. E além de ter feito parte da nossa história, o O DIA representa confiança. Como eu vi o trabalho daquela repórter, que foi lá em casa ver se era aquilo mesmo, fez perguntas, foi conversar com a minha mãe, ela viu os vizinhos… Era uma reportagem de verdade. Quando você tem outras fontes, eu já não sei, porque é tanta fake news por aí. O DIA, para nós, é confiança. Se saiu no jornal, é porque é verdade”, destaca Gilciene.
Emocionado, Bruno revela que mantém o recorte com a reportagem de O DIA, que fez aniversário no último dia 5 de junho, como um tesouro. “Guardo até hoje, com muito carinho, o exemplar original m a nossa entrevista. Ele está inteirinho, em perfeito estado, o que só mostra a durabilidade não só do papel, mas também do conteúdo, da mensagem e, principalmente, do nosso amor”, celebra.
Início na infância
Como um enredo de livro de romance que se teria de tudo para se tornar um viral no TikTok, a história de Bruno e Gilciene começa na infância. Eles foram criados juntos em Campo Grande, Zona Oeste do Rio. Sem ter noção do que os aguardava no futuro, contrariando a tudo, eram "rivais". 
“Nós brincávamos juntos na rua. Ele ia brincar no quintal da minha casa, mas, na época, o que eu podia fazer para ele cair e se machucar, eu fazia”, conta Gilciene. Nostálgicos, eles relembram uma história em que, por volta dos 9 anos, ela o desafiou a subir em uma árvore para pegar uma fruta. O que Bruno não esperava era que, na verdade, era um ninho de marimbondos.
“Ele foi todo picado, caiu da árvore e bateu no chão igual a uma jaca. Eu saí correndo, porque sabia que a minha avó ia me bater quando soubesse que eu tinha feito isso com ele. Aí a mãe dele nunca mais deixou ele brincar na minha casa”, relata Gilciene, que deixou de ser próxima de Bruno depois do episódio.
Primeiro beijo
Anos mais tarde, na pré-adolescência, Bruno começa a trabalhar em uma padaria do bairro. Já na fase das paqueras, ele dava em cima das meninas na hora de pegar o ticket dos pães. Na hora em que entregavam o papel, ele segurava a mão. A tática não foi diferente com Gilciene, que logo percebeu as manhas e não deu muita bola.
Certo dia, enquanto ia para a igreja, Gilciene se deparou com Bruno cabisbaixo. Sem conseguir ignorar, ela parou para conversar com o rapaz, que logo converteu o encontro em mais uma investida. Logo depois, eles começam uma conversa sobre beijos.
“Ele virou para mim e falou assim: ‘Você, nunca beijou na boca, não é? Eu falei: ‘Já, já beijei um monte de vezes’. Mentira, eu nunca tinha beijado. Ele: "É, então qual é o melhor beijo? De morango, chocolate ou cereja?’. Eu, bem tonta, não percebi que estava com uma bala de cereja na boca, isso é um detalhe que ele não esquece. Eu virei e falei: "Não sei, beijo tem gosto de cuspe". Porque eu imaginava que devia ser horrível, tinha nojo. No fim das contas, para provar que eu já tinha beijado, ele fez eu dar um beijo nele. Subi no meio-fio, ele veio e me deu o meu primeiro beijo”, relembra Gilciene.
Namoro proibido
No entanto, a vergonha foi maior e nada aconteceu após o primeiro beijo. Quase três anos mais tarde, Gilciene perde o pai e recebe a visita de Bruno em casa. Acostumada com as fisionomias infantil e pré-adolescente, ela, no entanto, não reconheceu o jovem de 17 anos que foi visitar sua casa e se surpreendeu ao descobrir que se tratava do “Bruninho”.
“O Bruno, quando era novo, sempre foi gordinho. De repente, aos 17 anos, ele chegou lá sarado, bonito, de lente verde, com os cabelos molhados, compridinhos. Eu olhei para ele e achei um homem lindo”, conta Gilciene, que revela que ali a paquera teve início para valer.
Ela detalha que os dois começaram a conversar e ele foi convidado para o aniversário de 16 anos dela. Na festa, os dois não ficam juntos, mas tudo mudou na hora em que Bruno ia embora. Após Gilciene cobrar, ele dá um beijo como presente.
Achando que, mais uma vez, iria ficar apenas no beijo, Gilciene se surpreendeu ao se deparar com Bruno em seu portão no dia seguinte. Os dois começaram a conversar, e a cena, que parecia despretensiosa, passou a ser rotineira. Eles começaram a se apaixonar e decidiram oficializar o romance. No entanto, a mãe da moça não aprovou o relacionamento e proibiu o namoro. Sem conseguir ficar longe um do outro, o casal começou a namorar escondido.
“Começamos a andar mais escondidos, só que toda vez que a minha mãe descobria que eu tinha visto o Bruno, ela me batia, eu apanhava de cinto. Até que não teve jeito, o pai do Bruno foi lá em casa, o Bruno também, e a minha mãe acabou aceitando que ele ficasse conversando comigo no portão. Só que quando não tinha ninguém olhando, a gente dava os beijos”, ri Gilciene.
Vivendo um namoro “à moda antiga”, três anos depois, o caminho do casal se cruza com o do Jornal O DIA. Um dos vizinhos de Gilciene descobre, através de um amigo, que havia uma reportagem sendo feita com casais que namoravam apenas sob supervisão, relacionando ao caso de Sandy e Paulo Vilhena, e indica os dois.
“Foi o carro do DIA lá em casa com a repórter e o fotógrafo. A repórter conversou com a gente e depois ela perguntou se poderia fazer uma foto nossa. A gente sentou, no banquinho que a gente ficava, e ela sugeriu que ele segurasse a minha mão. E foi assim que a gente saiu no jornal. Todo mundo lia O DIA. Depois da matéria, a gente sentiu que todo mundo queria saber se ia dar certo. Muita gente torcia contra, muita gente torcia a favor e muita gente procurava a notícia”, conta ela.
Amor que supera o tempo
Bruno e Gilciene, que hoje moram em Sulacap, se tornaram pais de Nina há nove meses. O casal, prova viva de que o primeiro amor pode, sim, durar, está junto há quase 30 anos. O primeiro beijo, que saiu em 1994, evoluiu para um namoro apenas em 1997. Em 2004, eles se casaram, oficializando a união. Desde então, fizeram jus aos votos e caminharam juntos na alegria e na tristeza.
“A Gilciene é uma mulher batalhadora, guerreira. Nós tivemos uma vida muito difícil. Sofremos para ter o nosso primeiro neném. Ela perdeu seis gestações. Já passamos por muitas dificuldades para conseguir chegar onde a gente chegou. Nesses anos todos, a gente nunca desistiu de tentar. Estamos juntos todo esse tempo com respeito, sem patifaria, sem briga, sem agressões… agora, graças a Deus, com uma vida boa, abençoada”, celebra Bruno, que segue leitor fiel de O DIA.
“Não tem Gilciene sem o Bruno. Ele é tudo, real. Quando eu fui tirar minha identidade, ele me levou, quando fui tirar a minha carteira de trabalho, ele foi comigo, quando comecei a fazer curso, ele me levava e me buscava, quando eu perdi meu pai com 15 anos, ele apareceu lá em casa. Ele me leva, me busca, vai na farmácia, me acompanha em consulta médica…”, orgulha-se Gilciene.
“A nossa história prova que vale a pena. Vai atrás do amor, vai atrás da felicidade e batalha por isso. Quando achar a pessoa certa, fica com aquela ela, cuida daquela pessoa e aquela pessoa vai cuidar de você. Isso é muito importante”, finaliza Bruno.