Ana Maria Gonçalves, autora do livro 'Um Defeito de Cor'Marcos Porto/Agência O Dia
'Extraordinária literata': imortais da ABL celebram eleição de Ana Maria Gonçalves
Escritora, roteirista e dramaturga passou a ocupar a cadeira 33 da instituição
Rio - Imortais da Academia Brasileira de Letras (ABL) homenagearam a escritora, roteirista e dramaturga Ana Maria Gonçalves, eleita para a cadeira 33 da instituição. Nesta quarta-feira (10), ela se torna a primeira mulher negra a ocupar essa posição na ABL, que completa 128 anos neste mês. Presidente da academia, Merval Pereira destacou o romance "Um defeito de cor", eleito o melhor livro de literatura brasileira do século XXI por júri da Folha de São Paulo.
"O livro 'Um defeito de cor' foi considerado o mais importante da literatura brasileira dos últimos 25 anos. Só por isso, merece entrar para a ABL. Além disso, é uma mulher negra e a ABL está empenhada em aumentar sua representatividade entre seus pares. Ana Maria terá a função de demonstrar que a ABL está sempre querendo aumentar sua representatividade de sexo, cor, e qualquer tipo que represente a cultura brasileira. Queremos ser reconhecidos como uma instituição cultural que represente o Brasil, a diversidade brasileira. Ela aumenta nossa vontade de estar sempre presente nos movimentos sociais relevantes", pontuou.
Ocupante da cadeira 20 desde 2021, Gilberto Gil ressaltou que Ana Maria Gonçalves tem uma literatura de muito folego e potência. "A casa se sente agradecida pela vida ter nos mandado a Ana Maria para cá. Isso representa que estamos vivos e permanecemos ativos neste contexto variado, de diversidades muitas e de todos os tipos; as étnicas, as culturais, as religiosas. Acho que a eleição desta extraordinária literata representa uma ampliação muito grande da presença da Academia na vida brasileira; junto aos leitores e os apreciadores da literatura e de uma integração de todos na vida nacional", comentou.
Para a escritora e ensaísta Rosiska Darcy de Oliveira, ocupante da cadeira 10, a eleição de Ana Maria Gonçalves, que recebeu 30 dos 31 votos possíveis, é um aperfeiçoamento da democracia.
"É uma eleição histórica, não só porque ela é uma excelente escritora, mas também é uma mulher, e uma mulher negra. Esta é a primeira vez que a ABL elege uma mulher negra. Entramos numa fase de maior completude, e vamos cada vez mais nos aproximando do que é de fato a cultura brasileira", destacou.
Por fim, a professora Lilia Schwartz enfatizou estar muito feliz e esperar que abra uma linhagem de mulheres negras na ABL. "É muito importante para a Academia, para que ela seja diversa, plural e Ana Maria é uma pessoa de muito diálogo e de grande abertura, que chega com muita vontade. Fez um livro que desfilou na Sapucaí e foi considerado pela Folha de S.Paulo o livro mais importante do século XXI. É muito fundamental este lugar que ela vem ocupar e todo o mérito que é dela, e toda a luta que é dela. Vem representando as mulheres negras e um feminismo muito importante", declarou a ocupante da cadeira 9.
Ana Maria Gonçalves ocupa a cadeira que estava vaga desde a morte do professor e filólogo Evanildo Bechara, em maio deste ano. A escritora, que se tornou a mais jovem do atual quadro de imortais, é autora do clássico "Um defeito de cor", vencedor do Prêmio Casa de las Américas, em 2007, e eleito o melhor livro de literatura brasileira do século XXI por júri da Folha de São Paulo. O romance também inspirou a exposição homônima no Museu de Arte do Rio (MAR), em 2022, e o enredo da Portela, em 2024.
Ocupante da cadeira 33
Ana Maria Gonçalves nasceu em 1970, em Ibiá, interior de Minas Gerais. É formada em Publicidade e atuou na área por 15 anos antes de se dedicar exclusivamente à literatura. A autora começou a escrever contos e poemas na adolescência, embora só tenha publicado seus textos anos depois. A paixão pela leitura, no entanto, começou ainda na infância, quando ela gostava de ler jornais, revistas e livros.
Sua estreia literária aconteceu em 2002, com o romance "Ao lado e à margem do que sentes por mim". Quatro anos depois, lançou "Um defeito de cor", obra que levou cinco anos para ser finalizada. Publicado em 2006, o livro narra a trajetória de Kehinde, uma mulher africana escravizada que reconstrói sua história em primeira pessoa.
Ana Maria já morou na Bahia, em São Paulo e nos Estados Unidos, onde viveu por oito anos e foi escritora residente em universidades como Tulane, Stanford e Middlebury. Também publicou contos em Portugal e na Itália. No Brasil, ela atua como roteirista, dramaturga, professora de escrita criativa e palestrante.
Entre seus trabalhos no teatro estão as peças: "Tchau, querida!", "Chão de Pequenos" e "Pretoperitamar – O caminho que vai dar aqui". Em 2022, foi co-curadora da exposição "Um defeito de cor", considerada a melhor do ano e exibida no MAR, Museu Nacional da Cultura Afro-Brasileira (Muncab) e SESC Pinheiros.



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