Lula discusou em cerimônia de abertura do BricsReginaldo Pimenta/Agência O DIA

Rio - Em discurso de abertura da sessão 3 do Brics "Meio Ambiente, COP 30 e Saúde Global", na manhã desta segunda-feira (7), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva fez duras críticas ao dizer que o negacionismo e o unilateralismo estão corroendo o futuro do planeta.


A declaração acontece horas depois do presidente dos Estados Unidos Donald Trump afirmar que irá impor uma taxa adicional de 10% a "qualquer país que se alinhar às políticas antiamericanas do Brics". "Qualquer país que se alinhe com as políticas antiamericanas do Brics será cobrado com uma tarifa adicional de 10%. Não haverá exceções a esta política. Obrigado pela atenção", escreveu Trump.
"Hoje, o negacionismo e o unilateralismo estão sabotando nosso futuro. O aquecimento global ocorre em ritmo mais acelerado do que o previsto. As florestas tropicais estão sendo empurradas para seu ponto de não retorno. A Conferência de Nice, há poucas semanas, deixou claro que o oceano está febril", disse em referência ao desgaste de acordos internacionais, à lentidão na resposta à crise climática e às desigualdades no acesso à saúde.

Lula também criticou o modelo histórico que empurrou países do Sul Global para a dependência econômica, com a exportação de recursos naturais sem o devido retorno em investimentos e tecnologia. Segundo o presidente, é hora de romper com esse ciclo. "Precisamos acessar e desenvolver tecnologias que permitam participar de todas as etapas das cadeias de valor."

Ao tratar da crise climática, o presidente brasileiro não poupou críticas aos países ricos e às grandes corporações. Ele destacou que 80% das emissões de carbono são produzidas por menos de 60 empresas, concentradas nos setores de petróleo, gás e cimento. "Os incentivos dados pelo mercado vão na contramão da sustentabilidade". Ele citou como exemplo o financiamento bilionário de bancos ao setor de combustíveis fósseis, mesmo diante do agravamento do aquecimento global.

"Não seremos simples fornecedores de matérias-primas. Precisamos acessar e desenvolver tecnologias que permitam participar de todas as etapas das cadeias de valor. 80% das emissões de carbono são produzidas por menos de 60 empresas. A maioria atua nos setores de petróleo, gás e cimento. Os incentivos dados pelo mercado vão na contramão da sustentabilidade", disse.
Saúde global

Além do meio ambiente, o anfitrião do evento destacou a importância de tratar a saúde como direito humano universal. Segundo Lula, a pandemia escancarou as desigualdades globais e a urgência de fortalecer organismos multilaterais como a Organização Mundial da Saúde (OMS).

A recente adoção do Acordo de Pandemias foi celebrada como um passo necessário, mas insuficiente. O presidente ressaltou que muitas doenças que afetam o Sul Global, como o mal de Chagas e a cólera, já teriam sido erradicadas se atingissem o Norte Global. E criticou o abandono histórico da ciência e das políticas públicas voltadas às populações vulneráveis.

Entre as medidas apresentadas, Lula destacou a criação da Parceria pela Eliminação de Doenças Socialmente Determinadas, que pretende integrar ações em saúde com investimento em infraestrutura, saneamento, educação, moradia e renda. “Não há direito à saúde sem investimento em bem-estar social”, afirmou.

Entenda o que é o Brics

O Brics é um foro de articulação político-diplomática de países que formam o Sul Global, que busca cooperação internacional e o tratamento multilateral de temas globais.

O grupo é composto pelo Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, além de Egito, Etiópia, Irã, Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos e Indonésia, e ainda tem como países parceiros a Bielorrússia, Bolívia, Cuba, Cazaquistão, Malásia, Nigéria, Tailândia, Uganda e Uzbequistão.

Além de buscar mais influência e equidade de seus integrantes em instituições como Organização das Nações Unidas (ONU), Fundo Monetário Internacional (FMI), Banco Mundial e Organização Mundial do Comércio (OMC), o Brics tem ainda o objetivo de criar de instituições voltadas para seus participantes, como o Novo Banco de
Desenvolvimento, chamado de banco do Brics.

Além do presidente do Brasil, os líderes participantes presentes na cúpula do Brics no Rio de Janeiro são:
- Sergey Lavrov, Ministro das Relações Exteriores da Rússia
- Sheik Khaled bin Mohamed bin Zayed Al Nahyan, Príncipe herdeiro dos Emirados Árabes
- Prabowo Subianto Djojohadikusumo, Presidente da Indonésia
- Cyril Ramaphosa, Presidente da África do Sul
- Narendra Modi, Primeiro-Ministro da Índia
- Li Qiang, Primeiro-Ministro da China
- Abiy Ahmed Ali, Primeiro-Ministro da Etiópia
- Moustafa Madboul, Primeiro-Ministro do Egito
- Seyed Abbas Araghchi, Ministro das Relações ExterioresdoIrã.